O Expressionismo Alemão

Clássico é Clássico segunda-feira, 22 de junho de 2009

Aproveitando o excelente post da Uiara sobre cinema alemão, eu resolvi acabar com a burrice de vocês abordar o movimento cinematográfico mais famoso daquelas terras. Antes de vocês falarem que não conseguem imaginar nada pior do que um filme mudo e europeu, saibam de antemão que se tratam de filmes realmente bons. Não se tratam de filmes maçantes que só os “intelectualóides” pagam pau.

Histórico

O expressionismo foi um movimento que teve seu auge no cinema alemão entre os anos de 1919 e 1933, ou seja coencidindo com o período da República de Weimar (espremido entre os anos do Império Germânico que decaiu depois da 1ª Guerra Mundial e a Alemanha Nazista). Mas porque isso é relevante? Simples, se trata de um período negro, onde o medo, o terror e a violência estavam muito presentes no imaginário germânico. E como o expressionismo, quanto movimento artístico geral, trata exatamente de mostrar os sentimentos, independente do realismo, nada mais normal que ser adotado pelos cineastas da época.

 O Expressionismo é bem mais antigo que sua aparição no cinema, um exemplo é o quadro de Munch pintado em 1893

Dizem os psicólogos que essas tendências à loucura, presentes no expressionismo, refletiam a psiquê nacional, em seus desejo implícitos ou inconscientes, prenunciando a insanidade do nazismo. Mas deixemos dessa conversa cheia de palavras complexas, e vamos olhar algumas obras primas que fizeram parte desse movimento.

O Gabinete do Dr. Galigari (Robert Wiene, 1919)

Possivelmente o pioneiro do movimento, este também é considerado o primeiro filme de terror já feito. O clássico, através de flashbacks, conta a história de um doutor que hipnotiza um jovem e o induz a uma matança generalizada, até ele se recusar a matar uma jovem. O filme é lotado de efeitos surrealistas – mas parece ser uma prequência de Edward Mãos de Tesoura. Os cenários, ângulos e cenas distorcidas (como por exemplo no momento que o personagem decide sair de casa e buscar um chapéu – fora da própria cena, nos deixando olhando para o quarto vazio) quebraram com a decupagem (momento da produção, em que se define os planos em que as cenas serão filmadas) clássica e criaram um efeito único e revolucionário, que se tornou parâmetro para uma infinidade de obras posteriores. Para finalizar, o roteiro foi escrito por Fritz Lang, possivelmente o nome de maior destaque do cinema mundial da década de 20, e que você verá em outros filmes aqui citados.
Obs. Os pontos fracos do filme são seu prólogo e seu epílogo – que não existiam na versão original, mas foram impostos pelos produtores, e acabaram transformando a obra em um “delírio de um louco”, ao invés de uma crítica social propriamente dita.

Nosferatu (Friedrich Murnau, 1922)

A história dos bastidores desse clássico do terror é tão interessante quanto a própria obra. Baseado no livro Drácula (escrito por Bram Stoker), o filme enfrentou problemas de distribuição por não ter pago direitos autorais à viúva do autor. Apesar de ter algumas mudanças, como o nome dos personagens e as localidades, o juíz foi inflexível e mandou queimar todas as suas cópias. E quem diria? Se não fosse pela “pirataria”, esse filme seria citado apenas nos livros sobre cinema, já que algumas cópias já estavam em alguns cinemas antes do que deveriam.
Enfim, entre as peculiaridades da obra estavam o vampiro com cara de rato (ao invés da figura sedutora, eternizada anos depois), cenas em espaços abertos (raro em filmes expressionistas) e uma fotografia monocromática (que dá um efeito envelhecido que ajuda na composição da aura de terror) que alterna entre tons de azul e de amarelo (diferenciando noite e dia reespecitivamente). Porém, foi a atuação bizarramente perfeita de Max Schreck que eternizou este como o melhor filme de vampiro já feito.

Metrópolis (Fritz Lang, 1926)

Metrópolis é um filme tão fundamental para a história do cinema que, mesmo já tendo escrito sobre ele aqui, precisava cita-lo novamente para ter minha consciência tranquila.

Anjo Azul (Josef von Sternberg, 1930)

Filmado por um austríaco, Anjo Azul é um estudo sobre a decadência, se utilizando de toda fotografia rica em sombras comum aos filmes expressionistas. Se passando em uma cidade portuária alemã, a obra conta a história de um professor (cujo apelido é imundo) conservador que, ao descobrir que seus alunos vão ao cabaré que dá nome ao filme, tenta fazer de tudo para dar fim à história. Acontece que este se apaixona (com uma certa erotização, inédita até então) e se casa, pela cantora da casa, Lola-Lola (a lindíssima Marlene Dietrich), e larga sua carreira… para servir de bode expiatório. Carismático e degradante, esse clássico traz as principais características do movimento, e entra para a história.

M – O Vampiro de Dusseldorf (Fritz Lang, 1931)

Do mesmo diretor do magnífico Metrópolis, M, cujo título original (Os Assassinos Estão entre Nós) era um ataque ao nazismo, é baseado na história real, do assassino serial Peter Kuerten – que apesar de não matar crianças, como é mostrado no filme, conseguiu colocar a polícia em estado de alerta, de tal forma que atrapalhavam os mafiosos e delinquentes. Utilizando o som de uma maneira magistral, o clássico também conta com uma narrativa menos cansativa que dos filmes da época e com personagens mais aprofundados do que o normal. E não se trata apenas de um filme de suspense tecnicamente perfeito, também é uma crítica a hipocrisia do homem – na cena em que coloca um assassino julgando outro. Não é a toa que foi o grande responsável pelo exílio do diretor, que foi para os EUA, onde continuaria trabalhando até o final de sua vida.

Finalizando…

Apesar de serem as principais obras do movimento, outros grandes filmes fizeram parte do movimento – como outro clássico de Murnau: Fausto, mas que sirva de estímulo para os curiosos de plantão. Àqueles que se mostrarem inflexíveis, e não quiserem dar uma chance ao cinema alemão, ao menos entendam que essa veneração não é à toa – quase um século após suas produções, as obras aqui abordas continuam a influenciar e impressionar. Não resta dúvidas que se trata de arte em sua mais pura forma.

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  • Yuri Rodrigues

    Sempre gostei do expressionismo alemão… a fotografia utilizada é impressionante… luz dura, sombras, perfeito!!

    Muito embora, após um belo trabalho de pesquisa na faculdade eu tenha me interessado bastante pelo neorrealismo italiano… talvez seria legal escrever um post sobre o tema, que tem diretores tão bons como Rosselini, De Sica, Visconti.

    Recomendo!

  • vassourada

    Vou ver se escrevo sobre alguns dos principais movimentos cinematográficos. Dessa forma, com certeza dedicarei uma coluna ao neo-realismo Italiano.
    Abraços Yuri!

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