O custo da arte

Música terça-feira, 23 de outubro de 2012

Aproveitando que eu trato de muitos assuntos chatos e não sou nada engraçado, vou falar sobre o custo da arte, tema que considero bastante relevante mas que não deve retirar muitas gargalhadas de ninguém, pegando um gancho em texto do Gustavo Medina sobre os sete anos do disco In Rainbowns do Radiohead, álbum este que quebrou alguns paradigmas da indústria fonográfica.

O Loserhermano escreve no seu texto, além de outras coisas, que a iniciativa do grupo britânico pode ter sido uma mensagem sobre a relação entre arte e dinheiro, que, em linhas gerais, não pode ser realmente mensurada. Esta ideia me é muito cara, e irei desenvolver um raciocínio com base nela.

Primeiramente irei colocar uma questão prática referente ao custo financeiro de produção de uma obra de arte. O pintor compra cavaletes, pincéis e telas de vários tipos. Os custos de gravação, para uma banda, hoje em dia, não são tão elevados quanto outrora. Qualquer um com acesso a um computador e a uma mesa de som decente consegue gravar. Um filme, apesar de ser muito difícil de fazer de maneira independente e demandar de muito material humano e tecnológico, é possível de ser realizado, com a quantidade certa de esforço e tempo, com superação às adversidades. Então o que podemos pensar disto ai? Produzir arte depende em grande parte da vontade do artista. Claro que não sou inocente ao afirmar isto levianamente e sei vários problemas que este argumento pode ter. Mas não irei atentar a eles neste momento.

A segunda questão é referente aos custos que são verdadeiramente elevados para a produção artística: Divulgação e distribuição. Produções cinematográficas e fonográficas tradicionais dispendem enormes quantidades de dinheiro nestes dois itens. Sem a publicidade necessária para a difusão e a distribuição certa para captação dos lucros, os estúdios estariam fadados ao fracasso. As vezes a qualidade é menos importante que a expectativa que uma boa montagem publicitária consegue criar. No caso das artes plásticas, a publicidade vem de maneira um pouco distinta e está relacionada com o próprio campo artístico. Um pintor só tem sucesso, ou é reconhecido como artista, se for aceito pelos seus pares, por mecenas e tiverem espaços nas galerias de artes certas. Muitas vezes a diferença entre um Picasso e um pintor de flores está no local onde seus trabalhos são expostos. Fator este que é menos importante na “arte pop”. Não irei citar aqui o custo de transporte e prensagem de cds e dvds, pois vou considerar que isso é muito ultrapassado e que tudo (Menos nas artes plásticas, por motivos óbvios) possa ser distribuído em mídias digitais.

Pensamos ai dois fatores, custo financeiro de produção e custo financeiro publicitário. Em tempos de internet e de um aparecimento de novos nichos de consumo, acredito que possamos relativizar o segundo fator de custo. Sites como o Pirate Bay fazem divulgação para bandas que disponibilizam seus discos para baixarem de graça. Além disto, hoje qualquer um pode criar uma página no Facebook ou mesmo um site na internet para se auto-divulgar. O boca a boca dos fãs também ajuda, e é extremamente poderoso.

Claro, nenhuma destas alternativas são tão poderosas quanto as campanhas de uma gravadora, o poder de aparecer no Faustão, ou coisa que o valha, porém é fácil notar que muito do que se fala sobre a valorização do trabalho do artista, as campanhas contra a pirataria ou o incentivo à aquisição de formatos de mídia ultrapassados não passam de um pedido desesperado por muito e muito dinheiro. Bandas como o Metallica, que fazem campanha anti pirataria estão montadas na grana, ganhando milhões e milhões com seus shows e a venda de seus cds e músicas. Estes pedidos não têm nada a ver com a valorização do artista ou da sua arte. Isto tem a ver apenas com ganância de todas as partes.

Esta relação financeira desigual não é senão um reflexo da monetização da vida promovida pelo capitalismo. Claramente dá para se produzir arte sem abusar das pessoas que querem apreciá-la, porém existem fatores outros que impedem e que estão dentro de uma ótica de atribuição de valor financeiro ao produto final.

Por isto eu afirmo que não. A arte não pode ser medida em dinheiros de qualquer espécie. Primeiramente porque seus custos de produção são relativamente baixos e segundo, por serem bens simbólicos, não devem obedecer à lógica de mercado que rege outras esferas de consumo. Principalmente quando a obra referida pode ser replicada infinitamente – o que não é o caso das artes plásticas. o In Rainbowns veio para nos provar que certos discursos e práticas da indústria cultural estão tão ultrapassadas quanto o Didi Mocó, e que meios alternativos são uma possibilidade real. Você, artista de qualquer forma, não se prenda a esta realidade que tentam lhe vender sobre ser famoso, ter seu público e tente se adequar de alguma maneira ao tempo que estamos vivendo. Talvez o sucesso estrondoso não venha nunca, mas é improvável que não se atinja algum nível relativo de popularidade.

Nota do editor: Maldito estagiário comunista.

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