O Causo de Emily Brontë

Livros sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Após vários anos de enrolação, finalmente resolvi ler O Morro dos Ventos Uivantes, aquela história maneira sobre umas gentes inglesas com suas frescuras e costumes gringuísticos, com direito à morte, fantasma, aluguel de propriedades e mais umas coisas aí. E porra, li duas páginas e já tava rindo: O troço é mais legal do que eu pensava.

 Estou muito artístico ultimamente.

Tenho o livro há um bom tempo já, e obviamente já conhecia a existência da obra, mas a verdade é que sempre me mantive distante dela por me parecer o tipo de livro padrão sobre a época vitoriana, algo na linha da Jane Austen ou ainda da Virginia Woolf. Em outras palavras, um livro que contaria uma história num certo período de tempo cujos problemas poderiam ser resolvidos em minutos por pessoas de bom senso: Obras que só são emocionantes para quem vive o mesmo tipo de situação que beira o absurdo. E ainda assim lá estava eu, rindo logo nas primeiras páginas do livro por causa da cena que se desenrovala entre Mr. Lockwood, um dos narradores, e Heathcliff, um dos personagens principais, que é o dono da casa chamada Morro dos Ventos Uivantes… É, nome esquisito.

O que é relativamente bem conhecido acerca dos britânicos é que há uma certa rixa entre a população urbana, mais “civilizada”, e os “camponeses”: De forma geral, estes últimos são vistos como rudes e brutos por causa da menor escolaridade e toda aquela ladainha que todo mundo conhece. Emily Brontë, a autora, e suas irmãs, moravam no campo, meio isoladas, mas tinham estudo e tudo mais: As três foram escritoras relativamente bem sucedidas. Acontece que ainda assim, na época do lançamento deste livro, em 1847, as críticas não só não foram boas como muito se reclamou da falta de cordialidade retratada, além da violência física e psicológica e todo o resto. E, como em muitos desses casos, é estranho ler tais obras e achar algum tratamento impróprio, aquela coisa de “senhor” e “senhora”, florear as conversas, a sutileza, e a preferência pelo tratamento indireto de alguma questão qualquer. De forma resumida, O Morro foi mal recebido porque, como a autora levava uma vida menos “civilizada” esta tratou o livro da mesma forma, tornando-o pouco amigável para o público “urbano”.

E aí tem um problema, como mais tarde viria a ser notado: A história e os personagens são um rolo do caralho, e a história e o desenvolvimento dos personagens comprovam que apesar da narrativa ser mais simplista, o que ela retrata não é. E isso é muito bonito, anos depois a crítica mudou de opinião e hoje o troço é reconhecido como uma das grandes obras de sua época, sendo famosa no mundo todo e tendo dezenas e dezenas de adaptações, incluindo vários teatros, uma pá de filmes, duas novelas brasileiras (O Morro dos Ventos Uivantes e Vendaval), óperas, musicais e sei lá mais o quê.

Li os primeiros três ou quatro capítulos me divertindo bastante pela situação apresentada (Mr. Lockwood tratando do aluguel da Granja Thrushcross com o dono, Heathcliff) e o choque entre os dois personagens: É sempre legal ver algum inglês certinho tomando umas pancadas da vida e se sentindo despeitado… Porra, isso é um dos motivos porque O Guia do Mochileiro das Galáxias é tão legal, porque Top Gear é legal, porque Monty Python é legal. Acontece que, conforme a história de desenrola, ela fica chata. Não entendam isto errado, a história melhora, os personagens melhoram, a narrativa melhora: O livro fica melhor, só que fica sem graça.

Não vou entrar nos méritos literários aqui, mas não nego: Tanto fiquei à favor de Heathcliff quanto o odiei, desprezei e apoiei Edgar Linton, não suporto a Catherine Earnshaw, e a impotência estúpida de metade dos personagens me irrita profundamente (Tanto de forma boa quanto ruim), mas conforme a história a avança, ela perde tudo que me fez gostar dela logo naquele começo. Não creio que, passando o começo, eu tenha rido ou me divertido até o final do livro: É interessante, eu queria saber o final, queria saber como as coisas se resolveriam, mas por interesse e imersão, não porque a leitura me prendia. Li o livro com calma, mas deixei os dois últimos capítulos, os que encerram a coisa toda, prum outro dia: Eu literalmente parei de ler à pouquíssimas páginas do final e fui terminar dias depois. Pra mim isso é quase uma ofensa.

No fim, o livro que prendeu minha atenção, aquele que mudou completamente o que eu achava dele, se provou exatamente o que eu esperava: Um retrato de meia dúzia de personagens e situações que qualquer pessoa “de fora” ficaria espantada sequer de ver acontecendo de verdade. Sim, eu acompanhei os personagens e seus problemas, gostei do destino de alguns deles e não gostei dos de outros, entendi perfeitamente porque a história tem tantas e tantas adaptações. Eu me envolvi com esse livro, mas não posso deixar de me sentir enganado já que o que me fez ler foi só uma minhoca no anzol.

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