O Cansaço Passivo-Agressivo

Música segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Sou uma pessoa chata (.) quando se trata de música. E graças à isso (Ou, em consequência disso) é um tanto comum eu não ouvir música do jeito que a maioria das pessoas ouve: Eu me canso. Me canso da letra, da melodia, do ritmo. Chega um momento em que simplesmente não aguento mais ouvir uma música, mesmo que dalí à outras três músicas volte na primeira e a ouça sem problema algum… Calma que eu explico.

Não sei se é só comigo, mas há um ponto em que uma música me cansa. E não tem nada haver com o estilo, a origem ou o idioma, e nem mesmo é com músicas específicas: É tudo sobre o momento. E, claro, esse momento conta com uma infinidade de variáveis praticamente impossíveis de serem controladas. O estado atual da sua vida pode ser tido como um ecossistema completo, cheio de intrincados detalhes e com milhões de facetas, mas o momento é menor. O momento é uma simples cadeia alimentar, básica, simples, mas que, no fim, é o modo como você se relaciona, durante o “agora”, com todo o ecossistema. E não necessariamente ambos são relacionados, conectados sim, mas não relacionados como causa e efeito, ou como consequência. Pode ser completamente diferente, ou completamente o oposto, ou, ainda que igual, não deixa de ser só uma amostra do todo.

A questão é que minha predisposição (E a de todo mundo), no caso aqui, para a música, varia conforme o momento, que acaba por reagir à vida como um todo. Deixando um pouco de lado as metáforas sobre biologia, há momentos em que eu simplesmente não suporto ouvir uma música do inicio ao fim (Deixo até em parágrafo separado, pra causar mais impacto).

Há momentos em que alguns versos me bastam, ou uma pequena passagem instrumental, um pequeno efeito de distorção, ou um trecho… Enfim, cês entenderam. Só uma parte basta, sendo que o que sobra da música não é irrelevante, muito pelo contrário: O resto da música estraga a parte que eu quero ouvir. Por questão de princípio, se o que eu quero está no meio da música ouço-a desde o começo até o trecho em questão e depois pulo para a próxima. Sem culpa, sem porém, sem frescura. Mas ouço o começo… Creio que seja uma questão de ansiedade: Esperar pelo que se quer aumenta a espectativa e, como já conheço a música, não me decepciono com ela, me satisfaço.

E caso não fique claro: Sim, isso só rola com músicas que já conheço, porque afinal, se não conheço uma música, mesmo tendo-a ouvido antes, não há porque (Ou como) querer apenas um pedaço dela.

Como dito, vai do momento: Escolho a música que quero ouvir, ouço o que quero, pulo o resto. E talvez isso seja errado, e é aí que mora o questionamento presente: Uma música, como obra, é inteira. Quero dizer, ela pode ter duas partes, ou ter 10 minutos de duração, ou ser um trecho de uma história, dentro de um álbum, mas ainda assim, é inteira. Está, de um jeito ou de outro, completa. E, querendo ou não, pular parte dela é o mesmo que ler um livro até a metade e largá-lo, ou assistir um filme até o climax e desligar a TV. Não se aproveita a obra como ela foi feita para ser aproveitada, e isso não é ponto de discussão: Uma obra é avaliada (Seja em que sentido for) como um todo, não como trecho, não pela metade. Entendem o ponto? Ouve-se (Ou melhor, ouço) apenas a parte que “importa” em detrimento da obra, e isso independe de já a conhecer, de já a ter ouvido dezenas de vezes, de já cantar junto.

E é, em parte, por causa disso que, muitas vezes, conheço apenas (Por exemplo) o refrão de uma música que ouço há anos. Toda música que ouço com certo afinco tem, para mim, um trecho especial, seja a ponte, ou um verso, ou o rítmo usado numa determinada palavra. São coisas pequenas e, de certa forma, sem importância alguma para a música toda, mas para mim são os motivos principais de ouvir aquela música de novo e de novo. Taí um exemplo, caso tenham curiosidade. Mas chega um ponto em que esses pequenos trechos, guiados por momentos presentes, se tornam mais importantes para mim que a música toda. E bem, aí eu já não estou ouvindo música. Nem música nem uma música, estou me dando tapinhas nas costas. Já tenho uma escova no banheiro e um travesseiro com uma personagem de anime pra isso.

E, claro, para deixar as coisas mais divertidas, há a questão dos momentos em si. Quero dizer, cês já entenderam o que é (Muito provavelmente os têm também, mesmo não notando), mas como a vida em si, que os rege, estes são mutáveis. E frágeis. De forma direta, momentos são curtos, mesmo variando em tamanho, e variam em intensidade, frequência. São fluídos, no fim das contas, e do ponto de vista vital isso, talvez, seja ótimo, mas só sei com certeza que, pra mim, musicalmente, são uma porcaria. E o mais legal é que eles dependem unicamente de você. Sua vida, o ecossistema, conta com coisas fora do seu controle, coisas que você sequer sabe que atuam, mas a cadeia alimentar é sua, depende intrinsecamente de você, e é o modo pelo qual você norteia sua vida, afinal, é seu prisma… Não que este parágrafo inteiro seja sobre música.

Disse, em algum ponto alí em cima, que não há culpa e falo sério. No fim, talvez, eu realmente não me importe com a música; sou egoísta. Porque continuo, e sei que continuarei assim, pelo menos no futuro próximo. E o preço que isso cobra é muito alto. Não conhecer o que ouve, o que leva, indubitavelmente, à conclusão de que a música, completa, como obra, é necessária, o quê, é claro não deixa de ser estúpido: Para a música, um trecho dela mesma é um momento, uma cadeia alimentar dentro do ecossistema. E as músicas, juntas foram um álbum, uma coletânea… O bioma pode ser apenas uma casca, a camada externa, mas tudo o mais não é.

Como mérito de constatação, o abandono se torna a lei, a ignorância a regra. Generalização, é claro, afinal, momentos terminam, e os novos que se seguem podem inverter a coisa toda, dar novos sentidos e motivos, e passar a valorizar trechos antes (Em teoria) irrelevantes. Mas, para mim, outro sentido é o mais comum: Deixar as músicas anteriores de lado, e passar para outras, afinal, já ouvi todas elas antes (Seja um verso, seja inteira) e há ainda muito o que se ouvir. Já ouviu alguém, normalmente mais velho, falando de quando passava horas e horas ouvindo uma única música? Não é à toa, é o jeito de se conhecer uma música, mesmo já sabendo a letra toda e a tirando no violão. O tempo dos LPs pode ser hoje, com mp3 ou CDs, basta querer.

Meu antigo celular tinha uma lista de “músicas já ouvidas” e me irritava profundamente ouvir tudo que tinha no celular e não ver aquela lista aumentar… E, como não pode deixar de ser, a culpa é única e exclusivamente minha. A questão dos momentos, das obras como obras e das metáforas sobre biologia gira em torno de cada um, afinal, somos os agentes e os receptores e os únicos que sofrem as consequências. Não sei se consigo o tom certo: Acima da música como música, do significado que ela possa ter e da obra como obra está seu momento. Seu, pura e unicamente. E, através dele está sua vida. Para a obra é um problema, para o momento pode não ser. Cabe apenas escolher seu lado.

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  • Júlio Raphael

    Eu ia escrever “WAT”, até notar que acontece isso aí comigo. Eu acho.

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