O blues e o camaleão

Música segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Pendulum é o nome do álbum que a banda Creedence Clearwater Revival lançou em 1970. É um disco bem mediano, pra falar a verdade. Não é exatamente triste como o Mardi Gras seria, dois anos mais tarde. Nem relativamente agitado como o Willy and The Poor Boys tinha sido no ano anterior. Aliás, mais ou menos na mesma época outra banda, o Steppenwolf, lançou seu primeiro álbum, uma gravação boa de ouvir, um hard rock interessante que em uma música ou outra brincava com acordes de blues. Mas, como o leitor esperto pode suspeitar, eu não estou escrevendo essas coisas à toa.

Vem comigo.

O problema é que agora, mais de quarenta anos depois e até onde a maioria das pessoas sabe, o Steppenwolf só tem uma música, Born To Be Wild, que fez parte da trilha sonora de muita coisa, de Easy Rider a Supernatural, passando por Miami Vice e Borat. Suspeito que isso tenha ajudado na percepção de que a banda provavelmente só subia no palco pra repetir Born To Be Wild durante uma hora, enquanto uma platéia ensadecida de motociclistas brigava pra ver quem ficaria mais perto das caixas de som. É claro que isso é mentira (Tirando a parte dos motoqueiros, talvez). Inclusive, tem um álbum inteiro em volta dessa música, acreditem ou não. Quanto ao Creedence, temos um caso parecido: A quarta faixa do Pendulum atende pelo nome de Have You Ever Seen The Rain?, que pra muita gente é uma das duas músicas da banda, a outra sendo Fortunate Son, do Willy and The Poor Boys que, até minha última checagem, começa a tocar automaticamente toda vez que alguém fala as palavras “guerra” e “Vietnã” na mesma frase.

Vejam, o problema da equação “banda consagrada e boa + música consagrada e boa + um número elevado de décadas + gente comum e desinteressada” é que quase tudo que a banda fez de relevante além daquelas duas ou três músicas conhecidas acaba sendo esquecido. E isso, em termos simples, é uma grande merda. Não só por que belos trabalhos que não tiveram a sorte de virar trilha de filme acabam no limbo por nada, mas também por que essa situação contribui para a idiotia generalizada. Afinal, música é conhecimento, é enriquecimento.

 “Oi, nós tocamos uma música famosa e vamos ser mencionados nesse texto.”

Outra banda, o Dire Straits, é uma vítima grave da “síndrome da música famosa”. Sultans Of Swing é o clássico eterno deles. Tão eterno que o Mark Knopfler disse estar cansado dela, por ter que tocá-la milhares de vezes na carreira. Não é de se admirar que seja verdade, Sultans Of Swing é uma música incrível. Mas o Dire Straits tem uma lista de músicas incríveis que quase ninguém conhece: Once Upon A Time In The West, Six Blade Knife, Brothers In Arms, Planet Of New Orleans, Private Investigations. É só escolher. Elas são ótimas e aparentemente o único problema delas é não serem Sultans Of Swing. Outro paciente terminal da síndrome são os Ramones. Eles lançaram VINTE álbuns, e só lembram de Blitzkrieg Bop (Isso quando não chamam de “Hey Ho Let’s Go“). É a primeira música do primeiro álbum. Claramente, o pessoal não gosta de ir longe na pesquisa. Se fossem, iam notar Punishment Fits The Crime, I Wanna Live, Commando, e eu posso ficar aqui citando até o próximo apocalipse.

Agora, não me entendam mal. Não estou dizendo pra todos passarem a vida ouvindo discografias e descobrindo lados B obscuros. Aliás, a maioria dessas músicas que eu citei não estão encravadas no fundo de algum álbum escondido junto com o Santo Graal. São só músicas que estão ali, perto da mais famosa, presumivelmente morrendo de raiva e inveja. Ajudem elas. É como a divertida Chameleon, faixa que vem logo antes de Have You Ever Seen The Rain, no Pendulum. É como Hoochie Coochie Man, o bluezão que precede Born To Be Wild no álbum homônimo do Steppenwolf.

Só ouçam música. E nunca parem na parte rasa da piscina. Geralmente, é na parte mais funda que dá pra mergulhar e ver uns belos traseiros de biquini. Não que músicas nadem e tenham bundas. Mas enfim, vocês entenderam.

Vida longa e próspera.

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