O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby)

Bogart é TANGA! terça-feira, 10 de julho de 2012

De um filme de terror, todo mundo sempre espera que ele tenha algo de sobrenatural, um assassino psicótico ou um monstro terrível. Filmes como Psicose (1960), O Iluminado (1980) ou O Exorcista (1973) provam que esse clichê existe. Mas existe um filme que assusta qualquer um e foge desta presunção. O Bebê de Rosemary destoa e intriga cinéfilos e críticos do mundo inteiro há mais de 40 anos. Regras sempre existem e sempre existirão, mas é claro que regras servem também para serem quebradas. Um dos filmes mais assustadores de todos os tempos, a obra maior de Roman Polanski chocou o mundo em 1968 justamente por esconder o que os outros filmes fazem a maior questão de mostrar logo de cara. E por causa disso, o filme envolve e assusta o espectador como nenhum antes dele conseguiu. Poucas vezes antes dele, o terror foi tão angustiante como Polanski o fez ser em O bebê de Rosemary.

Visto hoje em dia, o filme ainda assusta, apesar de não ter nada demais. Atuações convincentes de todo o elenco, o filme vai se desenvolvendo lentamente, quase parando. A curiosidade hitchcockiana vai subindo devagar, até atingir níveis estratosféricos. Era a estreia de Polanski em Hollywood, depois dos seus primeiros filmes, ainda na Europa. A história inquietante da quieta e boa esposa Rosemary Woodhouse (Brilhantemente interpretada por Mia Farrow, que deve ter tirado da fossa a inspiração, por ter sido largada por Frank Sinatra), que vive submissa ao marido egocêntrico ao extremo Guy (John Cassavetes). Ela se muda para um antigo prédio nova-iorquino, aonde eles conhecem o casal de idosos intrometidos Minnie (Ruth Gordon) e Roman Castevet (Sidney Blackmer). Tudo muito normal. Mas o modo como estes personagens se entrelaçam na tela, a busca de Guy em ver sua carreira deslanchar como ator e o desejo deles de terem o primeiro filho no aconchego do local contrasta com estranhos boatos acerca dos ex-moradores. Muito mistério.

Um inesperado suicídio, uma invasiva amizade, a gravidez de Rosemary, o controle dos Castevet sobre suas vidas e o mal-estar da gravidez de Rosemary (Não solucionado pelo médico indicado por Minnie), tudo leva a crer que algo de macabro está acontecendo ou prestes a acontecer. O desespero dos espectadores é latente. Assim como em Coração Satânico, o clima de mistério se dissipa aos poucos e a sensação aflição de que algo vai dar errado só aumenta cena a cena.

A direção afiada de Polanski conduz o filme no ritmo certo (Apesar de alguns cortes serem meio ríspidos), seguindo o roteiro baseado em livro homônimo de Ira Levin (Roteiro esse escrito pelo próprio Polanski) fazem do filme um terror psicológico minuciosamente construído, desviando-se totalmente de tudo que já tinha sido feito anteriormente no gênero e aproximando o filme do suspense do mestre Hitchcock. É assustador perceber que os fatos e não as alucinações justificam tanto as desconfianças de Rosemary quanto a do público. Apesar do filme ter uma aura sombria e peculiar, não é o sobrenatural que assusta mais, mas simplesmente a paranóia que surge na protagonista. A trilha sonora merecia uma resenha a parte. As vezes delicada e as vezes intensa, a trilha criada por Christopher Komeda cria o clima certo para o filme, tocando sempre em seus melhores momentos. Tudo é propício ao susto, mas as situações só se tornam mais e mais tensas no decorrer da história.

É impressionante perceber o quanto Polanski era um realizador diferenciado dos demais de sua época. Ele sacrifica todas as possíveis saídas comerciais para oferecer um final apoteótico, que é nada menos do que um dos mais ousados da história do cinema. Uma provocação sem precedentes. Mesmo com todas as dicas óbvias deixadas pelo roteiro, é impossível prever o destino de Rosemary, muito menos a sua reação ao lidar com tudo aquilo. Volto novamente a citar Coração Satânico ao comparar a ousadia e o comprometimento com um roteiro bem delineado e sem frescuras ao finalizar um filme sem o desejo estridente de simplesmente chocar de graça, mas chocar mais do que qualquer outro filme de terror poderia chocar.

SPOILER AQUI, SE NÃO VIU O FILME NÃO LEIA

O final do filme é ainda mais perturbador quando descobrimos que a esposa de Polanski, a atriz Sharon Tate (Que gravou a voz da belissima canção título do filme), foi brutalmente assassinada cerca de um ano após o lançamento do filme, em 9 de agosto de 1969, quando a casa do diretor foi invadida por quatro integrantes da Família Manson (Charles “Tex” Watson, Susan Atkins, Linda Kasabian e Patricia Krenwinke), a mando do psicopata Charles Manson. Sharon, que estava grávida de oito meses do primeiro filho do casal, foi estuprada e esquartejada pelos integrantes da seita (E reza a lenda que seu filho foi arrancado de suas entranhas e devorado pelos malucos satanistas). Além de Tate, foram mortos também Steven Parent, Abigail Folger, Wojciech Frykowski e Jay Sebring. Tenso. E quanto ao spoiler, eu só escrevi isso pra garantir que vocês lessem essa última informação.

O Bebê de Rosemary

Rosemary’s Baby (136 minutos – Terror)
Lançamento: EUA, 1968
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Roman Polanski, baseado no livro de Ira Levin
Elenco: Mia Farrow, John Cassavetes, Ruth Gordon, Sidney Blackmer, Maurice Evans, Ralph Bellamy, Victoria Vetri, Charles Grodin

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