Musashi (Eijy Yoshikawa)

Livros terça-feira, 30 de novembro de 2010

O que uma pessoa que lê um livro sobre samurais espera? Muito sangue, muita batalha encarniçada, muito seppuku e muita lição espiritual. Se existisse uma fórmula de sucesso para publicações desse gênero, a receita seria mais ou menos essa. E se fosse para contar sobre a vida de um personagem histórico, a coisa ficaria ainda melhor. Como é o caso, por coincidência…

Musashi, de Eijy Yoshikawa, nos dá isso em doses cavalares, quase nos confins da overdose. Mas também dá muito mais. E não poderia ser diferente, com suas quase duas mil páginas de desencontros, amores impossíveis, aulas de história sobre o Japão Feudal e atitudes surpreendentes do nosso protagonista. Quando o clima tá fervendo e a chapa esquentando, ele pacifica e lança uma divagação desconcertante. E quando tá tranquilo, tudo numa Marley, o puto já chega tocando terror e decapitando geral. Para os amantes de uma boa leitura, nada como surpresinhas marotas como estas, hã?

Miyamoto Musashi, nascido Shinmen Takezo, era só um moleque arteiro e de fogo no rabo. Aos dezessete anos, ele parte da vila em que então vivia, para buscar a glória nos campos de batalha de Sekigahara, junto de seu amigo Hon’iden Matahachi, que, aliás, rende excelentes páginas com suas sandices livro afora. A famosa batalha, que faz parte dos anais (Eita!) da história japonesa representou um marco para o país. E isso fica bem claro para o leitor, o que é muito bom. A história e as estórias são muito bem amarradas, e elevam o livro acima da questão “romanceada” da coisa… Musashi é uma aula sobre o Japão Feudal. O livro começa no fim da batalha, e mostra o novo cenário que se inicia no país com a ascensão do shogunato Tokugawa. Entretenimento e aprendizado… Nem queijo e goiabada ou bebida e volante superam essa parceria!

É fascinante ver como um jovem faceiro e selvagem vai moldando sua personalidade dia a dia, sempre em busca do aprimoramento; não só como guerreiro, mas também como homem. Vivendo de maneira nômade, perambulando pelo Japão afora, vemos centenas de personagens cruzarem seu caminho. Muitos deles realmente existiram, como os emblemáticos Monge Takuan, Shishido Baiken, Muso Gonnosuke, entre outros. Não dá para fechar os olhos ao também lendário Sasaki Kojiro, que é magistralmente colocado em seu papel de antagonista. Aliás, a rivalidade que existe entre eles é um dos pontos altos do livro, sempre levando o leitor a pensar na questão da competitividade, da vontade de superar obstáculos, sempre visando ser o melhor. Existe muito respeito, admiração mútua e um certo temor entre eles.

Claro que estão lá também as mulheres. Algumas fortes, outras fracas, e todas esperançosas de ter seus amores correspondidos. Inclusive o amor materno. Apesar de ser um livro que conta a história de um guerreiro, o papel delas é extremamente importante, tanto para impedir que suas páginas sejam pura hemorragia quanto para atrair as moçoilas casadoiras a se aventurar em nome de um amor impossível. Vacas depressivas como a “heroína” Otsu, que vive sua vida em nome do amor por Musashi, ou loucas desvairadas como Akemi e Okoo, que só querem tocar a anarquia, são figurinhas recorrentes na narrativa. Mas nenhuma delas consegue superar a digníssima Obaba San, Osugi, mãe de Matahachi. Seu ódio e vontade de tirar a vida de Musashi obrigam a anciã a perambular atrás daquele que ela acredita ser o responsável pela “maldição” que recai sobre os Hon’iden. É a famosa sogra que ninguém gostaria de ter…

São dois belos volumes, com pouco mais de 900 páginas cada um. Pode parecer muito para os preguiçosos que mal leem um post de resumo no bacon, mas duvido que alguém consiga largar depois de começar a ler. E para dar uma colher de chá, vou dividir o post também, como bom malandro que sou…

Eles foram originalmente publicados em forma de pequenos contos, diariamente, no jornal Asahi Shimbun, entre 1935 e 1939. Foram exatos 1013 dias de publicação. Transformado em livro, vendeu mais de 120 milhões de cópias. Só no Japão. Isso dá uma ideia da idolatria e respeito que ele tem ainda hoje no país.

No primeiro volume do livro, conhecemos a história de Takezo, de como ele deixou de ser um jovem bárbaro para se tornar um homem honrado e espiritual, mas acima de tudo, humano. Após três anos trancado, recluso como punição por sua violência e selvageria, tendo como única companhia os livros, vemos o nascer de um novo indivíduo. Tanto é que a primeira medida é dar um nome para esse novo homem. Em suas andanças, busca se aprimorar como guerreiro, trilhando o caminho da espada. Nada o detém. Nem mesmo a ilusão de uma vida tranquila, como uma esposa e família. As peripécias do pequeno Joutaro, moleque andarilho e insolente, aprendiz de Musashi, as tretas com os irmãos Yoshioka, e com o clã posteriormente… É tudo muito intenso, muito vivo. Quase como se pudesse realmente visualizar os cenários e as batalhas. Quem se aventurar pelo pinheiro solitário de Ichijoji vai se divertir a valer, podes crer!

Não dá para contar muito, senão canso as vistas virgens dos leitores, mas acreditem, vale muito a pena se jogar naqueles calhamaços de páginas. Aventurem-se e sejam felizes!

E depois eu volto para falar sobre o segundo livro, e também um pouco sobre a história do maior samurai que já caminhou sobre a Terra! Sayonara!

Título do Livro


Ano de Edição: 1998
Autor: Eijy Yoshikawa
Número de Páginas: 921
Editora: Estação Liberdade

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Antes de comentar, tenha em mente que...

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  • Tody

    Devo ter demorado mais de um ano pra ler os livros. Não por preguiça, mas porque é tão fodástico que eu não queria que acabasse rápido.
    Dava uma dor no coração ler um pouquinho por dia, mas vale a pena degustar cada palavra.

  • Li até a metade do segundo livro e desencanei (um dia provavelmente voltarei).

    E, sério, nunca vi um autor ser mais frustrado em tentar fazer com que o leitor gostasse de uma personagem como com a Otsu.. passei o livro inteiro torcendo para que ela morresse e fiquei muito frustrado com o “quase” do Matahachi e da Obaba.

    Alias, achei esse “amor” que o autor colocou nela excessivamente ocidental.. parece vir de uma história romântica medieval.

    E, considerando o estilo da leitura que é Musashi e o fato de ter base histórica (embora mínima), recomendo a leitura do “Romance of Three Kingdoms” que trata de história chinesa nos séculos II-III e, em minha modesta opinião, é muito melhor.

  • Marcoth

    Ainda não tive a oportunidade de ler o livro, mas tem um mangá, Vagabond(publicado no Brasil, aliás), que conta a história do guerreiro pela imaginação de Takehiko Inoue, e é uma ótima pedida =D

  • Maurílio Moroso

    Realmente, Musashi é nota 10! Um livro fantástico, envolvente e muito divertido.

    Só não concordo muito com o Ruryk, ao dizer que acha o amor da Otsu ocidental demais…porra, qualquer um acostumado a ler literatura oriental sabe que os desencontros são a temática principal por trás dos romances…não tem nada de ocidental ali, muito pelo contrário! E tem, sim senhor, muita carga histórica nele! Não é pouca assim, não…

    Já estou esperando a continuação dessa sinopse…

    Abraços gordurosos à galera do Bacon…

  • O contexto é histórico e isso é a parte mais interessante, ainda mais mostando o descolamento do eixo de poder de Kyoto para Edo. Porém, a vida do Musashi, embora no livro existam alguns fato comprovados, é quase completamente romanceada para ligá-los em uma narrativa coerente.

    O meu problema com esse amor presente no livro é que ele é completamente anacrônico. Uma obra que se supõe tratar do século XVI não pode utilizar uma concepção contemporânea de um tipo de sentimento (amor romântico) com origem ocidental.

  • E está plantada a semente da discórdia…

    Engalfinhem-se crianças e nunca se esqueçam: leitura sim, drogas não…

  • O que importa é manter a discussão no nível intelectual, sem trollagem.

    =)

  • Ivo

    O livro tem muita coisa de história sim, principalmente na mudança política do Japão da época.
    Claro que na história pessoal do Musashi, o livro oculta algumas coisas e “romanceia” outras. Por exemplo, em nenhum momento do livro mostra que ele participou do cerco ao castelo de Osaka, mas de maneira geral, o livro representa bem a vida japonesa da época.
    Quanto à história de “amor” (palavra essa que não existe em japones) entre a Otsu e ele, considero que ela é bem japonesa. Muito mais “historicamente japonesa” do que, por exemplo, a história da Mariko com o Blackthorne do livro Xogun, que (essa sim) é ocidentalizada.

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