Mortes nos quadrinhos IV

HQs sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Dando sequência à série de artigos sobre a morte em quadrinhos, onde inicialmente fiz uma explanação geral do assunto, depois falei da importância da morte do Tio Ben na formação de caráter heróico do Homem-Aranha. e por fim abordei a morte do Superman, que teve um forte impacto por seu planejamento, e principalmente, pela cobertura da mídia.

Agora chegou a hora de falar do terceiro dos quatro personagens que quero abordar para tratar esse assunto. E para isso mais uma vez visito o Universo Marvel, mais especificamente o “aranhaverso”, já que pretendo falar da morte mais impactante da década de 70! Sim vou falar da trágica morte de Gwen Stacy!

Acho legal abrir um breve parágrafo aqui para dizer que, talvez, por causa da morte de Gwen é que o Homem-Aranha se tornou o herói mais popular, ou pelo menos um dos mais populares, do mundo. É claro que o fato do leitor rapidamente se identificar com o herói contribuiu para isso, mas foi a morte da loira que elevou ainda mais a popularidade do aracnídeo. É claro que o fato do Homem-Aranha praticamente só se fuder dar mal faz com que os leitores se vejam no personagem.

Enfim, vamos ao que nos interessa. Gwen surgiu em dezembro de 1965, em The Amazing Spider-Man #31, e logo de cara foi retratada como a garota mais bonita da universidade, que também era frequentada por Harry Osborn e Peter Parker.

De início, ela antagonizava com Peter, ao menos era o que parecia, já que na verdade ela tinha sentimentos confusos em relação a identidade nerd do herói aracnídeo. O mesmo acontecia com Parker, tanto que quando ele e Osborn se tornaram amigos, Gwen e Peter se aproximaram, se tornaram amigos e finalmente começaram a namorar.

É claro que o relacionamento dos dois chamava a atenção de todos, uma vez que todos achavam que Gwen era muita areia pro caminhãozinho de Parker. Por coincidência, logo que os dois iniciaram seu relacionamento, em sua outra identidade, Parker passou a ter um relacionamento “profissional” com seu sogro, o capitão de polícia George Stacy.

Stacy cumpriu, por um tempo, o papel paterno que antes era exercido pelo Tio Ben, e se tornou tão amigo do Homem-Aranha que quando ele descobriu que o herói era Paker manteve esse segredo apenas para si.

Nesta época, também temos a presença de Mary Jane, que posteriormente se casou com Peter, mas que na época nem dava bola para o nerd, e se destacava nas história por causa dos ciúme de Gwen. De todo modo, o amor dos dois sempre foi mostrado de forma tão intensa que ela se tornou a âncora de Peter com o mundo real, e dando a ele força e esperança para suportar qualquer dificuldade.

Ao longo dos anos, ela foi ganhando o carisma dos fãs, mesmo porque Stan Lee e os demais autores que escreviam as histórias do herói sempre os retrataram como um casal bastante natural e completamente apaixonado, com cenas de cotidiano comuns a qualquer casal de namorados.

É claro que nada que é bom dura pra sempre, e a urucubaca começou a recair sobre o casal quando uma luta do Homem-Aranha com Dr. Octopus provocou a morte do Capitão Stacy. Gwen passou a culpar o aracnídeo por causa da morte de seu pai. O relacionamento dos dois ficou abalado e Gwen chegou a ir pra Inglaterra, o que acabou gerando uma história controversa escrita em 2004, por Michael Straczynski e Samm Barnes, e que pretendo abordar em outro momento.

Enfim, Parker chegou a ir atrás dela na Inglaterra, mas como teve que agir como Homem-Aranha, ficou com medo que ela descobrisse sua identidade e retornou para os EUA. Por fim, Gwen regressou, tendo um reencontro emocionante e inesperado com Peter.

Como o amor dos dois era tão forte, a idéia do casamento começou a ficar implícita nas histórias, o que preocupava os editores da Marvel, que temiam que isso envelhecesse o herói e este perdesse a identificação do público. Com isso, nasceu a decisão que tornaria uma polêmica por anos e anos: A morte de Gwen.

Ao contrário de hoje, quando os leitores tomam conhecimento antecipadamente das histórias, na época isso não acontecia e, exatamente por essa razão, as edições #121 e #122 de Amazing Spider-Man (Junho e julho de 1973) chocaram tanto o público com o arco A Noite Em Que Gwen Stacy Morreu.

Na batalha entre o Homem-Aranha e o Duende Verde original, Norman Osborn, por conhecer a identidade secreta do Homem-Aranha, sequestrou Gwen Stacy, com o intuito de desestabilizar o herói. Na sequencia, ele jogou a moça de uma ponte, referida na história como George Washington (Embora o desenho seja da ponte do Brooklin) em Nova York.

Com o intuito de salvar sua amada, Peter, ao prender Gwen com teia pelos calcanhares, acaba fazendo com que ela quebre o pescoço, morrendo instantaneamente. E isso talvez tenha sido a razão pela qual os leitores ficarem completamente irados com a Marvel, pois apenas o fato de matar a “mocinha” não parecia ser suficiente, era preciso também fazer com que o herói parecesse culpado pela morte.

Posteriormente, para aplacar os ânimos dos leitores, foi mostrada uma nova versão para diminuir a culpa do Aranha no acidente. Além da morte de Gwen, o arco culminou com a morte do Duende Verde, que foi trespassado pelo seu próprio planador. Esta sequência ficou tão famosa que foi adaptada até para o cinema no primeiro filme do Homem-Aranha, em 2002, com Mary Jane no lugar de Gwen, e para alegria dos fãs, ela teve mais sorte que a loira, sobrevivendo ao incidente. Mary Jane também foi lançada pelo Duende Verde de uma ponte na versão Ultimate do herói e também sobreviveu.

A revolta dos fãs foi tão grande que cartas e mais carta mostrando a insatisfação com a morte de Gwen Stacy chegavam sem parar na Marvel, o que fez com que, na edição #125 de Amazing Spider-Man, os autores apresentassem uma “certa defesa” para o que fizeram, e principalmente, um atestado de que Parker havia realmente matado Gwen, como mostra o trecho abaixo (Mais ou menos traduzido) reproduzido a seguir.

“(…) nos entristece bastante dizer que, de fato, o que acabou matando Gwen foi o traumatismo causado ao pescoço devido à teia do Aranha tê-la parada tão subitamente. Em tão pouco tempo, era impossível para Peter salvá-la. Ele não teria tempo de se atirar com a teia até ela. Se ele não tivesse feito nada, ela iria morrer também devido ao impacto da queda. A ação que ele tomou resultou na morte de Gwen. Não havia saída.”

A quebra do pescoço também ficou marcada pela colocação da onomatopéia “SNAP” junto ao pescoço de Gwen. Quando a história foi republicada, muitas vezes o SNAP acabou suprimido. De qualquer forma, a história se tornou um clássico e uma das mais comentadas dos quadrinhos, e acredito eu, que ela também seja a HQ mais republicada no mundo.

Além disso, a morte de Gwen foi tão marcante que, anos depois, a Marvel resolveu trazê-la de volta como um clone, o que, por sua vez, acabou gerando a mal falada Saga dos Clones. Outro fato importante é que muitos críticos colocam este fato como o marco do fim da Era de Prata, onde, teoricamente, as aventuras dos super-heróis eram mais leves, passando a partir deste momento se tornarem mais e mais sombrias.

De qualquer forma, Gwen morreu de forma trágica, chocando todos os leitores, principalmente pelo fato de seu assassino ser o Homem-Aranha, que como herói deveria tê-la resgatada com vida.

Na minha opinião, a morte Gwen serviu acima de tudo para reforçar a personalidade de Peter, aumentando ainda mais seu heroísmo baseado na culpa e no lema “Grandes poderes trazem grandes responsabilidades”, principalmente por nos mostrar que apesar de seus super-poderes, Parker estava tão fadado a falhar quanto qualquer um de nós, meros mortais, podemos falhar ao tomarmos alguma decisão.

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