Momentos

Livros terça-feira, 10 de setembro de 2013

Momentos atrás eu estava bocejando, e por uma fração de segundo a luz apagou, e eu não sei se a luz piscou mesmo ou se eu pisquei… Passei o dia tendo ideias, meias ideias, de coisas para escrever, temas, tópicos, algumas frases legais. Bem, nenhuma delas deu em nada, pelo menos não ainda, e, basicamente, escrevo estas palavras meio por culpa disso, meio por culpa de um milésimo de segundo em que ficou, para mim, tudo preto.

Criação é um negócio estranho. Não entremos em méritos de originalidade e derivação, nem de qualidade e quantidade, mas a história é uma só: Qualquer um que tenha de criar algo se vê, várias e várias vezes, sem rumo. E, claro, isso vai das coisas mais simples, como um texto, até as mais complexas, como criar um filho, e cedo ou tarde a certeza de que daria para ficar melhor bate. E normalmente bate depois de pronta, quando não dá mais para mudar ou concertar.

Meu dia hoje foi de um tipo um tanto aborrecido: Prolífico, por um lado, cheio de ideias e possibilidades, mas por outro totalmente desperdiçado. De forma simples, eu queria, e quero, escrever algo, mas nada sai. Nada se desenvolve, se completa ou ainda leva à alguma outra coisa. Estrelas cadentes se acendem por alguns segundos e depois se transformam em pó, praticamente nem atingindo sensivelmente a Terra. Bem, talvez pó de estrela seja o melhor adubo do mundo (Ou de fora do mundo), mas ainda não é flor, e nem estrela.

Quando se encara a folha em branco, a tela apagar-se e o protetor aparecer, quando brinca-se com o lápis entre os dedos. Ou ainda quando vários e vários papéis de recado são gastos, quando cada esquina trás uma súbita ideia não tão boa assim, e quando

para-se uma sentença no meio, esperando que ela se complete.

Acho que seria o pior colunista do mundo. Já fui mal por aqui, com um texto por semana, mas quando vejo que há colunas diárias… Um texto por dia. Não sei o que deve ser pior, um livro inteiro ou uma coluna… E nem falei de restrições ainda. Talvez seja mais fácil, já que se tira a aleatoriedade do caminho, mas, de fato, não sei. Lembro do Owen Wilson nessas horas.

E lembro de Douglas Adams, por algo que ele mesmo não escreveu.

Ninguém, creio, se orgulha de admitir que já guardou um texto, obra ou o que quer que seja para depois. Pelo menos eu não me orgulho, entretanto, ainda sim é um recurso válido, ainda que feio, a se usar. Às vezes é preciso escolher entre o necessário e o absolutamente crítico, e não há espaço para altruísmo. Talvez esta seja uma boa definição de “guerra”. Ainda não decidi…

E a que se trava a todo instante. Tenho um problema pessoal em achar a palavra que quero: Até escrevê-la ela está lá, pronta em minha mente, mas na hora de botar a primeira letra ela se vai. E não adianta apelar pro Google, não dá certo. Aliás, tenho também uma totalmente inábil capacidade de chutar as primeiras letras ou sílabas de uma palavra que esqueci; não acerto uma.

A grande questão, talvez, seja o ritmo. Já que depois do começo o que se já escreveu (E não foi descartado) aponta o provável norte da coisa. Não que seja divertido e nem que fique bom, mas fica relativamente mais fácil. É absurdamente chato lutar com as palavras, as letras. Ter de passar vários e vários minutos, pensando, após cada ponto final, e o tempo todo em que se escreve algumas poucas letras torcer, mas torcer mesmo, para que o parágrafo termine logo.

Normalmente é oito ou oitenta: Se sai, mal sai, e se realmente sai, sai até demais. Pensar em conexões é uma das piores partes. Decidir como e onde colocar algo, se vai colocar mesmo ou não. De certa forma é um trabalho para encanadores: Retas, curvas, apertar tudo e não esquecer de vedar as junções, senão não dá certo. Vaza.

E talvez inspiração seja andar na rua, a pé. Dizem que chuva ajuda nesse momento, mas normalmente eu estou mais preocupado tentando achar meu destino (Porque sim, eu me perdi, de novo), e não pensando acerca de frases que soem legais ou como ilustrar de forma minimamente engraçada uma metáfora. Aliás, sim, sei que minhas metáforas são péssimas. Gosto delas, fazer o quê?

Mudar de linha também é uma questão trabalhosa… Às vezes se faz por necessidade, outras por costume. Nunca cheguei numa denominação, ainda que básica, acerca do tamanho ideal de um parágrafo. Talvez chegue algum dia, já que dizer que cada parágrafo acaba quando deve acabar é um tanto randômico e inexato demais.

Não leiam o que acabaram de escrever. Se não for uma decepção, e normalmente é, não ajudará em nada, e pode quebrar o ritmo que você demorou para adquirir. E quando só se tem ritmo, sem ideia, inspiração, fatos, notícias ou o que for, isso é um baita problema. E não procurem inspiração também, não é assim que a coisa funciona. Antigamente (Bem antigamente) recorria-se às musas, hoje acho que isso já não funciona mais. É um tanto ultrapassado, mas bem que pode ter outros motivos.

Finalmente, tem-se a necessidade de parar. Não por terminar algo que ficou grande e nem por necessidade do próprio texto, mas pelo fato de que uma vez que se começa, a inexatidão e a incerteza transferem-se da falta de capacidade de escrever algo para a falta de capacidade de decisão. Decisão esta de ver que está na hora de parar aquilo, seja o que aquilo for. É o princípio básico da inércia, e a inércia do movimento te mata mais facilmente que a inércia estática.

Hoje mais cedo a luz se apagou, e pela vontade de definição, toma-se uma decisão, um partido. Tomar decisões é um tanto trabalhoso, é inerente a perda, e nem um pouco divertido. Uns dizem que tomar decisões é necessário, outros que é inevitável, mas o questionamento varia de se é possível ou se é obrigatório… Quem sabe? Decidi escrever isso lutando a cada ponto final, talvez você tenha decidido ler, se chegou até aqui. A luz apagou aí também?

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