Literatura brasileira é ruim?

Livros terça-feira, 09 de novembro de 2010

De vez em quando, andando por ai em bibliotecas ou livrarias, sou obrigado e escutar coisas do tipo: “Literatura brasileira é uma droga! Não tem livro que preste”. Tudo bem que nem todos os livros da nossa literatura são “bons” de ler (Digo bons querendo dizer agradável, tipo aquele livro em que você senta e não consegue mais parar de lê-lo), mas quer você acredite ou não, existem sim bons autores tupiniquins!

Obviamente que o conceito de bom autor é relativo para alguns, pois nem todo imortal da ABL é necessariamente um best-seller. Da pra pegar como exemplo Machado de Assis (Pressinto xingamentos em 3…2…1), que até hoje é considerado o maior nome da literatura nacional, mas dá pra contar nos dedos a quantidade de pessoas que possuem Memórias Póstumas de Brás Cubas como livro de cabeceira.

Eu particularmente costumo apreciar tudo quanto é tipo de livro, mas até hoje não consigo acreditar que terminei de ler O Ateneu, de Raul Pompéia. Além de contar uma história muito sem sal, o livro é recheado de duplo sentido. Pra mim, o livro inteiro é uma baitolagem sem sentido, mas te gente que gosta.

 Pra mim até essa capa é suspeita

Enfim, isso não significa que não existam bons livros pra se ler dentro da literatura brasileira, você só precisa saber onde procurar. Eu sugiro buscar autores mais contemporâneos, pois alem de facilitar o entendimento da linguagem, as histórias costumam estar mais inseridas dentro da nossa realidade, o que já facilita muito o entendimento, e aumenta a diversão. Portanto, gostaria de sugerir um dos autores brasileiros que mais gosto: Érico Veríssimo. Já ouvi por ai que o triunfo da família Veríssimo foi o filho de Érico, Luiz Fernando, mas pra mim isso é uma grande bobagem. O que acontece é que enquanto o pai escreve livros com uma temática mais dramática, o filho escreve de uma forma mais engraçada com uma qualidade incrivelmente semelhante.

Enfim, o que acho mais interessante do Érico Veríssimo é a sua história. Além de quase ter morrido quando era criança, vítima de uma meningite grave, o cara já fez um pouco de tudo na vida e passou por todo tipo de problemas antes de virar escritor. Trabalhou em quitanda, em banco, e já foi até sócio de uma pharmacia. Quando percebeu que o que fazia não o satisfazia, simplesmente jogou tudo pro alto e dedicou-se ao que sempre gostou desde pequeno: Literatura.

Seu estilo varia bastante, mas quase todos os seus livros (Ou pelo menos os que eu já li), possuem grande regionalidade, e suas personagens possuem características bem sulistas mesmo. Um exemplo disso é um dos seus principais protagonistas, Rodrigo Cambará, que esbravejava frases do tipo: “Cambará macho não morre na cama!”. Apesar disso, não pense que você só vai encontrar gauchosidades nos livros desse cara. Em Incidente em Antares, rola até um protesto zumbi em plena praça pública, com direito a piquete, greve e tudo mais (Calma, tudo faz sentido quando você lê o livro do começo!). Já o livro Olhai os Lírios do Campo parece uma novela mexicana em plenos pampas, pois conta a história de Eugênio Fontes, um cara que é apaixonado por uma moça, mas casa com outra por puro interesse, e no decorrer da narrativa, ele vai analisando sua própria situação enquanto atravessa fatos históricos como a Primeira Guerra Mundial e a Revolução de 1930.

 Capitão Rodrigo Terra Cambará

Se você gosta de livros em formato de série, poderá gostar da trilogia O tempo e o Vento. De início, Érico gostaria que o livro fosse em um único volume com no máximo 800 páginas, e imaginava que levaria somente três anos para concluí-lo. Bem, no fim, a história foi divida em três partes, com mais de 2200 páginas, e levou aproximadamente 15 anos pra ficar pronta! Convenhamos, apesar de bom escritor, ele não era muito bom em planejamento.

 Eu também faria essa cara se demorasse 15 anos pra terminar um livro.

Se por acaso você tenha se interessado pela obra dessa cara, mas anda meio sem tempo (Ou sem saco mesmo) pra ler, saiba que algumas de suas obras foram adaptadas para cinema e televisão, portanto, se for do seu interesse, procure os episódios das produções listadas abaixo, ou espere a reprise em algum canal por ai.

Para Cinema:

Mirad los lirios del campo, Argentina – 1947
Baseado em Olhai os lírios do campo

O sobrado– 1956
Baseado em O tempo e o vento

Um certo capitão Rodrigo– 1970
Baseado em O tempo e o vento

Ana Terra– 1971
Baseado em O tempo e o vento

Noite– 1985
Baseado em Noite

Para Televisão:

O tempo e o vento– 1967
Baseada em O tempo e o vento

Olhai os lírios do campo– 1980
Baseada em Olhai os lírios do campo

O resto é silêncio– 1982
Baseado em O resto é silêncio

Música ao longe,– 1982
Baseado em Música ao longe

O tempo e o vento,– 1985
Baseada em O tempo e o vento

Incidente em Antares,– 1994
Baseada em Incidente em Antares

O resto é silêncio,- 2005
Em teledramaturgia especial da RBS TV Cinco vezes Érico.

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  • Machadão não é livro de cabeceira, mas o meio como ele explica as questões políticas e da sociedade da época (in)felizmente ainda mostram muito de como é a nossa sociedade, puro whiskas sachê cultural.

    Se tem um autor brasileiro com livros que prendem, este é o meu querido André Vianco. Suas histórias com os vampiros portugueses me renderam sustos e calafrios, não é algo que deverá ser analisado em sala de aula, por exemplo, mas são romances gostosos de ler no tempo livre.

    Prefiro o Érico também, mas mais que os dois, tem o Graciliano e o Lobato, os caras que eu queria encontrar pra prosear no boteco, sabe?

    Pra mim quem acha a literatura brasileira uma porcaria, na boa, não sabe “ler”.

  • Pô, Monteiro Lobato foi um visionário. Ele falou de petróleo no Brasil antes de qualquer um, e a galera na época inclusive achava que era loucura, que não tinha. Sem contar que O Sítio de Picapau Amarelo é uma série infantil ótima, porque realmente ensina muita coisa, sem ser exatamente didática.

  • vassourada

    3 Pontos distintos:
    1) Olhai os Lírios do Campo é a pior merda que um ser humano já escreveu.
    2) De Machado a Monteiro, somos privilegiados com o supra sumo da literatura.
    3) São Bernardo é, na minha opinião, o supra sumo da literatura brasileira (e mundial).
    Ps. Não consigo gostar de Memórias Póstumas, apesar da idéia (e das primeiras páginas) genial, o Machado aproveita muito pouco das possibilidades e acaba caindo em um livro extremamente tedioso.

  • Não que a literatura brasileira seja ruim, mas a maioria das pessoas consideram literatura brasileira apenas o que se conhece na escola através dos períodos literários e convenhamos tem muito livro maçante nesse meio principalmente os ligados ao romantismo em que a narrativa se passa meio que em câmera lenta.
    Mas temos sim grandes livros basta procurar um pouquinho. Marcos Rey mesmo tem bons livros – e não estou falando aqui dos que fazem parte da coleção vagalume.
    E claro Érico Verissimo como foi citado tem obras excelentes. E na minha opinião seu melhor livro é “O Prisioneiro” em que ele critica a violência em pról de um bem maior, numa trama política bem desenvolvida.

  • Lil

    Eu acho que a literatura é um dos poucos campos culturais onde o Brasil não deve nada a nenhum outro país. Temos grandes autores, sim, e grandes histórias. Érico Veríssimo acima citado é um bom exemplo.
    Mas aí nego quer ler Bruna Surfistinha e comparar com Crime e Castigo… não é assim né galera.

  • Mu

    A literatura brasileira conta com autores muito bons, particularmente adoro Machado de Assim, suas histórias nos prendem aos seus livros, ele aborda assuntos muito importantes para a sociedade como um todo, porém, para ler um livro dele ou de algum escritor de sua época é fundamental o uso de um dicionário! kkkk

    Para que haja melhor entendimento também acho que seja importante optar por autores comtemporâneos, como já foi dito, Luiz Fernando Veríssimo é muito, muito bom mesmo!

    MUITOOOOOOOOO BOM JOÃOOO!

  • O corredor

    Gostei muito do artigo, pois estimula a pensar na cultura e conhecer um pouco da nossa Literatura.
    Sobre o que ler temos livros muito bons, na minha opinião, um fator importante para um livro cativar é a identidade leitor-livro, portanto se o leitor se identificar com Brás Cuba ele se tornará interessante.
    Como passei por muitas fases, devido aos muitos anos, li vários autores. Li Machado e gostei bastante, assim como Li Guimarães Rosa, Literatura de Cordel, Inácio Brandão de Loyola, Millor, Henfil, Patativa de Assaré, Ariano Suassuna entre outros e gostei de todos eles na fase que li, isto não significa que gostei de todos ao mesmo tempo.

    Parabéns pelo artigo
    Um abraço

  • Monica Calabria

    Creio que o problema primeiramente é que brasileiro tem por costume não valorizar o que é nosso, sempre enaltecendo (chupando o pau) dos gringos. Isso se estende ao cinema e outros campos em geral. Tem coisa boa sim, é apenas tirar essa venda de preconceito c que as pessoas tem e não vem o que há de bom. Essa semana li um livro muito bom, de um escritor manaura chamado Milton Hatoum; Dois Irmãos. é um livro que vc não consegue parar de ler até o fim, te prende que é uma beleza. Outro que ninguem citou aqui é Jorge Amado, um puta de autor, um dos poucos que eram leitura obrigatória na escola que gostei de ler. Mas isso não quer dizer que não existam coisas maçantes também, esse Ateneu até hoje não tive coragem de acabar de ler, é um pé no saco mesmo.

  • Hermes

    Concordo com absoutamente tudo dito no texto. Não gosto de Machado de Assis, acho que suas paradas pra falar com o escritor simplesmente quebram a história e o ânimo que pode-se começar a ter em certo momento. Pessoalmente, o melhor escritor da Literatura Brasileira é esse mesmo que foi citado, Erico Verissimo (sem acento mesmo). Tanto o modo como ele escreve quanto a história que ele conta eu acho estupendas. Pra mim, basta comparar a dita melhor obra de Erico com a dita melhor obra de Machado; O Continente, sem dúvida alguma, dá uma surra braba de relho em Memórias Póstumas ou Quincas Borba.

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