Intocáveis (Intouchables)

Cinema terça-feira, 04 de setembro de 2012

 Na sequência de um acidente de parapente que o deixou tetraplégico, Philippe (François Cluzet), um aristocrata francês de meia-idade, decide contratar alguém que o apoie nas suas rotinas diárias. É então que conhece Driss (Omar Sy), um jovem senegalês de um bairro problemático, recém-saído da prisão. Driss é, segundo todas as aparências, alguém totalmente inadequado à função, porém Philippe, estabelecendo com ele um vínculo imediato, contrata-o. Assim, com o passar dos dias, aqueles dois homens com vidas tão díspares vão encontrar coisas em comum que ninguém julgaria possíveis, nascendo entre eles uma amizade que, apesar de improvável, se tornará mais profunda a cada dia.

Nunca assisti um filme com tamanha desconfiança. Leiam a sinopse e me falem que parece ser um saco de filme, com um monte de besteira sentimental proibida para pessoas diabéticas? Acontece que tem besteiras sentimentais, mas não é só isso minha gente. Já digo que vou babar ovo pro filme mesmo, vocês que se danem. Só pra deixar claro também, o filme é baseado em fatos reais.

Minha relação com comédias é pra lá de complicada, não sou voluntarioso e não me coloco disposto a rir a todo momento com qualquer bobagem. Acho que por causa disso acabo preferindo o humor negro, que não necessariamente te faz gargalhar, apesar de involuntariamente te fazer soltar aquele sorriso maligno de canto de boca. Nem vou falar o que eu acho das dramédias em geral, porém este filme me deixou com pulga atrás da orelha. O humor é ao mesmo tempo leve e pesado. Não deixa de ter uma pitada de humor negro, porém com uma consciência que não o deixa ser. As piadas sobre a tetraplegia de um dos protagonistas são ao mesmo tempo leves e pesadas, num dicotomia que, desde a premissa do filme, faz sua beleza.

O filme fala sobre uma amizade que é pouco provável de acontecer. Driss (Omar Sy) é um maluco do gueto, que só queria provar que tinha ido a uma entrevista de emprego pra poder desfrutar tranquilo da sua condicional. Porém, por causa de sua atitude, digamos, para frente, ele acaba chamando a atenção de Philippe (François Cluzet), o ricaço tetraplégico. Desse mote, começa a relação entre os dois. Além deles, o filme também tem participação efetiva de Yvonne (Anne Le Ny), governanta solteirona, mas que é até gente boa e Magalie (Audrey Fleurot), uma ajudante de Phellippe altamente boazuda, com a qual Driss tenta se atracar a todo momento.

 “Ou, me carrega ai, to com preguiça.”

O filme, apesar de tratar de assuntos delicados, tem momentos extremamente engraçados. Não esperava em momento algum, mas ele me arrancou diversas gargalhadas, principalmente pela grande atuação de Sy, que conduz o personagem de maneira magistral. Driss é tudo de errado para a classe aristocrática: Fala demais, não tem modos, gesticula excessivamente, mas são estes elementos que criam invariavelmente um personagem carismático, quando bem conduzidos, como foi o caso.

Phellippe é um cara que está cansado de ser tratado com coitado, e vê em Driss a oportunidade de ser humanizado, uma vez que o segundo não tem pudor algum em debochar da condição em que o primeiro se encontra. E uma das melhores falas de Driss deixa isso bem evidente: “Se não andar, M&M não irá ganhar”.

A relação entre os dois é cômica e comovente. Driss ajuda Phellippe pegar mais leve com seus demônios e medos, enquanto é ajudado a se tornar uma pessoa mais culta, porém sem abandonar aquilo que o define.

O filme tem boas sacadas, como por exemplo quando eles vão sair pela primeira vez e Driss se nega a entrar em um furgão adaptado para a condição do seu co-protagonista, e o obriga a ir de Mazzeratti, mesmo não sendo nenhum pouco prática para um tetraplégico. Por outro lado, as vezes me parece que Phellippe é tranquilo demais com sua condição, apesar de isso não atrapalhar muito o filme, acredito que ser tetraplégico não deve ser muito agradável (Oh! rly?).

 Para aliviar a dor.

Sobre a parte técnica não há muito a se comentar. A fotografia é bacana e a trilha sonora é correta, nada que se destaque demais, mas nada que atrapalhe também.

Os outros personagens não interferem tanto na dinâmica do filme, sendo que este é bem focado na relação entre os protagonistas, o que é o maior ponto negativo deste filme. Não existe espaço nenhum para se desenvolver nenhum dos outros personagens. Por exemplo, a filha de Phellippe é totalmente mal explorada e veja o potencial: Ela é adolescente, a mãe morreu quando era pequena e além disso é adotada. Uma adolescente que tem potencial para ter todos os problemas e ainda é filha de um tetraplégico. A família problemática de Driss também passa quase sem menção nenhuma, tirando sua irmã, e seu irmão envolvido com a bandidagem, mas que assim como a filha de Phellippe, não ganham mais do que uns segundos em tela. Deste modo, o filme deixa escapar uma chance de mostrar como os dois interagem profundamente com outras pessoas.

Tirando estes pequenos problemas, Intocáveis é isso: Um filme onde o drama é implícito, na condição de personagem mais do que em momentos dramáticos propriamente ditos, e que nos ensina a tirar o máximo da vida independente da sua condição (Tudo bem que sendo milionário é mais fácil, mas enfim). E no final vale as quase duas horas, que terão momentos engraçados e emocionantes. Recomendo demais.

Amizade Improvável

Intouchables (112 minutos – Comédia Dramática)
Lançamento: França, 2011
Direção: Eric Toledano, Olivier Nakache
Roteiro: Eric Toledano, Olivier Nakache
Elenco: Anne le Ny, Audrey Fleurot, François Cluzet, Omar Sy

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