Hiperclássicos

Clássico é Clássico segunda-feira, 08 de junho de 2009

Para comemorar a estréia do Bacon Frito, resolvi escrever uma coluna extremamente pretensiosa: escolher doze filmes que excedem a condição de clássicos, verdadeiras obras primas, sem as quais o mundo do cinema não seria o mesmo. Não se trata de uma lista dos melhores ou mais influentes filmes já feitos, muito menos dos meus favoritos, mas daqueles que excederam os limites a modo de criar um novo patamar. Tão importantes que eu resolvi chama-los de hiperclássicos.
Chegar a uma lista final foi desgastante. Passei por, literalmente, centenas de clássicos, e escolher quais deveriam ganhar essa alcunha foi um teste dificílimo, que me colocou no limite, e minha meta foi demonstrar minha paixão e respeito pelo cinema. Quando penso nas grandes obras que tive que deixar de fora me bate uma grande agústia, mas que em compensaçã,o me deixa orgulhoso da lista final.
Além da Uiara, agradeço minha colega de aspirações (e quem sabe, parceira de projetos cinematográficos) Jullie, a qual espero contar com a ajuda em colunas futuras.
Mas deixemos de papo e vamos aos Hiperclássicos (dispostos em ordem cronológica).

O Nascimento de uma Nação, D.W.Griffith (EUA, 1915)

O que um filme arrastado, datado e extremamente racista estaria fazendo em uma lista como essa? A resposta é simples, O Nascimento de uma Nação marcou o fim da infância do cinema. Foi a partir dessa obra que os filmes começaram a tomar a forma que conhecemos hoje em dia. Um trabalho primoroso em seus quesitos técnicos, esse épico criou artíficios que se tornaram essenciais. Cortes rápidos, close-ups faciais, câmeras em movimento, tudo nasceu com essa obra. Não é a toa que Charles Chaplin chamou Griffith de “o pai de todos nós”.
Este filme de mais de três horas, levou mais de um milhão de pessoas ao cinema e foi considerado o “blockbuster” (termo que, décadas depois, Tubarão, de Spielberg, reescreveria) de sua época. A trama mostrando a hedionda limpeza racial e religiosa feita pela Ku Klux Klan, recebeu diversas críticas e foi proibido em diversos países. Griffith contestou alegando contar apenas uma história real, e confirmou um ano depois com outro clássico: Intolerância, um ataque ao preconceito.

O Encouraçado Potemkin, Sergei Eisenstein (URSS, 1925)

Eisenstein foi um dos maiores teórico da história do cinema. Seus livros o Sentido do Filme e a Forma do Filme são uma literatura essencial para qualquer um do meio. Mas antes disso, já havia mostrado na prática suas idéias inovadoras. Em sua segunda obra, não só fez um filme sobre a revolução como reinventou a linguagem cinematográfica, rompendo com a teatralidade das atuações e com a linearidade, consideradas essenciais até então.
Trazendo o poder da montagem (associação de duas ou mais cenas através de cortes), mostrou como esta construia novas significados. Ou seja, o filme ganhou uma nova dimensão: se entendia não só pelo que era narrado, mas da forma como era. Em sua cena mais famosa (o massacre na escadaria de Odessa), levou o poder do simbolismo ao máximo e ficou eternizada na história do cinema.

Metrópolis, Fritz Lang (Alemanha, 1926)

A principal obra do expressionismo alemão (que trouxe clássicos como O Gabinete do Dr.Caligari, Nosferatu e O Anjo Azul) o filme se passa nos anos 2000, e traz uma visão pessimista do futuro, cuja estética serviu de base para filmes como Blade Runner, Matrix e Inteligência Artificial. A história da cidade futurista em que os ricos moravam no alto e os trabalhadores, explorados, no subsolo, conseguiu a façanha de ser acusado de esquerdista pelos nazistas e de fascista pelos comunistas.
Também tratando de temas como o poder da imagem e da religião, a obra, um dos filmes mais caros da história, agradou tanto a Hitller que Fritz Lang chegou a ser chamado para ser o gestor do cinema nazista (o que levou o diretor a fugir pro EUA). Até hoje se discute se é ou não o criador do gênero de ficção científica, mas isso é apenas um fato adicional a essa importantíssima obra.

Tempos Modernos, Charles Chaplin (EUA, 1936)

Um dos filmes mais assistidos de todos os tempos, essa crítica à transformação do homem em máquina, fez com que Chaplin passasse a ser perseguido politicamente. Quase uma década depois do surgimento do som no cinema (com o Cantor de Jazz), Tempos Modernos mais parece um filme mudo devido a sua falta de diálogos. Proibido na Alemanha de Hitller e na Itália de Mussolini, a comédia, que imortalizou o personagem Carlitos, conta a história de um operário afetado pelo seu trabalho repetitivo e que é preso, ao ser confundido com um comunista. Apesar de não trazer novidades técnicas, seu conteúdo político escancarado foi o suficiente para coloca-lo nessa lista.

Branca de Neve e os Sete Anões, David Hand (EUA, 1937)

É triste perceber o quanto a animação é deixada de lado nas principais listas sobre cinema. Mas não será o caso desta, principalmente por que Branca de Neve e os Sete Anões foi decisivo para o estabelecimento do gênero, sendo o primeiro longa metragem animado e cravando o nome de Walt Disney (que gastou quase dez vezes mais do que o orçamento orignal) na história cinematográfica.

Cidadão Kane, Orson Welles (EUA, 1941)

Considerado por muitos o melhor filme da história, é indiscutível a importância da obra. Dirigido, protagonizado e co-roteirizado por um estreante Orson Welles, Cidadão Kane conta, através de relatos de diferentes pessoas, a história da vida e morte de um poderoso magnata. A utilização de técnicas revolucionárias, desobedecendo uma série de códigos estabelecidos, e mudou de forma fundamental a história do cinema.
Com um roteiro anti-linear, personagens psicologicamente complexos e inovações quanto a montagem, iluminação e cenografia, a única explicação para ter levado apenas um Oscar, foi a massiva propaganda contrária de jornalistas como William Randolph Hearst, em que o polêmico personagem havia sido inspirado.

Roma, Cidade Aberta, Roberto Rossellini (Itália, 1945)

O filme do neo-realismo italiano, não podia ser mais didático quanto ao movimento que ele próprio iniciou. Filmado logo após a 2a Guerra Mundial, a obra é rodada nas ruas ainda destruidas de Roma e se utiliza de atores não profissionais e improvisos para contar a história da resistência da população à invasão nazista. Respondendo de forma radical a artificialidade de Hollywood, não há cenários ou maquiagem para suavizar o sentimento de desesperança e morte. O roteiro assinado pelo lendário Fellini, acaba por agravar essas sensações, contando com diversas cenas de alto teor dramático, uma delas (quando o personagem de Anna Magnani corre atrás de um caminhão) eternizada na história do cinema. Não é a toa que foi a grande inspiração de cineastas como Jean Luc-Godard e Nelson Pereira dos Santos, que trariam obras igualmente importantes anos depois.

Cantando na Chuva, Gene Kelly e Stanley Donen (EUA, 1951)

Se dois anos antes, através do lendário Crepúsculo dos Deuses, Billy Wilder havia mostrado de forma pessimista a transição do cinema mudo para o falado, o mais famoso musical da história não fez feio ao mostrar de forma otimista essa mudança. Mas nem tudo era alegria, os problemas nos bastidores causados pelo temperamento explosivo do astro Gene Kelly, se tornaram igualmente famosos. Ainda sim, foi ardendo em febre que o protagonista e co-diretor realizou o icônico número de dança, e lançou uma mensagem de esperança e alegria para o mundo.

Acossado, Jean-Luc Godard (França, 1959)

Iniciando o movimento cinematográfico mais famoso da Europa, a nouvelle vague, Acossado foi baseado no argumento e dirigido, reespectivamente, pelos até então críticos, François Truffaut e Jean-Luc Godard. Foi misturando a narrativa hollywoodiana com outros movimentos, como o neo-realismo, que o diretor rompeu com as técnicas vigentes e provocou o renascimento do cinema. Com o roteiro sendo escrito no dia das filmagens, diálogos improvisados, referências ao período clássico e a cultura pop, além de uma edição que juntava cortes rápidos com sequências longas (como a uma conversa no banheiro de quinze minutos), a obra tinha tudo para dar errado. Mas foi justamente ao contrário. A história do ladrão de carros que mata um policial, e vai para a Paris (aonde se apaixona por uma estudante americana), revolucionou e deu um novo ânimo ao cinema mundial.

Psicose, Alfred Hitchcock (EUA, 1960)

O mestre do suspense foi provavelmente o cineasta mais perfecionista da história do cinema (o que explica a quantidade absurda de clássicos produzidos, como Os Pássaros, Intriga Internacional, Janela Indiscreta, Um Corpo que Cai, Disque M para Matar, O Homem que sabia Demais, Frenesi, entre vários outros). Ainda sim, foi em Psicose que ele levou isso ao limite. Não é a toa que custando menos de um milhão de dólares, a obra arrecadou cerca de quarenta vezes mais. Para se ter idéia, a cena do chuveiro (que se tornou provavelmente a mais famosa já feita) demorou cerca de um semana para ser feita e utilizando câmeras em setenta ângulos diferentes. A paranóia para que o segredo do personagem Norman Bates não fosse descoberto era tão grande, que o diretor (além de comprar centenas de livros, cujo roteiro custou apenas nove mil doláres) aparecia no início da obra pedindo que a platéia não contasse ele, após a exibição. O resultado não poderia ser diferente – Psicose é, até hoje venerado como o mais influente filme de terror já feito.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, Glauber Rocha (Brasil, 1964)

Nas principais listas de melhores filmes brasileiros, quatro nomes são figuras garantidas, o inovador Limite, dirigido em 1930 por Mário Peixoto, o recente Cidade de Deus de Fernando Meirelles, e ao menos duas das grandes obras de Glauber Rocha: Terra em Transe e o filme aqui referido. Além de sua importância política – foi lançado as vésperas do golpe militar, é devido seu aspecto crítico, que essa obra rouba os holofotes. Com uma visão pouco romantizada do sertão (não existem vilões ou mocinhos), o diretor mescla o realismo à metáfora chamando a atenção para os problemas do terceiro mundo, ao contar a história de um boiadeiro que se rebela contra seu cruel patrão, e parte em busca de um líder. Acompanhado de sua mulher, ele renúncia dos bens materiais e segue um líder religioso, para depois entrar na lutar armada ao lado do sanguinário Corisco. O esclarecido mercenário Antônio das Mortes que tem papel fundamental, ao mostrar as verdades do mundo pela sua própria ótica, ainda apareceria na continuação O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro, que daria a merecida palma de ouro ao diretor.

Pulp Fiction – Tempo de Violência, Quentin Tarantino (EUA, 1994)

Depois de mais de três décadas estagnada, seria um ex-atendente de videolocadora que revolucionaria a indústria cineamtográfica. Sem nenhum curso técnico ou passagem pela universidade de cinema, tendo como instrumentos apenas o conhecimento vindo dos grandes clássicos (justamente os filmes que sobravam nas prateleiras da locadora) e o amor pela cultura pop e trash. O diretor que já havia chamado a atenção do mundo com excelente Cães de Aluguel, se tornou uma inspiração e esperança de que as mundanças podiam surgir de qualquer um. Mas foi em seu segundo filme, com um elenco composto por famosos em decadência e nomes que ainda seriam conhecidos (John Travolta, Bruce Willis, Harvey Keitel, Samuel L. Jackson, Uma Thurman…), que Tarantino se firmou como principal nome do cinema americano no final do século. Sob uma edição não-linear, com pontos de vistas diferentes e várias tramas paralelas, Quentin mistura as mais variadas influências e referências com uma dose gigantesca de humor negro e sem trazer nenhuma mensagem ao espectador. O resultado? O filme mais genial da, pouco inspirada, década de 90.

Finalizando…
Elaborar essa lista foi trabalhoso. Foi necessário reavaliar uma série de conceitos, além de rever uma grande quantidade de material. Mas no final, acredito que tenha sido coerente o suficiente para prestar respeito aos grandes nomes que ficaram de fora como Bergman, Kurosawa, De Sicca, Truffaut, Resnais, Kubrick, Leone, Copolla, Scorsese, Wilder, Felinni, Fassbinder, Tarkovisky, Keaton, Kazan, Visconti, Murnau e Polanski.
Acho que foi uma boa forma de desejar boas vindas ao Bacon Frito, e prestar uma homenagem a sétima arte e a seus admiradores.
Bah… escrever tudo isso me deixou sentimental. Nada que um pouco de bacon não cure.

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