Faz tempo (título provisório, v.1)

baconfrito segunda-feira, 03 de junho de 2019

Esse é o primeiro texto de uma série, em que ex-colaboradores e conhecidos retratam sua percepção sobre os 10 anos de Bacon.

Faz tempo. Faz bastante tempo, porra. Uma aba aberta com meus textos antigos aqui me mostra que o mais recente havia sido em 29 de abril de 2014, quase cinco anos atrás. É o aniversário do Baconfrito e algumas coisas podem ser ditas sobre nós. Como eu mesmo costumava dizer: Vem comigo.

Eu me lembro de uma vez escrever (provavelmente no Bacon) sobre o quão impressionado eu era com Phileas Fogg, o personagem que atravessa o mundo em 80 dias no distante livro de Júlio Verne, de uma era quando a Terra era muito maior e feitos como estes estavam ainda vindo à esfera Daquilo Que É Possível. O que me impressionou sobre o personagem foi sua pontualidade impecável, sua organização, nunca fazendo um movimento desnecessário.

Vou dizer agora: Fogg é chato para caralho. Uma múmia branca, privilegiada e estufada que nunca viveu ou passou do limite, nunca quebrou as leis a não ser aquelas que contribuíram para sua riqueza material. Desinteressante. Um chato.

E imagino, eu também era – tirando nos momentos raros em que eu conseguia ser mais ou menos melhor, algumas registradas neste site.

Uma década se passa e – porra, detesto isso – e coisas acontecem. Você vê coisas. Você ouve coisas. Você aprende e um dia olha pra trás, e lá está. Seu eu passado. “Jesus Cristo,” você berra, “aquilo era… eu?” Claro sua anta, quem mais seria? Você não odeia isso? Digo, não de todo. Sei que uma parte de você ainda sente por ele, tem pena. É natural, aquele é seu eu de antes; você antes de um monte de onda acontecer e suas noções ridículas e idéias estavam lenta mas certamente sendo desafiadas, então destruídas, quebradas, partidas em pedaços; se você tiver sorte, você ao mesmo tempo recebe idéias novas e mais corretas também, mais progressistas e inclusivas. Você tinha dúvidas sobre elas, se sentia enjoado, mareado, mas eventualmente se aproximou e as deu boas-vindas pois você sabia que elas eram verdade. A longa e contínua metamorfose o trouxe para a beira de uma nova vida e agora o eu do passado não dá mais certo.

Phileas Fogg não impressiona mais. Agora você vê.

Ver meus textos antigos só me mostra agora que Nelson Rodrigues era um simpatizante fascista que provavelmente precisava de terapia. A União Soviética era um dos lugares mais escrotos para se viver durante décadas, governado por lunáticos sedentos de poder e genocidas (não são mutualmente excludentes, a maior parte não é, na verdade) que viviam em luxo enquanto o povo passava fome até morrer. Mas de alguma maneira, nas cinzas da ignorância alguns poucos lutadores levantavam-se orgulhosos. Com medo, mas sem desculpas. Conforme você cresce, você os valoriza mais. Quase destruídos por poder egocêntrico, eles sobreviviam e até contra-atacavam com opiniões afiadas e letras de música contra sexismo, armas, ódio e o aparato militar (definitivamente não-excludentes). Vai-se a fascinação com poder e fica a admiração pelas bandas e artistas que lutaram contra ditaduras. Eles eram, talvez, aqueles citados por Ursula Le Guin, aqueles vão embora de Omelas – ou ao menos tentam.

De repente você vê que estes são aqueles que interessam, que eles estavam certos o tempo todo e tudo que precisou foi de alguns anos de amadurecimento pra ver.

Mesmo assim, não vou deserdar o que escrevi no passado. Mas vou deixar o aviso, para os leitores que ainda se aventurem em palavras tão desguiadas, que uma pessoa muito diferente as escreveu. Ele não é eu. Na verdade, ele carrega uma vaga semelhança com alguém que eu conhecia muito tempo atrás; um rapaz que gastava muito tempo admirando o chato Phileas Fogg, até que as circunstâncias o colocaram em outro caminho.

É difícil falar do Bacon em termos de passagem do tempo. O design, cores, links e afins são exatamente os mesmos. Uma cápsula do tempo da internet brasileira, fazendo o mesmo ininterruptamente durante uma década. Durante esse tempo desde que havia escrito aqui pela última vez eu sempre lembrava do site e dizia “Preciso mandar um texto lá”, e comentava que iria e então deixava para mais tarde. Havia, há, tantas coisas que precisam ser comentadas, e ainda irei fazer isso (mas antes vou pedir ao Pizurk para mudar minha foto antiga de perfil, por que é horrível).

Às vezes penso em como a internet irá avançar no futuro. Por quanto tempo um site vai existir? Imagine a Wikipedia completando 50 anos, ou os perfis de tantos millenials idosos no Facebook. Mas suspeito que nesse mundo futuro o baconfrito estará publicando reviews e notícias da semana, do mesmo jeito, com a mesma aparência.

E isso é ótimo.

Kirk é um agente dormente da União Soviética, esperando sua programação ser ativada para tomar posse da Amazônia brasileira, começando pelo Amapá.

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