Eu, Bialik e a Ignorância

Livros sexta-feira, 06 de outubro de 2017

Umas semanas atrás comprei um livro diferente: A trombeta envergonhada, uma coletânea de textos do autor Haim Nahman Bialik; muito provavelmente a Nelly conheçe, mas pra mim é novidade, tal como creio ser pra grande maioria dos brasileiros… Porra, o cara é tão desconhecido por aqui que o prefacio tem 26 páginas!

 Cadê o chapéuzinho?

Antes de começar isso aqui é bom lembrar que o hebraico não tem semelhança alguma com o português, então se cês virem “Haim”, “Hayim”, “Chaim” ou outra variação qualquer de qualquer nome provavelmente é a mesma pessoa, uma vez que traduzir a parada deve ser um inferno.

E já que estamos no tópico “tradução”, eis o porque este texto aqui não é uma resenha: Eu não tenho parâmetro algum pra falar do livro em si e do trabalho do cara. O que eu posso dizer é que o livro, até onde pude notar, foi bem editado e revisado: Não vi nenhum erro de gramática ou frase sem sentido, o prefacio faz um bom trabalho de contextualização de quem foi o autor e, resumidamente, claro, de como foi sua vida… E é isso. Objetivamente falando é um bom livro: um bom objeto livro, além disso não posso dizer nada.

Ainda falando da tradução, já adianto pra qualquer um que queira ler este livro (Ou, suponho, qualquer outra obra do autor – até mesmo outra obra originalmente em hebraico) que não é uma leitura fácil. Alguns bons parágrafos do prefacio são dedicados ao esforço em adaptar as obras do Bialik para o português, e em como, neste livro específico, se preferiu traduzir suas características estilísticas às vezes em prejuízo à clareza da mensagem. A primeira parte do livro, por exemplo, é dedicada à histórias autobiográficas do autor, então os temas são relativamente comuns: Como era sua vida quando criança, a escola judaica, as vezes em que mudou-se, enfim, normal, mas apesar disso a leitura é, muitas vezes, lenta e cansativa. Isso não melhora, nas partes seguintes, quando o autor procura atualizar e contextualizar textos bíblicos e outros contos religiosos ou quando trata diretamente da cultura e costumes judaicos… E definitivamente não fica mais fácil quando ele junta os dois, debatendo o choque cultural entre judeus e gentios. Não sei se a obra do autor é realmente assim ou se é consequência da tradução, mas é assim que este livro é.

Em suma, eu peguei esse livro porque tava só 10 reais eu queria conhecer uma parada nova, e deu certo. Deu tão certo que eu não entendi a maioria dele, e isso significa dizer que eu preciso estudar. Não sei dizer o quão este livro em particular é uma boa representação do trabalho do Bialik, muito menos uma boa representação da literatura judaica, mas tem as bases pra um começo: Expressões em outro idioma contextualizadas, uma boa edição, um (Ao menos suposto) cuidado em manter o máximo possível da forma e estilo originais.

Pode bem ser que eu, após conhecer mais, não goste do autor, mas isso é parte do processo de aprendizado. Várias e várias vezes no prefacio do livro e na pesquisa um pouco mais aprofundada que eu fiz para este texto aqui foi frisado em como o autor influenciou na literatura hebraica e não só em sua época (Ele morreu em 1934), como até hoje: De forma generalista, ele foi um dos responsáveis por reavivar o idioma na Europa, atualizá-lo em suas bases (Não só gramática, mas fonemas, pronúncia, cadência – uma revisão completa num idioma inteiro) e popularizar a cultura para um público que, de outro modo, teria um contato restrito com isso tudo (E vale lembrar que era a Europa das primeiras décadas do século XX, ou seja, “contato restrito” muitas vezes significava perseguição e opressão). Vez atrás de vez o que leio sobre ele é como, ainda em vida, ele foi clamado como um dos maiores e mais importantes poetas da história judaica…

O que nos leva de volta ao fato que me chamou atenção pro livro no começo: Eu nunca tinha ouvido falar. Tudo bem que eu não sou judeu e não conheço tanta gente assim que seja (E os que eu conheço, cara, foda-se, saca? Cê é o Roberto, não o judeu), mas porra, não é como se a comunidade judaica no país fosse tão pequena assim. Não é como se não fizesse parte da história do Brasil esse contato entre as duas culturas; afinal de contas todos nós já ouvimos falar de autores russos, alemães, americanos, sul africanos, turcos: O Brasil é uma bagunça, porra! Como caralhos um cara desses passa batido?!

Se você é judeu, muito provavelmente está rindo da minha cara neste instante, mas se não é e não tem tanto contato assim, fica aí a indicação: Eu não sei se A trombeta envergonhada, não sei se a literatura judaica é legal ou não, nem mesmo sei qual foi sua influência nas nossas pós-modernas vidas, mas vale à pena ir atrás de coisas que expandam seus conhecimentos e e instiguem a saber mais de algo que, até então, você ignorava. Na pior das hipóteses cê já tem combustível pro churrasco.

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