Espetáculo Mudo

Música segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Não tenho intenção de fazer disto um ensaio ou ainda uma extensa vista do ponto em questão, mas é bom, de vez em quando, dar aquela pincelada UI num desses assuntos que dão pano pra manga. Não, não estou falando de religião, estou falando de shows.

“Show” é uma palavra inglesa, e significa mostrar, exibir, apresentar, explicar, tornar conhecido, demonstrar. E nós daqui da terrinha usamos a palavra do mesmo jeito que usamos “shopping”, para significar algo ligeiramente relacionado, mas sem a raiz principal da palavra estar presente.

Bem, shows são sobre música ou não?

Antes música só era apresentada de um jeito: Ao vivo. Levou centenas e centenas de anos até darmos um jeito de levar música pra um lugar que não tivesse alguém pra tocá-la, e quando enfim conseguimos entramos numa segunda fase da história da música, divida entre o ao vivo e o gravado. O ao vivo, como todos sabemos, tem diversos formatos, mas invariavelmente inclui gente cantando ou tocando; seja de verdade, seja no playback: Tem que ter alguém alí pra fazer o que for, mesmo que o som ouvido não esteja sendo produzido por esta pessoa. Já o gravado necessita de um aparelho e uma gravação, e só.

Quando enfim conseguimos gravar sons o ao vivo dividiu-se: Há os que dizem que tal possibilidade minou o ao vivo, uma vez que é muito mais prático ter um objeto que toque o que você quiser do que um monte de gente e instrumentos; e do outro lado tem aqueles que dizem que a possibilidade de ter música assim tão fácil em mãos só tornou o ao vivo mais especial. A verdade provavelmente está no meio termo entre os dois, mas o fato é que ouve-se muito mais música agora do que jamais se ouviu antes no mundo, e que a cada dia uma apresentação ao vivo se torna mais cara, tanto pelos custos logísticos quanto pelo cachê da galera.

Embora este vídeo seja para mostrar a troca de roupas da Katy Perry, ele serve pra duas outras coisas: Mostrar o playback que tanta gente nesse mundo acha que é beleza utilizar e pra mostrar que este show é sobre troca de roupas e não sobre a música.

E se querem saber, é algo um tanto justo.

Sim, você leu isso mesmo, e aqui no Bacon.

Um show, como todos esperam, há muito deixou de ser uma apresentação musical, do jeito que ir na ópera ou uma numa oficina sinfônica pode ser: Um show é um espetáculo, e como tal este precisa ser atrativo. Nós, seres humanos, não contamos apenas com a audição: Estímulos visuais, táteis e, às vezes, até olfativos. Como o bom gordo bem disse, a experiência de um show vai muito além da música.

Claro que sim! Esse mundinho da música pop cheio de auto tune e produtos criados por produtores!

É, não.

Um espetáculo tem quer ser… Espetacular. Superlativo. Exceder expectativas é o grande ponto de um show, e isso não depende apenas da música por motivos muito reais. Meia dúzia de gente tocando pra dezenas de milhares de pessoas requer estrutura, de caixas de som até telões, porque distância é um fator importante: Pode ter a maior banda do mundo na tua frente e todos os integrantes terem dois metros de altura, se você estiver longe não vai ver e nem ouvir absolutamente nada. Essa mesma banda pode fazer a melhorar apresentação de suas vidas, mas se não estiver num palco suficientemente alto, vão ser só mais algumas pessoas no meio da galera. O contato além da música é importante, porque se for apenas pelo contato da e com a música ninguém precisa ir num show: É pra isso que a gravação existe.

A questão é bem simples: Um show cuja única oferta seja música não tem apelo.

Ah, mas eu fui no show do Moscas de Maracujá lá no Bar do Bode e era só o palco e os caras da banda mesmo, não teve fogo de artifício, telão, e nada dessas porcarias não, e foi foda pra caralho, os caras mandam muito.

Então, sabe essa de show underground? Um palco, nego alí em cima… Acha que esse gigantesco contato entre a banda e o público, que invariavelmente está mais perto da banda do que jamais o público estará perto de uma banda num show num estádio ou arena, é sem motivo algum? Porque os caras são gente fina? Não, o nome disso é interação, e interação do mesmo jeito que se tem num videogame: O público faz parte do espetáculo. Não que não faça num show num estádio, só é uma dinâmica diferente.

E, de novo, não é só no mundo plástico do popular. Não é uma questão de grandes gravadoras, produtores, prêmios comprados e nada disso, é a necessidade extremamente prática de deixar claro que, além da música, o público pode presenciar alguém que ele pagou para ver fazendo exatamente o que ele (O público) espera que o artista faça: Um show. Com luzes, figurino, acenos e toda a cortesia e amabilidade que se espera de alguém que é uma “pessoa pública”. Famosos amam o público e só odeiam os maus.

Pode-se argumentar que há tantas e tantas outras bandas, geralmente de estilos musicais mais pesados, que não estão nem aí pra isso tudo e que, se der na telha, mandam o público e o mundo ir tomar no cu. O que posso dizer é algo que espero que esclareça uma ou outra coisa pra alguém nesta nossa linda bolinha azul: Não importa a atitude em cima de um palco, o número de palavrões ditos, brigas entre público e banda, brigas entre a própria banda, a quantidade de álcool presente e absolutamente nada disso. Uma pessoa, em cima de um palco, sendo vista por gente que quer ver tal pessoa, está amarrada à necessidade de agradar tal público. E se esse público quer ser chamado no palco pra dar uma bitoca no artista ou se quer ser chamado de escravo do sistema capitalista é completamente irrelevante.

Gente que não agrada a plateia não fica em cima do palco.

Independente do discurso que faça ao sair.

É por isso que, a cada vez mais, recorre-se à mais do que a música para sustentar um show. Claro que a capacidade de um artista deve ser levada em conta: Tem gente que não toca porra nenhuma, não canta porra nenhuma e está em cima de um palco. Claro que importa se um artista está em condições físicas e mentais (Seja por absolutamente qualquer motivo que for) de fazer um show. E claro que deve ser levado em conta também de que há gente que está em cima de um palco porque foi jogada lá: É diferente alguém não ter afinação e usa programa pra consertar isso de quem foi transformado num produto pronto para agradar um público. Um produto não requer esforço, o outro, independente de ser bom ou ruim, trabalha duro para estar num palco.

Se o público não está satisfeito, não há show. E, como sabemos, gravação não vende mais. Um show, portanto, seria um tipo de combo: Tá lá a música de background, mas têm-se como “bônus” os telões, palcos com movimento, figurino, coreografia, banda de apoio, iluminação, fogos de artifício, convidar o público pro palco, baquetas, palhetas e até instrumentos jogados do palco, stage dives, a roda/mosh pit/bate-cabeça/ciranda-punk, discursos, participações especiais de outros artistas… A lista continua porque há a necessidade de não só um show ser tudo que o público espera, mas também o que este não espera: A inovação é necessária… Esta só não pode ser desconhecida, porque gera estranhamento e aí é bola fora.

A cartilha, portanto, segue uma linha muito clara e que, e ignorada, causa danos, às vezes irreparáveis: Entregue o que o público pagou para ver e surpreenda-o ao fazê-lo. Novidades são bem vindas quando o público as aprova, e se o público não aprova algo, o artista não deve ter relações amistosas com o que quer que for (E algumas vezes isso inclui parte do próprio público). Não é uma questão de condição ou “SEs”: O artista vai onde o povo está, e não poderia ser diferente.

O grande problema talvez seja que o público não está interessado na música. Se o bônus importa mais, é o que o artista irá entregar. E se considerarmos que, às vezes, é a única coisa que um artista pode oferecer, é fácil entender porque a música é cada vez menos importante num show. Mas, no fim das contas, o que levou um artista onde este está, o que leva o público à um show e o que movimenta toda a indústria ainda é música. Porque um show sem música nada mais é que um circo. Literalmente um circo: O público está lá para ver o espetáculo, a música é bônus.

E assim se tem o que se vê mais e mais, ainda que este formato já dê sinais de cansaço: Músicos que não fazem músicas, mas dançam, fazem malabarismo, se atiram de canhões, domam leões, fazem cavalos contar, colocam suas cabeças debaixo de elefantes, saltam do trapézio, cospem fogo, andam de moto num globo de metal… Quanto tempo até voltarmos para o circo de aberrações, onde o humano é a atração?

Mas sabe qual o melhor disso tudo? É que temos shows incríveis no mundo. Palcos gigantescos e mais tecnológicos que a gigantesca maioria das casas do mundo, fogos de artifício incríveis, performances que deixam marmanjos barbudos chorando e garotinhas de rosa xingando feito marinheiros, telas de LED em alta resolução mostrando o melhor que a computação gráfica pode criar, balões infláveis gigantes, maquinário pesado em cima de palcos, animatrônicos, flash mobs e coreografias que envolvem milhares de pessoas. Nunca antes foi tão satisfatório e completo ir à um show, e isto é absolutamente fantástico. Fantástico ao ponto de fazer o público esquecer porque está num show em primeiro lugar.

Divirta-se. Só não espere ouvir música.

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