Durma bem

Música sexta-feira, 12 de outubro de 2018

É sempre um momento triste este de desligar uma música, principalmente se ainda for no meio… Talvez a realização de que possamos mudar o mundo à nossa volta mesmo com o mais simples dos atos seja demais para nós. Talvez entender que, mesmo os menores dos bons momentos não irão durar para sempre e que, eventualmente, será nosso trabalho fazer com que eles terminem mais cedo do que precisariam, seja uma péssima recordação. Talvez tenhamos esquecido o que é o silêncio.

Pra mim o silêncio sempre foi importantíssimo: É quando consigo pensar e me concentrar melhor, quando consigo organizar meus pensamentos e tomar decisões. Pra mim, silêncio é indispensável, todo dia, em qualquer lugar. Às vezes é uma commodity, é verdade, mas com um pouco de esforço dá para conseguí-lo… Ainda assim sei que, para muita gente, o silêncio é o medo. Medo do som que pode vir em seguida, medo de que seja um sinal que o último som foi ruim. Pra algumas pessoas, o silêncio é o nada. Pra mim também; só é uma relação diferente.

Enquanto o silêncio, como diz o ditado, vale ouro, a música é diferente. A música é sua companhia nos bons e maus momentos, enquanto o silêncio te dá espaço. A música é o ombro amigo para a solidão – às vezes necessária – do silêncio. A música é a distração, que vez ou outra te salva de ter de lidar consigo mesmo e com o mundo. Maré alta e maré baixa: Necessárias ambas. Não opostas, como pode parecer à primeira vista, mas complementares, circulares.

Depois do play, forma-se um vínculo, muito sutil, quase imperceptível, mas que ainda está lá, e que diz que enquanto a música toca, você está no mundo da música. As pessoas giram e bailam ao seu redor, o vento sopra a copa das árvores e passarinhos voam, as portas dos metrôs abrem e fecham enquanto semáforos – sinaleiros, sinais, farois – mudam suas cores. O mundo vive enquanto a música toca, nota a nota, pessoa a pessoa, compondo seus dias em atos e reflexões, em segurar a porta aberta para o próximo passar e ver a porta do elevador fechar diante de si. O mundo caminha e respira, não perfeito, não ideal, mas verdadeiro, ainda que distante: O mundo gira enquanto você, do outro lado da janela, tem a oportunidade única de olhar através do vidro e ver a vida acontecendo diante dos seus olhos, sem desculpas ou poréns, só mais um dia. E está tudo bem hoje.

E então a música para. As buzinas e palavrões e celulares tocando se fazem ouvir, junto de toda conversa e burburinho, passos na calçada e guarda-chuvas sendo abertos, e agora o vidro é um mar, uma montanha de água cristalina te inundando, mostrando que você também faz parte desse mundo, que ser apenas um observador não é para sempre. E a vida continua.

Estranho como, de assalto, o silêncio – nos fones de ouvido ou no seu cantarolar – te permite notar que o mundo só faz silêncio quando dorme. Que a vida requer barulho. E que, ainda assim, nem mesmo todo o barulho do mundo pode tirar a sensação (Que dure apenas alguns minutos, segundos até!) de que a vida ficou um pouquinho mais quieta, um pouco menos presente. O silêncio te deixa viver o agora, sem fazer concessões às suas vontades e condições.

Pouco a pouco, o mundo se aproxima, você volta à realidade, seu dia segue até ser hora de dormir. Pode ser hoje, pode ser amanhã, pode ser pouco e até mesmo sem descanso, mas eventualmente você dorme, e o mundo para de girar, as pombas param de voar, as luzes congelam e não há mais ninguém nas ruas. Mas agora não há vidro, não há janela, e não há mundo para o qual voltar: Agora só existe o silêncio. Um silêncio diferente, profundo, confuso, impessoal e privado. E, aos poucos, o silêncio soa. Está te ninando, com voz suave, te preparando pra música de amanhã. Você só precisa ouvir.

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