Dinossauros, Asimov e Deus Ex

Cinema, Games, Livros quarta-feira, 16 de março de 2016

Apesar de Assim Falou Zaratustra estar na minha cabeceira há meses (E já há meses intocado) resolvi reler Asimov, mais precisamente Sonhos de Robô, uma coletânea de contos que acabam por exemplificar um pouco de tudo que o autor fez em termos de ficção científica. Um excelente livro para se ler como introdução pra o filme Eu, Robô, diga-se de passagem, à parte do livro homônimo. E venho, já há uns dias, jogando novamente Deus Ex: Human Revolution.

Asimov é muito provavelmente o maior nome quando se trata de ficção científica relacionada aos robôs, partindo desde os princípios da própria robótica e chegando então às consequências da vida. Nunca li seus grandes trabalhos, a série Robôs e a Fundação, além das demais séries e romances. Não, li apenas contos, uma ou outra história mais longa, uma coleção que ele organizou, coisas assim. Da não-ficção não me interessa nada. Dentre sua obra, mesmo nas mais simples, é interessante notar como ele desenvolve as coisas, como o mais simples dos detalhes envolve o resto, sem, entretanto, parecer um plot twist. Asimov, em outras palavras, era um cara com ideias realmente incríveis para sua obra e, mais importante ainda, com capacidade para realizar tais ideias. Só pra sacanear a Nelly: Um Stephen King que funcionava.

E por outro lado tem Deus Ex. Não joguei os dois primeiros (Deus Ex e Deus Ex: Invisible War), apenas o terceiro, Human Revolution. Os três foram bem recebidos por crítica e público, lidando desde o começo da relação entre a humanidade e a tecnologia, tanto em termos de robôs propriamente ditos quanto da interação direta através dos aprimoramentos (“augmentations“), tipos de próteses tecnológicas que permitem, entres outras coisas, superforça, ficar insensível, métodos de comunicação, não fazer nenhum som ao se mexer e melhorar sua mira. O quinto jogo da série, Mankind Divided, já está em pré-venda e deve sair na metade do ano.

Invisible War, o último na ordem cronológica (Dos jogos), tem alguns finais alternativos (Tal qual os outros jogos da série) dependendo de suas ações. De forma mais simples, os finais podem ser com uma sociedade livre, vivendo em harmonia enquanto governada por uma inteligência artificial; uma sociedade estável baseada no controle de uma elite, que prevê total controle de cada faceta da sociedade de forma disfarçada; uma sociedade livre da tecnologia de aprimoramentos, na qual apenas os humanos “comuns” são levando em conta; ou ainda uma guerra nuclear que leva à quase completa destruição da humanidade, sendo que os únicos sobreviventes são as máquinas e os ciborgues, que então partiriam para colonizar o espaço.

A influência de Asimov nos jogos da série é notável, apesar de não ser um elemento principal nestes. Ainda assim, é interessante como Asimov conseguiu notabilizar muita coisa em seus cinquenta anos de carreira.

As Três Leis da Robótica, provavelmente a coisa mais importante que Asimov criou (E o próprio sabia disso), e a cada instância, elas falham. Seja por modificações propositais da mesma, ou por um defeito em algum robô ou ainda pelo jeito que cada robô racionaliza cada uma das leis e como deve aplicá-las, as leis provam que é impossível determinar como um ser vivo, biológico ou não, responde ao seu ambiente e àqueles que o cerca. Algo que Jurassic Park faz muito bem ao afirmar que “a vida encontra um meio”.

Tenho certeza que a associação já foi feita, mas aí está: Jurrasic Park, Deus Ex, Asimov e a vida.

Deus Ex traz em seu próprio título a grande brincadeira com qual John Hammond tanto sonhou (E que acabou por matá-lo) e que por milhares de anos, cérebros positrônicos estudaram incessantemente até chegarem à conclusão de que, no fim das contas, onde há um agente ativo, há mudanças, e que estas mudanças são, para todos os efeitos, absolutas. Você, leitor, acredite ou não, este não é um texto político, é biológico.

Em Jurassic Park, a grande alteração é literalmente biológica, por uma falha estupidíssima de projeto, o DNA utilizado para reconstruir geneticamente os dinossauros pertencia à espécies hermafroditas, o que permitiu assim que os dinossauros trocassem de sexo (Passando a serem machos) e houvesse a reprodução descontrolada de novos indivíduos que, desta vez, não eram quimicamente dependentes da lisina, uma enzima essencial para os seres vivos, podendo assim abandonar a Isla Nublar e o controle por parte de seus criadores.

[Nota do editor: Hermafroditas não mudam de sexo, eles tem ambos os sexos ao mesmo tempo. Se mudou de sexo não é hermafrodita.]

Já na obra de Asimov, a falha é causada de forma ampla, por dois motivos: Ou a humanidade-criadora dos robôs decide passar por cima das Três Leis ou os robôs, por próprio mérito, chegam à conclusões lógicas que ou distorcem ou apagam as Leis, permitindo assim que seu comportamento para com seres humanos seja diferente do esperado. Seja qual for o motivo, a constante é que as Leis são absolutas: Em qualquer instância elas funcionam, ainda que não do modo original. O problema com os robôs de Asimov não é mecânico, elétrico, eletrônico e muito menos moral, mas simplesmente lógico: Qual o limite que três (E, mais tarde, a quarta) enunciações absolutas podem atingir? É, para todos os efeitos, um daqueles casos em que as regras são levadas ao seu extremo e passam a ser prejudiciais, e normalmente mais prejudiciais do que os problemas que procuram evitar seriam.

Deus Ex, como série, é quem trata esta relação humanidade-tecnologia de forma diferente, uma vez que o risco não é mais com seres vivos criados em laboratório e nem seres não vivos criados em laboratório, mas sim em seres vivos criados normalmente, tendo entretanto que lidar com o que sai dos laboratórios. Em Deus Ex, o problema não é controlar a vida biológica e nem a vida não-biológica, mas fazer ambas trabalharem em conjunto. Porque não é mais a questão de um outro ser vivo ou de um outro robô, mas de cada ser vivo se tornar um robô. E os jogos da série passam o tempo todo mostrando o quanto isso pode sair errado.

Nenhum dos três, porém, lida com um deus ex machina tradicional. Em Jurassic Park a vida vence, em Asimov a vida perde e em Deus Ex a vitória depende da vida. Enquanto que nos dois primeiros a vida depende diretamente da vida, esta não seria possível sem a tecnologia: Sem a genética e sem a robótica, nem os dinossauros voltariam a existir e nem os robôs poderiam ser criados. Em Deus Ex, a escolha é do jogador (E, para efeitos de continuidade na série, o que ocorre de um jogo para outro é uma mistura de todos os finais alternativos possíveis, permitindo assim que cada jogo não seja diretamente dependente de seu anterior): A vida “natural” vence, a vida tecnológica vence, a vida meio-a-meio vence ou a vida não vence. Ou a tecnologia triunfa (Seja sozinha, seja trabalhando com a vida natural) ou não há mais vida natural. Porque mesmo quando a vida “natural” vence, quando as escolhas do jogador fazem com que os vitoriosos sejam aqueles que não apostaram na tecnologia de forma alguma (Sendo inclusive contra a interferência da mesma), esta escolha só é possível por causa da tecnologia. Porque, no fim das contas, escolheu-se, através da tecnologia, não continuar utilizando-a. E, sempre bom lembrar, tal escolha depende diretamente do seu personagem que, em cada jogo da série, é sempre um ser vivo com próteses tecnológicas.

Enquanto que para Asimov a tecnologia iria destituir os seres humanos do controle das coisas, em Jurassic Park o que se mostra é que a única vida tecnológica possível é a vida biológica. Asimov apostava nas máquinas, por mais diferentes ou semelhantes que estas fossem dos seres humanos (Sendo que mesmo as vidas biológicas extraterrestres terminavam mal em sua obra), enquanto que Jurassic Park aposta nos humanos como vida criadora da vida, sendo que esta última, anterior à humanidade, mostra-se superior àquela que a criou do modo como é no presente, uma vez que todas as obras da franquia fazem questão de lembrar que os dinossauros criados no parque não são uma representação fiel dos dinossauros extintos há 60 milhões de anos.

Das três obras, Deus Ex é a única que promove um debate à partir do pressuposto de que a decisão não foi tomada: Nos jogos, a tecnologia existe, faz parte da vida de algumas pessoas, e a grande decisão é o que fazer com esta tecnologia no futuro. Com os dinossauros a resposta estava no passado, com os robôs, no futuro, mas Deus Ex trata do presente. Para ser mais óbvio, do nosso presente.

Asimov começou sua carreira no fim da década de 40, tendo vários precursores da ficção científica antes de si. Michael Crichton começou na década de 60, tendo, assim como Asimov, se aventurado fora da ficção científica diversas verses, incluindo fora da ficção como um todo. Deus Ex, entretanto, é de 2000. As bases são completamente diferentes. Em 2000, as tecnologias descritas tanto em Deus Ex quanto em Jurassic Park na obra de Asimov não eram mais incógnitas. Em 2000, já havíamos clonado e modificado geneticamente os mais diversos animais, incluindo trazendo alguns de volta da extinção. Em 2000, o famoso ASIMO, da Honda, era lançado, e as pesquisas em robótica eram (E ainda são) gigantescas, tanto que os robôs utilizados em fábricas não só eram uma realidade, como também começavam a superar, em números, os de trabalhadores humanos.

Deus Ex trata da modificação humana, e isto é um tabu. Clonar humanos é tabu, substituí-los por máquinas é tabu. É um daqueles casos em que a questão ética e moral segura a tecnologia, e isso é claramente retratado nos jogos da série. O fato é que, hoje, na vida real, temos próteses avançadíssimas, capazes de fazer coisas que as partes reais do corpo humano não seriam capazes de fazer, mas que ainda assim não substituem completamente o que é real: Temos pernas que permitem correr mais rápido e pular mais alto que pernas reais, mas ninguém quer cortar as próprias pernas para substituí-las. Numa necessidade, claro, ou até mesmo como forma de correção, anos após algum acidente ou trauma, mas não previamente à qualquer problema. E isso se dá pelo fato de que, mesmo perdendo em alguns aspectos, o biológico ainda é melhor em termos práticos que o tecnológico.

A tecnologia, porém, caminha mais rápido que a biologia. Algo que Asimov assimilou e que Crichton dispensou baseando-se na tecnologia que tinham à época e que permanece hoje: Ainda não é o suficiente. Mas nenhum “ainda” dura pra sempre. Nenhum Deus Ex passa-se antes de 2020, havendo apenas algumas menções (Datas de nascimento, grandes eventos que levaram ao desenvolvimento da tecnologia, enfim, nada concreto), enquanto que Asimov faz o mesmo a partir da década de 80, mas se concentrando mesmo depois do ano 3000, com uma ou outra coisa no século XXI (Lembrando que na época de Asimov, o século XXI era o futuro), e o primeiro Jurassic Park (O livro) se passa em 1989 (O Mundo Perdido em 1995). Falando simplesmente, Deus Ex tem uma premissa mais plausível que os outros dois, uma vez que Asimov baseou sua obra em palpites (Muitas vezes corretos) de um futuro que ainda não indicava que aconteceria, e Crichton baseou-se no passado, tendo a tecnologia como ferramenta, não como peça principal de sua obra.

Jurassic Park foi um aviso de Crichton, que era médico inclusive, de que se a humanidade não tomar cuidado com o que faz em relação à vida, usando a tecnologia para alcançar objetivos que não conhece realmente e, portanto, não entende, essa mesma vida pode sair do controle, colocando a própria humanidade em risco.

Asimov, por outro lado, era muito mais positivo: Com a humanidade fora do caminho, a vida poderia seguir um curso melhor, tanto para a própria humanidade quanto para os robôs, que seriam então a forma de vida predominante não só na Terra, mas fora dela também.

Deus Ex, por sua vez, é o único que apresenta um debate contemporâneo: Temos tecnologia o suficiente para alterar a vida, e devemos decidir qual caminho deveremos tomar daqui para a frente, escolhendo entre pura biologia, pura tecnologia, o convívio de ambos ou o fim de ambos. E até agora estamos na terceira opção. Do modo que tanto Crichton quanto Asimov descreveram. A grande diferença entre as três obras é que Deus Ex deixa tal escolha nas mãos do jogador, sendo este representado pelo que o mundo, como um todo, indica: Um ser humano melhorado pela tecnologia. Porque no mundo de Deus Ex a tecnologia é suficientemente avançada para que suas próteses tecnológicas sejam melhores que suas contrapartes biológicas. Ainda que a escolha seja do jogador, o personagem é imutável, mesmo com todas as personalizações possíveis.

Enquanto Asimov, hoje, se mostra ultrapassado tecnologicamente (Algo que ele, em seus anos mais avançados, prontamente admitiu em relação às suas obras anteriores) seu questionamento continua: Até onde a tecnologia pode ir, e se a humanidade a permitir ir longe o suficiente, quanto tempo demorará até que esta ultrapasse a biologia? Já Crichton está mais perto do atual em termos cronológicos: A humanidade deve escolher se irá permitir que a tecnologia ultrapasse a biologia, sabendo que não há volta nesta decisão. E, por fim, Deus Ex encerra o debate, mostrando que independente do rumo que a tecnologia leve, ela já está presente, que voltar atrás é impossível, e que em qualquer versão possível do futuro a tecnologia altera até mesmo a vida biológica.

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  • Nelly Kruczan

    “Só pra sacanear a Nelly: Um Stephen King que funcionava.”

    Para o seu governo, senhor, Asimov é o suprassumo da literatura, pra mim. Gosto mais do que de SK, by far. Admiro muito. Leia a trilogia da Fundação, é necessária. Resumindo: nesses termos, sou team Asimov e HG Wells.

    No mais, esse texto não tá merecendo palmas, mas o Tocantins inteiro. Do caralho.

    No mais [2]: Michael Crichton foi de Jurassic Park a E.R. Esse cara era um gênio.

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