Conto: Psicodelia indigesta

Analfabetismo Funcional terça-feira, 30 de novembro de 2010

Vermelho, verde, amarelo, azul, verde, vermelho, marrom, amarelo, roxo. Verde, azul, roxo, amarelo, roxo. Luz forte. Fumaça. Escuridão. Luz forte. Fumaça. Escuridão. Luz forte. Escuridão. Luz forte. Escuridão. Luz forte. Escuridão. Luz forte. Escuridão. Tum, tss, Tum, tss, Tum, tss…

O clima na boate era psicodélico, surreal, inebriante e, acima de tudo, monótono. Os efeitos visuais produzidos pelo jogo de luzes uniam-se à música repetitiva e ao efeito inebriante do álcool. As pessoas pareciam movimentarem-se como robôs com juntas enferrujadas e sistemas defeituosos. Em meio a essa confusão Marcel notou uma loira linda. Ao menos o pouco que se via naquela atmosfera nebulosa era bem satisfatório. Era uma baixinha de pernas grossas, olhos claros, seios fartos, gordinha-na-medida e com um sorriso encantador.

Um aceno, uma troca de sorrisos e uma simulação de passos de dança. Conversaram romanticamente, com gritos ao pé do ouvido para se fazerem entender. Beberam alguns drinks coloridos e flamejantes. Beijos calientes. Rolou uma boa química. Enfim, beberam, dançaram, beijaram-se e beberam mais.

Saíram dali rumo ao motel mais próximo.
– Para o carro – pediu a garota com a voz embargada e a mão sobre a boca.
– Por que, você n… – perguntava Marcel virando o rosto para a loira.

Já era tarde. Vermelho, verde, amarelo, azul, verde, vermelho, marrom, amarelo, roxo. Verde, azul, roxo, amarelo, roxo. Cheiro de suco gástrico e comida parcialmente digerida. Até alguns pedaços de bacon podiam ser identificados no meio do suco colorido.

Parecia que nenhuma parte do carro fora poupada. Tudo estava coberto pelos líquidos expelidos. Aquela bela criatura embriagada parecia ter botado tudo para fora por meio de uma mangueira descontrolada. “Constrangimento” é a palavra para definir a situação que se estabeleceu. O dia já amanhecia, e entre pedidos de desculpas e novos regurgitos, a loirinha foi deixada em casa.

A noite de Marcel terminou – enquanto o dia começava – no lava-jato. Aquela garota havia custado mais caro que o usual, e a satisfação não tinha sido completa.

Leia mais em: , , , ,

Antes de comentar, tenha em mente que...

...os comentários são de responsabilidade de seus autores, e o Bacon Frito não se responsabiliza por nenhum deles. Se fode ae.

  • “Era uma baixinha de pernas grossas, olhos claros, seios fartos, gordinha-na-medida”
    Perfeita.

    Aliás, que conto deprimente. Gostei.

busca

confira

quem?

baconfrito