Bora falar de música: The Doors

Música segunda-feira, 03 de maio de 2010

 Pois é, vocês não vão ler um texto meu falando mal de alguma banda hoje. Não que eu esteja tentando parar com isso, mas é legal falar bem de alguma coisa de vez em quando, quando ela merece, claro. The Doors merece. Não é a maior banda de todos os tempos, claro, mas foi uma banda, no mínimo, interessante. Vários álbuns foram lançados em um período curto de tempo – falo dos seis álbuns de estúdio, não dos ao vivo ou tributos -, diferente de vários artistas de hoje em dia que demoram três anos pra lançar um material novo no mercado. Vagabundos.

Antes de começar a falar sobre isso, bora colocar duas coisas em mente: A banda começou a gravar seu trabalho em uma época bem perturbada da História (Entre a década de 1960 e 1970 a Guerra Fria tava firme e, pra terminar de ferrar de vez, o Vietnã tava a pleno vapor), ou seja, qualquer banda que aparecesse no período não ia ser normal. O engajamento político ou até choques culturais resultavam em… Bom, drogas. Era a fase hippie nos EUA, que afetou alguns álbuns dos Doors (Os três primeiros álbuns, por exemplo. O álbum final tem uma influência do blues); segundo: Jim Morrison não foi e nunca seria um poeta respeitado por todos por um motivo: Ele não sabia fazer poesia. Mas vamos deixar isso pra depois.

Apesar do nome ser bem babaca, não se engane: The Doors vem de um poema de William BlakeO Casamento do Céu e do Inferno (Ou O Matrimônio do Céu e do Inferno, em algumas editoras) – que já não era muito normal. Blake era um poeta inglês muito ligado à religiosidade. Dizia ele que sempre tinha visões de anjos e coisas do tipo que você só consegue ver bem louco mesmo. Esse poema tem uma frase falando sobre as portas da percepção e como o ser humano vê o mundo de sua gruta. Surgiu aí o nome pra banda. Pense por um lado: Eles não leram um livro do Paulo Coelho.

Jim Morrison e Ray Manzarek (Vocal e teclado) estudavam juntos na Universidade da Califórnia, cursando cinema. Vale dizer que os filmes que Morrison produzia eram um pouco perturbadores. O cara já não era muito normal antes da banda, pra início de conversa: Seu pai era um militar conservador, todo o lado alternativo do garoto resultava na cinta. Sobre qualquer coisa mística que você pense saber sobre ele, eu digo: Também sei, mas ESPERA, PORRA. Falo sobre tudo isso depois. O que conta aqui são fatos. Enfim, um dia os dois se encontraram em uma praia e Morrison contou que estava escrevendo algumas músicas. Manzarek, de tanto pedir, conseguiu uma palinha de Moonlight Drive – que seria lançado no segundo álbum da banda. Depois de ouvir alguns versos da música, Manzarek não teve dúvida: Dava pra tirar música boa daquilo.

A banda foi formada em 1965: Morrison, Manzarek e mais dois músicos (Na formação final) chamados John Desmore (Bateria) e Robby Krieger (Guitarra). Nada de baixista no começo, já que o teclado dava conta disso. Os caras tiveram o início que toda banda relevante tem: Começo de merda. Os caras começaram de baixo mesmo, fazendo shows em barzinhos e coisa do tipo até rolar contrato com a gravadora pra lançar o primeiro disco: The Doors, em 1967. Não podemos chamar o álbum de infantil. Nada que tenha algo dizendo que vai matar o próprio pai e foder a mãe pode ser considerado infantil. Comparado ao resto do trabalho dos caras, sim, o álbum de 67 era infantil. Canções longas com solos de guitarra e coisas assim, ou simplesmente uma letra gigante. Esse é o álbum de Light My Fire, que, por sinal, foi escrito por Robby, não Morrison, e foi motivo dos caras nunca mais aparecerem em um programa do Ed Sulivan (Era proibido falar “higher” ao vivo. Querendo ou não, Morrison disse a palavra mágica e eles nunca mais voltaram lá). Uma das faixas, Take it As it Comes, tem uma versão dos Ramones. Mas não é a melhor faixa, na minha opinião.

Ainda em 1967, a banda lançou o segundo álbum. Strange Days não veio seguido de tanta fama quanto o primeiro. Eu mesmo considero ele um pouco mais sério e deprimente. Ok, nem tanto, mas ele não teve músicas que seguravam quem estava ouvindo, e isso é importante, porra. Mas é depois do lançamento de Strange Days que houve o incidente em um show, onde o vocalista joselito levou o que aconteceu nos bastidores – basicamente ele levou spray de pimenta de um guarda por estar com uma mulher – pro palco. O resultado foi que arrastaram nosso pequeno Joselito pra fora, fodendo com o show, que se tornou uma confusão.

Em 1968 veio álbum novo. Waiting for the Sun, que fez um sucesso maior que o segundo álbum. Uma das músicas, Not to Touch the Earth, vêm de um poema de Jim, chamado The Celebration of the Lizard. O poema nunca foi lançado como forma de música por não ser considerado comercial a ponto de estar em um álbum de uma banda de rock. Isso faz sentido, e muito. Pensa você comprar um álbum do Iron Maiden e escutar um poema do Olavo Bilac no meio, que merda que iria ser. Foi com esse álbum que os caras saíram pela primeira vez dos EUA, pra tocar no Reino Unido. Foi um trabalho mais maduro e um som mais trabalhado do que os anteriores.

The Soft Parade, o quarto álbum, lançado em 1969, foi o de transição. Álbuns de transição nunca são bem recebidos pela crítica (Algumas vezes, nem pelos fãs) e cês sabem bem disso. Foi um trabalho com uma direção, digamos, experimental. Não era o rock tocado em todos os outros álbuns, era algo diferente, com um pouco de jazz em alguma faixa, funk em outra e a “poesia” do Morrison em alguma outra. Robby escreveu boa parte das letras do álbum, tornando-o ainda mais diferente dos demais. Já passamos um tempo sem encrencas. Por isso mesmo que Morrison resolveu falar que ia mostrar o pau pra platéia de um show. Mostrando ou não mostrando, o que importa é que essa foi a segunda vez em que ele foi preso em pleno show, causando um tumulto ainda maior. Isso que é respeito com quem pagou o ingresso, puta que pariu.

Morrison Hotel, lançado em 1970, poderia ser chamado pela frase “agora tá ficando bom”. Depois de levar uns socos na cara com trabalhos experimentais, a banda apareceu com um rock mais pesado e puxando a blues. Isso é meio óbvio, já que uma das músicas se chama Roadhouse BLUES. Enfim, esse é um dos melhores álbuns da banda. Você não consegue gostar de uma música separada das demais: Você ouve o trabalho por inteiro e pensa algo como “puta que pariu, eles deveriam estar tocando assim desde o começo”.

1971. Esse foi o ano. O último trabalho da banda foi lançado, L.A. Woman. Não foi o mais vendido, mas, sem sobra de dúvidas, foi o melhor álbum lançado pela banda. Morrison morreu logo após isso (Drogas e bebidas, claro. O cara tinha até se mudado pra Paris pra dar um tempo, mas… quem disse que Paris não tem esse tipo de coisa?) e, sinceramente, ele não poderia ter morrido em hora melhor. O que viria depois disso? Decadência, é claro. É melhor sair do jogo por cima do que sair perdendo. O sexto trabalho apela pra blues, jazz, coisas de raiz. Não que deixe de ser aquele rock parcialmente psicodélico, mas é algo adulto, não é brincadeira de criança. Todas as faixas são boas, mas a melhor música, cujo vocal não lembra NADA tudo o que foi gravado anteriormente, honra essa posição e recebe o mesmo nome do álbum.

Agora, bora falar das coisas que eu deixei pendentes. Morrison sabia fazer música, isso é inegável. A banda inteira, aliás, sabia como fazer isso, tanto que ainda hoje você encontra gente vestindo camiseta deles. O difícil é separar o mito da realidade. Foi dito que Jim Morrison foi um xamã, que ele absorveu parte da alma de um índio que estava morrendo em uma estrada e coisas do tipo. Isso tudo é história. Ele era bom de papo e bom de copo. Quem nunca bebeu e contou umas mentiras pros amigos? Além disso, ele construiu seu personagem pra fazer as apresentações ao vivo. Alguma história pra suportar esse personagem ele havia de criar também. E ele era tanga.

Atualmente os Doors ainda existem. E, se você notou lá em cima, eu só falei de seis álbuns, não levei em conta os que saíram após a morte do vocal – foram dois, se não me engano – e fiz isso por um motivo: Quando o vocalista morre, a banda acaba. Claro que isso não é regra, mas na maior parte dos casos é isso que acontece. Por mais que você coloque alguém vestindo calças de couro pra cantar, ele não vai ser igual ao senhor Mojo Rising, e isso é evidente. Mas aí eu não critico os caras que quiseram continuar com a banda. Cê pode falar que eles só estão pensando no dinheiro, mas porra, se os fãs gostam tanto das músicas, você acha que os integrantes gostam… Menos? Eu prefiro pensar desse jeito. E mesmo que eu esteja errado, The Doors, aquele dos seis álbuns acima, vai continuar sendo uma banda foda.

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  • Minha banda favorita! Sem mais!

  • André

    Eu acho o Jim Morrison um cara absurdamente foda só por ele ter escrito The End, lol. (foi ele né? :P)

    Mas eu particularmente não gosto muito dessas psicodelias exageradas, tanto que não curto os primeiros trabalhos do Pink Floyd.

    Mas que dá pra nascer muita música boa disso, ah, isso dá :D. Só que eu por exemplo, ainda acho que o Doors podia se beneficiar de ter um baixo :P.

  • guilherme

    só pra constar…
    tu mesmo disse que não é regra, mas na maioria das bandas quando o vocal morre, a banda realmente acaba!
    mas sempre têm as exceções, vide, Lynyrd Skynyrd!

    xD

  • K

    @André
    Sim, foi ele. E no L.A. Woman (Álbum, não música) eles usaram baixo. Acho que foi a única vez, também.

    @guilherme
    AC/DC não acabou, por exemplo. Mas a banda tem que achar um vocalista com MORAL pra não ser (Tão) comparado com o antigo.

  • André

    É difícil você reconhecer o baixo em Doors, já que eles sempre usaram o teclado pra encobrir, então se tiver, é praticamente inotável. Eu digo ter presença MESMO do baixo.

    Mas então, quanto aos vocalistas, certas bandas perdem o vocal, troca pra um que às vezes pode ser até melhor, mas simplesmente não encaixa. Não é questão de acabar a banda, é questão de mudar completamente, pra melhor ou pra pior, o que não muda que os fãs nunca vão gostar.

    E sim, tô falando de Black Sabbath.

  • Reza a lenda que Jim Morrison se matou ouvindo “The End”

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