As Noivas de Copacabana

Televisão quinta-feira, 02 de maio de 2013

Em tempos de vacas magras para noveleiros como eu, afinal, Salve Jorge não enche barriga, fui buscar no Canal Viva alguma coisa mais interessante do que viagens de bike da Capadócia para Istambul. É bem verdade que achei algumas jóias da TV brasileira como Rainha da Sucata e Felicidade, mas nada nessa vida poderia me deixar mais feliz do que a reprise de As Noivas de Copacabana, a melhor minissérie brasileira já feita, escrita em 1991 por Dias Gomes e meu ilustre vizinho e companheiro de fila de pão, Ferreira Gullar.

 Parei contigo, Salve Jorge! Como o Thiago Abravanel continua gordinho fazendo essa viagem de bike todos os dias?

Na série, o ano é 1989. Miguel Falabella dá vida a Caco Antibes Donatinho Menezes. Ele é um gato de proporções nórdicas, trabalhador, bom sobrinho, amigo, noivo, patrão e, nas horas vagas, assassino de mulheres. Gosta de matá-las vestidas de noiva e, como era preguiçoso, caça suas vítimas preferencialmente por Copacabana pra não gastar muito combustível. O nome da série é auto explicativo, mas vai que, né? O contato com as vítimas se dá quase sempre por meio dos classificados dos jornais que anunciavam “vende-se vestido de noiva”. Seu modus operandi é simples: Seduz as pobres ex-noivas, afinal, só se desfaz de um vestido desses quem dissolveu um casamento e, depois de fazê-las usarem o maldito vestido, estrangula as moças sem dó. O engraçado é que ele leva muitas vezes o vestido na mochila e manda a mulher colocar na hora do ato, seja onde for. Não vejo como isso poderia colar comigo, se fosse uma roupa de enfermeira talvez rolasse. Mas que homem em sã consciência tem fetiche por casamento? Isso não é normal! Carentes e completamente por fora dos brinquedos que eram usados na cama na época, as mulheres cediam sem problemas aos encantos de Donatinho e acabavam com a boca cheia de formiga.

Como a maioria dos assassinos em série, Donato leva uma vida dupla, porque não é burro de querer ser pego: De manhã, é um conceituado restaurador de arte, procurado pelos ricaços em seu pequeno ateliê. Morador de Copacabana, é um sobrinho carinhoso e divide apartamento com a tia Eulália (Yara Lins). A noite, não dipensa um choppinho na orla da praia com o melhor amigo Paulão (Ricardo Petráglia) e com a noiva, a linda, até de cara limpa e cabelo desgrenhado, Cinara (Patricia Pillar). Apesar de dedicada e amorosa, Cinara sofre calada com a impotência do noivo e os sumiços dele. Pô, o cara é o Don Juan das amarguradas, transa com as mulheres vestidas de noiva para depois estrangular, mas o piru não sobe pra Patricia Pillar? A tia, que não era boba, percebeu que havia algo de errado com o sobrinho, mas, por amá-lo demais, optou por não se manifestar. Para os empregados, sempre foi um bom patrão. Enfim, acima de qualquer suspeita.

Paralelamente a vida “pacata” de Donato, a onda de assassinatos desencadeou uma caçada humana liderada pelo detetive França (Reginaldo Faria), o delegado Lima (Hugo Carvana) e, pasmem, pela namorada de França, a vendedora Leiloca (Branca de Camargo). De todos, Leiloca é a mais disposta e hábil, mesmo não sendo da polícia. Se eu fiquei decepcionada com a ineficiência do FBI em The Following, fiquei muito satisfeita com a performance do trio em Noivas. No auge da década de 1989, não tinha tela touchscreen pra investigar o banco de impressões digitais em 10 segundos não. Muito menos utilização de exame de DNA. Você que cresceu a base de Trakinas com Toddynho e assistindo CSI não sabe o que é uma investigação criminal de verdade. Grissom é o caralho, o cara é o detetive França, esse sim entende de criminologia. Botava a mulher de isca pra bandido e ia pra campo reconhecer corpos. Like a fucking boss!

 Hmmm, HOT!

As relações mantidas entre o psicopata e as vítimas são representadas por seu namoro com Fátima (Ana Beatriz Nogueira), uma menina religiosa, filha de pastor, noiva de um cara meio feio (Sorry, Roberto Bomtempo. Nada pessoal.) e violento. É nesse relacionamento, aliás, que Donatinho mete os pés pelas mãos. Até então era muito superficial a compreensão do telespectador sobre o quão envolvente ele conseguiria ser e como a solidão das vítimas deixavam-nas cegas. Por que elas não achavam estranho o cara não querer ser visto por ninguém e, de quebra, andar com um vestido de noiva na mochila? Por que não relacionaram o fetiche dele ao “Assassino de Noivas” que era noticiado nos jornais diariamente? Não é porque não existia Google e compartilhamento no Facebook que as pessoas eram desinformadas. Jornal existia, era impresso e fedia pra cacete. Esse tipo de coisa só não vê quem não quer enxergar.

A parte mais legal da série é que não é difícil reconhecer a humanidade do protagonista. E não é aquela coisa forçada, é bem natural e sutil. Apesar de ser um serial killer, esse não foi um destino que ele escolheu. Não são raros os momentos em que ele tenta proteger quem ama, ou demonstra desconforto com sua condição. As coisas que ele faz para preservar seus segredos podem ser horríveis, mas em sua cabeça fazem todo o sentido. Na realidade, seus crimes são bastante específicos, provenientes de um trauma. Se não fosse isso, talvez o restaurador de artes continuasse sendo o cara pacato que mora com a titia, namora firme uma garota bonita e toma umas cervejas com os amigos. Você pode ter algum Donato a sua volta e nem imaginar. Não há nada de extraordinário nos psicopatas que faça você soar o alarme, eles simplesmente estão por ai. Uns matam, outros não. Então abre o olho e cuidado com os que matam!

O elenco da minissérie é tão sensacional quanto a narrativa, que é muito bem construída, sem encheção de linguiça e com ganchos diários que me deixavam de cabelo em pé. Miguel Falabella surpreendeu nesse papel dramático porque pra mim ele sempre foi o Caco Antibes, marido da Magda, patrão da Edileusa e do Ribamar. Não entendo porque ele largou esse nicho, ele era bom com drama. Tão bom que agora, quando olho pra ele, só consigo pensar no Donatinho Menezes. Adeus, Caco. Você não me pertence mais. Ana Beatriz Nogueira também se destacou como, provavelmente, a única mocinha de sua carreira. Quem mandou ficar com cara de megera depois de mais velha? Não posso esquecer da Patricia Pillar, que segue sambando na cara das meninas, porque o tempo não passa para essa mulher! Falei tanto em Sai de Baixo, que esqueci que a Márcia Cabrita também fez Noivas. E ela me marcou tanto como a empregada-que-eu–esqueci-o-nome no humorístico que só fui descobrir que ela era tia de Fátima, e não secretária do lar, no último capítulo. No fim das contas acabei misturando as estações.

Quem gosta de séries criminais pode deixar o preconceito de lado e assistir. Não é porque é uma produção global que é puro lixo. Nos dias de hoje, talvez fosse. Mas nos anos 90 a TV aberta era outra, menos cheia de frescura, mais cheia de peitinhos e palavrões. Noivas é mais original e mais surpreendente do que qualquer série americana cheia das sacanagens, das tecnologias, dos atores meia boca. Os personagens não são descartáveis e, há menos que morram, seguem firme até o fim. E se no fim das contas não gostar, não tem problema. Você não fica comprometido com a série pelos próximos 15 episódios da temporada, receoso da série melhorar no ponto em que parou de ver. A versão comercializada é de apenas 5 capítulos.

 Sou foda, diguidin.

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