As mulheres de Gillian Flynn – Amy Dune (Garota Exemplar)

Livros quarta-feira, 13 de abril de 2016

Nunca admirei personagens femininas tipicamente fortes do universo literário, nem de qualquer outro lugar. As heroínas perfeitas, de coração puro, nobre, abnegadazzzZZZZzzz. Acho-as chatas. Quanto mais complexa, problemática e twisted inside – tipo eu – melhor. Carrie, de Stephen King, foi a primeirona. Criou, em mim, um fascínio absurdo com a história da menina encurralada que ascende, poderosa, contra os inimigos. Literalmente tocando o terror sobre tudo e todos, incendiando sua pequena cidade e fazendo carros voarem. Annie Wilkes, de Louca Obsessão, um dos meus livros favoritos do King, tem sobre si a aura do mal e da loucura, mas é impossível não criar ainda que um resquício de empatia, com a solitária e misteriosa enfermeira, apaixonada platonicamente por seu autor favorito Paul Sheldon. Após resgatá-lo de um acidente, ela o leva para casa e o mantém em cárcere privado, exausta da solidão e da vida medíocre que leva. O plot angustiante e claustrofóbico azeda ainda mais quando ela descobre que sua personagem favorita, Misery Chastain, será assassinada no livro seguinte. Tão doentias quanto as ações de Wilkes, é o fato de ninguém olhar por ela, deixando que seus demônios a assumam.

Warning: Cuidado com as influências literárias alheias, George R.R. Martin. Existem muitas Anne Wilkes espalhadas por aí.

Agatha Christie, por si só, tinha uma personalidade fantástica. Seu surto psicótico em dezembro de 1926, quando desapareceu por 11 dias e se hospedou em um hotel usando o nome da amante do marido, é uma das histórias mais desesperadoras e bizarras que já ouvi. Nunca foi revelado se ela estava, mesmo, no ápice do sofrimento ou se foi uma charada para os fãs se interessarem por seu livro novo. Mas não importa, porque foi com sua máquina de escrever que criou, de todas, a minha mulher favorita da literatura. Elinor Carslile, de Cipreste Triste, inteligente, apaixonada, teimosa, divertida e… Tão invejosa, quanto honesta. Cansada de lutar, está disposta a assumir um crime que Poirot está certo de que ela não cometeu. Quando interpelada pelo detetive belga, a ré sai pela tangente mas, em um desabafo tranquilo e sincero, admite que não apenas não gostava da vítima, como gostaria que ela jamais tivesse existido. Desse jeito, um tabefão na cara. A heroína de um livro transbordando sentimentos ruins, ensinando coisas feias para o público infanto-juvenil com o que há de mais humano.

“Para mim, grande parte da raça humana é extraordinariamente repulsiva. Para eles, esse sentimento provavelmente é recíproco.”

Foi assim que me apaixonei por Gillian Flynn. Há muito tempo um escritor jovem não me fidelizava. Mas ela não apenas me fidelizou, como me fisgou. A jornalista de 45 anos anos lançou, até hoje, três livros, além de produzir conteúdo para TV e HQs. Todos foram sucesso de crítica e venderam igual vestido em promoção na Forever 21. Objetos Cortantes (2006), Lugares Escuros (2009) e Garota Exemplar (2012), este último, leitura escolar obrigatória para todos os homens quando eu for rainha do Brasil, em dois mil e nunca. Seus thrillers envolvem o leitor de tal forma que parece que seus livros estão fisicamente colados em suas mãos. Contudo, apesar de ser fácil e agradável de ler, em todas as histórias suas protagonistas são problemáticas em algum nível, geralmente muito alto e perturbador, ao mesmo tempo que cativam, justamente, por não serem legitimamente fortes e donas de si. Inatingíveis, inabaláveis. Perfeitas damas. Elas apenas fazem o que podem colando, caco a caco, seus pedaços partidos para seguir em frente, enquanto a vida continua colocando o pezinho na frente, só pra ver se quebram de vez. Não quebram. Cada uma, do seu jeito, vence sua batalha pessoal. Aos trancos de barrancos, longe da forma convencional, mas vencem.

Garota Exemplar é, de todos, o mais famoso, então é justo que eu comece com ele. A obra é livremente baseada no assassinato de Laci Peterson, que ganhou os jornais californianos em 2002 e levou seu marido Scott para a cadeia. A esmagadora maioria do público conhece através do (Bom) filme, lançado em 2014, protagonizado por Ben Affleck, como um marido lixo e mentiroso e Rosamund Pike, como (The Amazing) Amy Dune, a mulher mais vingativa do planeta, que decifra e pune com uma rigidez desnecessária a hipocrisia masculina, e é responsável por aquele que é um dos trechos mais emblemáticos do livro/filme, que norteia a trama, o destino dos personagens e diz muito sobre o que alguns homens (Não precisam chorar, not ALL men), de fato, esperam de nós.

Os homens sempre dizem isso como o elogio definitivo, não é? Ela é uma Garota Legal. Ser a Garota Legal significa que sou uma mulher brilhante, engraçada, que adora futebol, pôquer, piadas sexuais e arrotos. Que joga videogames, bebe cerveja barata, ama ménage a trois, sexo anal e enfia cachorros-quentes e hambúrgueres na boca como se estivesse promovendo o maior gang-bang culinário do mundo enquanto, de alguma forma, mantém um manequim 36. Porque Garotas Legais são, acima de tudo, gostosas. Gostosas e compreensivas. Nunca ficam com raiva; apenas sorriem de uma forma envergonhada, amorosa e deixam seus homens fazerem o que quiserem. Vá em frente, cague em mim, eu não me importo, eu sou a Garota Legal (…) Como você sabe que não é a Garota Legal? Porque ele diz coisas como: “Eu adoro mulheres fortes”. Se ele te diz isso, em algum ponto ele vai transar com outra pessoa. Porque “eu gosto de mulheres fortes ” é um código para “eu odeio mulheres fortes”.

Os relatos de Amy e Nick se alternam no livro, cada um contando sua versão sobre como o amor acabou, como o encantamento, tipico de novas relações, deu lugar ao asco, ao desamor, ao ódio e desrespeito. Apesar de discordarem em tudo, suas impressões são complementares nesse sentido. Então, por que duas pessoas adultas e esclarecidas deixam a relação atingir um ponto insustentável, onde sequer se reconhecem e, mesmo assim, continuaram juntas? Esse é um questionamento que não perdura muito e é explicado da forma mais mecânica possível, pelas motivações mais torpes.

Gillian Flynn, de forma inteligente, mostra o outro lado da moeda em uma relação pautada pelo abuso. Como funciona o poder. Não o que você acha que tem, mas aquele que – de fato – está em suas mãos e o que fazer com ele, quando, como. Apesar de indigesta, a trama é fascinante e pouquíssimo incômoda. Porque, apesar da frieza e dos zero escrúpulos, Amy e Nick possuem, essencialmente, personalidades horríveis. Por mais que você se identifique com uma das partes do casal em algum nível e, a menos que você nunca tenha estado em um relacionamento, isso vai acontecer, eles extrapolam qualquer capacidade de desenvolver a sua empatia. Quanto mais a história se desenrola, mais certeza você tem de que eles estão apenas colhendo o que plantaram. E, principalmente, de que se merecem.

Não sou a favor de fazer justiça com as próprias mãos, vingança ou violência. Nada disso. Não tenho bolas e nem caráter. Ou coragem. Sou só uma bolinha branca de bochechas rosas com memória de peixinho dourado. Mas, como dizem, karma is a bitch. E, em Garota Exemplar, a bitch tem nome e sobrenome: Amy Dune. Ela É o karma, performa todos acontecimentos fundamentais da trama. Aquele mundo, paralelo ao nosso, orbita ao seu redor como se fosse o Sol. Ela não apenas vira o jogo, o usurpa. Amazing Amy. A garota cuja beleza, inteligência e vida foram exploradas pelos pais em uma série de best sellers, é a única desprezível das mulheres de Gillian Flynn. Mas culpá-la por ser assim? Não, não culpo. Inclusive curto.

“As pessoas gostam de acreditar que conhecem os outros. Pais querem acreditar que conhecem seus filhos. Esposas querem acreditar que conhecem seus maridos.”

Garota Exemplar


Gone Girl
Ano de Edição: 2014
Autor: Gillian Flynn
Número de Páginas: 448
Editora: Intrinseca

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