As Decepcionantes Adaptações Para O Cinema

Analfabetismo Funcional terça-feira, 23 de março de 2010

Decepção e frustração são alguns dos sentimentos que acometem muitas pessoas ao assistir um filme fruto de adaptação de um livro que já tenha lido. Claro que nem sempre é assim, e podemos mencionar exceções em que a obra cinematográfica chega a passar ou igualar o sucesso de sua fonte no papel, como as séries Harry Potter e O Senhor dos Anéis (lembre-se: sucesso comercial não é igual a qualidade). Todavia, convenhamos que as decepções são bem mais freqüentes que os filmes que fazem jus à sua origem literária. Por que será que isso é tão comum?

Já pensei um pouco a respeito e cheguei a algumas conclusões para justificar o fato de tanto se criticar as adaptações de obras literárias para o cinema. O primeiro motivo é evidente: a película pode ser realmente ruim, mal adaptada à tão peculiar linguagem do cinema, mal dirigida, mal produzida, enfim, os motivos são diversos para levar um filme à lista dos fracassos. Quanto a esse aspecto não há muito o que se discutir. Se o filme é malfeito, pouca influência tem nisso o fato de ser baseado num livro.

O segundo motivo, e menos óbvio que o primeiro, é o nosso inconsciente. Sim, o famigerado inconsciente. Por quê? Pense comigo, você lê um livro, dedica horas àquelas páginas imaginando cenários, rostos, corpos, vozes, roupas, forma de caminhar, olhares de reprovação ou angústia, até mesmo a trilha de suspense você toca na sua cabeça. A partir daí a obra deixa de ser só do escritor para ser uma colaboração da provocação dele com a sua imaginação. Eis que anunciam a gravação do filme baseado naquele livro que você leu e adorou (ou não). Nesse momento já começa a ser gerada uma expectativa na sua cabecinha.

Meses depois, lá está você na sala do cinema. Porém, lamentavelmente (ou não?) é tudo diferente daquilo que você imaginou. Ora meu amigo, um dia falou um sábio: “Cada cabeça é um mundo”, e muito provavelmente, a cabeça do diretor do filme está em outra galáxia, bem como a do autor do livro e da mesma forma a da pessoa sentada ao seu lado. O ator escolhido para o papel do protagonista não parece nem um pouco com o “seu” personagem principal do livro, tampouco o dragão que você imaginava ter um visual mais simpático e com a pele mais hidratada parece com o monstrinho feito pelo pessoal da computação gráfica. Em outras palavras, seu inconsciente está preparado para algo que ele construiu e quando o filme apresenta outra realidade, você (e eu também) se decepciona e desce o pau no filme, diz que o livro é muito melhor e blá blá blá…

Cabe fazer um comentário em relação às adaptações de HQs. Em primeiro lugar, em geral sofrem as mesmas dificuldades das adaptações dos livros, ainda que a imaginação dos aspectos físicos da história seja limitada em função da presença dos desenhos. Em segundo lugar, destaco que ainda assim elas (as filmagens de personagens de HQs) têm sido as de maior aprovação e sucesso, o que talvez seja explicado pelo fanatismo dos espectadores (muito embora isso possa ser um pouco contraditório). Mas onde quero chegar é no terceiro ponto: Sin City. Na minha singela opinião, é uma das melhores adaptações para cinema. O motivo é simples: atende minhas expectativas como leitor/fã da série, ou seja, é muito fiel à sua fonte de origem. Acredito que o grande trunfo do diretor Robert Rodriguez foi convidar como co-diretores o genial bastardo boneco de Olinda, Quentin Tarantino, e ninguém menos que Frank Miller – o próprio criador da “Cidade do Pecado”. Até os atores foram escolhidos minuciosamente para serem o mais parecidos possível com suas versões de tinta e papel.

 Sin City – Extrema fidelidade à obra original

Muita gente não gostou da proposta, mas tenho certeza que a maioria dos fãs de Sin City e HQ gostou. Trocando em miúdos, pode parecer uma limitação à criatividade, contudo, indubitavelmente, a fidelidade às obras originais é uma eficaz receita de sucesso às adaptações às telonas.

Pra finalizar, faço uma proposta: da próxima vez que for assistir um filme cuja história já conheça, tente, na medida do possível, ir vê-lo sem expectativas, tentando entender e aceitar a “interpretação pessoal” (perdoe-me a redundância) do seu diretor. Mais: lembre-se que cinema e literatura são artes distintas, embora possam conviver harmoniosamente. Mundos diferentes, linguagens diferentes, tempos diferentes, portanto, interpretações diferentes. Deixemos os preconceitos e as expectativas em casa, ¿vale?

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