A inviável arrogância no cinema

Cinema segunda-feira, 29 de junho de 2015

Comentei, semana passada, rapidamente, acerca de como Jurassic World ignora tudo que aconteceu no segundo e no terceiro filme da franquia, e acho que o assunto vale mais algumas palavras, ainda que estas sejam bem previsíveis: Às vezes, o ato de sair do armário se posicionar é mais importante do que sobre o que se posiciona.

 Lembram como o Coringa bota fogo no dinheiro e aí o Batman chega e eles fazem sexo na barraca?

Não é incomum ver uma série ignorando ou “esquecendo” coisas passadas em sua história. Os motivos variam, desde a imensa vergonha alheia que um acontecimento, cena ou momento causou, indo até pequenos detalhes que apenas fãs mais dedicados irão notar (E aí farão questão de jogar isso na cara da produção toda, numa esperança estúpida de que tenha um motivo maior para isso), mas a constante é que algo ficou de fora, sendo preterida em favor de novos elementos que, teoricamente, tornariam a obra melhor… Ou menos polêmica… Ou mais vendável.

Não é segredo nenhum que eu (E o Bacon, de forma geral) prefiro uma obra que seja sincera consigo mesma à uma que faça o possível para ser um sucesso, e o motivo disso é que na gigantesca maioria das vezes a obra perde com isso. A verdade é que, neste momento, não lembro sequer de um exemplo do contrário, mas ainda assim prefiro imaginar o mundo como um lugar melhor do que realmente é, talvez por inocência, talvez por querer que essas coisas deem certo… O cinismo vem da decepção.

Mas me distancio do tema em questão: Jurassic World ignora a segunda e a terceira parte da série, fazendo referência apenas ao primeiro. Não sei se vocês assistiram O Mundo Perdido: Jurassic Park recentemente, mas ele é ruim. Muito ruim. Claro, tem dinossauros matando gente e tal, mas também tem dinossauros no subúrbio de San Diego, comendo um cachorro. E Jurassic Park 3, o filme que deveria revitalizar a série, tem um dinossauro estúpido matando o dinossauro mais legal de todos os tempos (Algo que Jurassic World correu em consertar) e um conjunto de personagens tão estúpidos que chega a ser debilitante… São filmes ruins. Tem um monte de erros, vários momentos vergonhosos, roteiros sem sentido: É completamente compreensível que eles sejam deixados de lado.

 Alan Grant did it first. And better.

Ainda assim, é o tipo de coisa que me deixa puto. Claro, são filmes ruins, mas levam o nome da série. O nome que você agora usa. Não sou muito de respeitar tradições e heranças e tal, mas porra, tenha dignidade.

Mas no mundo dos negócios não há lugar para dignidade, apenas lucro.

E do mesmo modo que o parágrafo anterior parece a dublagem ruim de um filme dos anos 90, este aqui parecerá um repeteco de um monte de coisas que já disse antes: Faz parte da história da série, e sem eles, nunca teriam chego ao momento atual, ao produto atual. Logo, ignorar o acontecimento de partes de uma série (Tanto no mundo real quanto dentro da história) é mais do que falta de respeito consigo mesmo, é um tiro no pé: O público passou pela experiência dessas outras partes, e isso não tem como negar, esconder ou ignorar.

Lá se vão 22 anos desde Jurassic Park (Sim, você está velho), e desde então o público teve duas histórias completas (Isso no cinema, sem falar dos livros, quadrinhos, jogos, etc.), pra tudo ser jogado fora. Se Jurassic World é um sofrimento, pensa só nos fãs de Star Wars. Sério, é uma trilogia inteira, dezenas de jogos, centenas de quadrinhos e graphic novels, animações, tudo, absolutamente TUDO jogado fora por causa desta nova trilogia. Eu sou o primeiro a dizer que fã de Star Wars tem mais é que se foder por continuar dando dinheiro do George Lucas (E pra Disney – beijo, Marvel), mas puta que me pariu, isso é uma enrabada que eu não desejo pra ninguém. Isso é estupro de incapaz.

Normalmente este tipo de coisa acontece em séries de grande sucesso, o que, de forma geral, está intimamente ligado ao fato de que essas séries nunca (Ou quase nunca) tem a mesma equipe criativa por trás: Sempre há a troca de diretor, roteirista, compositor, diretor de fotografia… Na maioria das vezes quem continua são apenas os produtores, e como todos sabemos produtores tem como trabalho pegar o que a gente gosta e estragar… Produtores são tipo os seus pais, fazendo você dividir seus brinquedos com seus irmãos, mas nem mesmo eles estão totalmente seguros. Isso pra não falar quando o elenco muda. A questão é que mudando quem faz alguma coisa, muda-se o resultado final, e numa série de sucesso essa mudança será sempre motivada pelos resultados em números.

Algo que me impressiona entretanto nem é o fato de tal coisa acontecer, mas sim que há uma quase que completa descriminalização dos produtos. Sim, todos eles são grandes séries de sucesso, com milhões de fãs, milhões de dólares investidos, produtos de merchandising, brindes no McDonald’s… Mas são bem diferentes entre si. Jurassic Park tem pouquíssimas semelhanças com Star Wars, que não tem muita relação com Exterminador (Que é uma bagunça do caralho, e se baseia nisso para se safar), que por sua vez não tem nada a ver com o vindouro Alien 5, que já foi confirmado que ignorará Alien 3 e 4, que não tem relação com Superman Returns, ou Rocky Balboa, ou Shrek Para Sempre.

Sim, Shrek. E isso é o mais esquisito aqui: Nem mesmo uma série que se baseia completamente na desconstrução de modelos e fórmulas, fazendo piada consigo mesma desde o início, escapa dessa safadeza toda. Todo mundo sabe que Shrek Terceiro, além de ter um título horrível (E, dessa vez, nem é tanta culpa da tradução!) é um filme ruim: Ele faz absolutamente tudo que Shrek sempre sacaneou, transformando o conto de fadas travestido de anarquia num simples conto de fadas, cheio de personagens idiotas, cenas desnecessárias, clichês e más execuções, mas cara… É Shrek 3. A continuação do melhor filme da série. E ainda sim, nada dele no quarto filme, sendo que o quarto filme é sobre um personagem que pode alterar a realidade!

Easter Eggs são legais quando mostram um pouquinho sobre uma coisa secundária, pra fazer graça, e não como elemento cala-boca: Não são e nunca vão ser o suficiente, e quando se trata de acontecimentos envolvendo toda uma parte de uma série, é necessário abordá-la de forma clara, seja pelo bem da história em si seja pelo público, que passou pela experiência daquela obra, e agora chega como público desta nova e fica sabendo que parte do que ele tem por certo, por histórico, não existe mais. E, ainda pior, que mais nada pode ser feito à respeito, já que, sejamos sinceros, sequência que diz que a sequência que diz que o resto que não valia mais voltou a valer não faz nenhum sentido.

Parte dessa história toda, em deixar de lado partes de uma série em favor de outras, tem base numa questão que começou tem uns 15 anos: A integração de mídias. Claro, isto é apenas uma pequena brecha no problema principal que é a falta de vergonha na cara da indústria, mas também é a válvula de escape que as pessoas responsáveis pela indústria usam: Basta utilizar outra mídia que não a da obra em questão para explicar que o resto não vale mais, e tudo estará bem. De forma menos simplista, agora temos a disponibilidade da comunicação rápida, efetiva e em larga escala trabalhando à favor do que a obra não poderia fazer: Se não há tempo de mostrar uma explicação no seu filme, lance uma minissérie em quadrinhos explicando. Inclua cenas nos extras do blu-ray, ou faça a adaptação pro jogo se passando um ano após a obra original, crie um blog com o desenvolvimento das filmagens para mostrar, num vídeo nos bastidores, o quanto vocês gostavam de um elemento mas ele “não funcionava” com o resto do filme.

Isso faz parte de um problema maior, que abrange “a arte” como um todo, e que já há muitas décadas vem se apropriando da necessidade de realmente ter uma obra pronta. Me refiro à questão do “o resto é por sua conta” (E que recebe vários nomes, de acordo com o campo tratado), que basicamente diz que tudo que a obra não diz/mostra/relata/induz/etc. deve ser complementada pelo público. Para isto, o conceito se baseia que, no fim das contas, o que importa é a experiência e a interpretação de uma obra por cada indivíduo, e não o que a obra (E seus idealizadores) queriam passar desde o início. Há mérito neste conceito básico, o que não tem mérito é usá-lo como muleta para entregar uma obra rasa, inacabada e sem polimento… Este é um debate muito maior e que fica pra outra hora, só vou deixar aqui um beijo pra Ubisoft.

Para encerrar os trabalhos por hoje então: Já há uns anos que vemos a queda dos mais diversos meios de entretenimento e, consequentemente, de seus mercados. A TV está minguando, o cinema ainda dá lucros gigantes mas com cada vez menos aprovação, o teatro está sendo marginalizado e relegado à obras independentes, o rádio tem cada vez menos público e até mesmo a internet já mostra um ou outro sinal de fraqueza, começando a perder seu status de centro de entretenimento para ser cada vez mais uma ferramenta multiuso. Obviamente são problemas amplos, com uma quantidade infindável de poréns e variáveis, mas todas elas mostram uma realidade muito simples: Se nada for mudado, elas vão quebrar. Não há dúvidas que vãos fazer o máximo possível para continuar mamando nas tetas flácidas de cada uma (E isso ainda pode durar décadas), mas cedo ou tarde não vai sair leite, e aí teremos um bando de bebezões chorando.

O quanto antes abraçarmos os problemas criados por nós mesmos, melhor, e melhor sairemos da merda em que nos encontramos. O primeiro passo é aceitar, o segundo é reconhecer para nós mesmos, o terceiro é reconhecer para os outros: “Os outros” somos nós, o público (Pois todos somos público hora ou outra), e nós não gostamos de ser babás de ninguém, ainda mais quando os bebês sujam a fralda e culpam o cachorro… Ou o triceratops.

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