A Invenção de Hugo Cabret (Hugo)

Cinema quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

 A Invenção de Hugo Cabret conta a história de um órfão vivendo uma vida secreta nas paredes de uma estação de trem em Paris. Com a ajuda de uma garota excêntrica, ele busca a resposta para um mistério que liga o pai que ele perdeu recentemente, o mal humorado dono de uma loja de brinquedos que vive abaixo dele e uma fechadura em forma de coração, aparentemente sem chave.

Essas sinopses semi oficiais tão cada vez mais vagabundas, hein? Mas enfim, eu escolho copiá-las, eu assumo a culpa. Mas enfim, de novo, A Invenção de Hugo Cabret é muito maior do que isso. Sim, depois de uns trailers bem ruinzinhos, eu passei a considerá-lo a maior incógnita do ano. Mas claro que o Martin Scorsese tinha que reafirmar a sua genialidade. De novo. E do modo mais difícil possível, mostrando que o maldito 3D não precisa ser algo maligno e terrível. É só não estar nas mãos de pessoas malignas e terríveis.

Não que eu saiba do que eu tou falando, esse foi o único filme em 3D que eu já vi. Mas eu achei legal bagarai, principalmente os efeitos da neve/poeira/fumaça. Mas também, isso só acontece porque o 3D tá a serviço da história, e não o contrário. Mas partimos do principio. Nos anos 30, Hugo vivia com seu pai (Jude Law), um relojoeiro que gostava de consertar coisas no tempo livre. Um dia, ele trouxe pra casa um autômato quebrado que ele achou num museu, aparentemente “programado” pra escrever uma mensagem. Noutro dia nem tão alegre, ele morreu num incêndio. E é aí que o pobre Hugo vai viver com seu tio bêbado numa estação em Paris. Só que o tal tio desaparece e o garoto continua a viver clandestinamente na estação, ajustando os relógios do lugar.

Até aí, nada de mais. Mas entre roubar algo pra comer e se esconder do inspetor da estação (Sacha Baron Cohen), ele ocupa o tempo tentando consertar o autômato, pra manter viva a memória do pai e toda aquela coisa. E pra isso, ele precisa de peças. Que ele rouba da loja de brinquedos do Papa Georges (Ben Kingsley). Depois de altas confusões, ele acaba descobrindo que Isabelle, neta de Georges, tem a chave que ele precisa pra fazer o autômato funcionar. E os dois partem numa aventura pra descobrir as ligações entre seus respectivos responsáveis e a tal máquina de escrever com rosto.

Eu tava aqui pensando em qual seria o ponto alto do filme: Tem as atuações, todas muito boas. O visual, igualmente sensacional. Mas acima de tudo, é um filme de aventura como eu não via há um bom tempo (Tirando o Tintim, que é uma releitura do Indiana Jones). Ok, num certo momento esse clima se perde, mas é pra dar lugar a algo ainda mais legal. O verdadeiro proposito do filme, uma grande homenagem aos primórdios do cinema. A coisa realmente engrena quando descobre-se que Papa Georges na verdade é Georges Méliès, um dos primeiros grandes cineastas da história, com mais de 500 filmes no currículo, e praticamente o pai da ficção científica nas telas.

A partir daí, o filme se transforma num belo resgate da obra de Méliès e dos pioneiros da sétima arte. E o mais fantástico é que essa redescoberta ocorre simultaneamente para os personagens e o espectador. Por exemplo, eu só tinha visto o Viagem à Lua do cara. Que é a única obra que sobreviveu à guerra no filme, a princípio. Depois dessa descoberta começa-se a desvendar a carreira do diretor. E o mais genial, através de tudo o que a tecnologia atual tem a oferecer.

Mas essa ode não se restringe ao cinema fantástico do Méliès, como se pode ver na emocionante cena de Hugo e Isabelle no cinema, e principalmente na própria estação. Há momentos em que Hugo é quase um espectador, acompanhando a vida das pessoas de dentro das paredes do lugar, como que do interior de uma sala de projeção.

E o Scorsese não para por aí: A coisa beira a perfeição em todos os aspectos. A performance do Ben Kingsley, de Helen McCrory (A esposa do Méliès), Sacha Baron Cohen e a pequena participação do Christopher Lee tão sensacionais. Assim como alguns pequenos detalhes, como as referencias literárias de Isabelle, os momentos humorísticos na estação e essa revigorante visão da tecnologia como algo libertador, ao contrário do que temos visto ultimamente. A única coisa que deixou a desejar foi uma exploração emocional maior na motivação de Hugo. Talvez uns flashbacks a mais mostrando a convivência dele com o pai nos desse uma conexão maior com o personagem.

Mas o que mais me surpreende ainda é o visual. Eu nunca imaginaria que o uso do 3D pudesse ser tão apropriado. Como nas experimentações de Méliès, nas mãos de Scorsese ele passa de um mero modo de arrancar dinheiro do público, pra se tornar mais uma engrenagem na máquina de construir sonhos que é o cinema.

A Invenção de Hugo Cabret

Hugo (126 minutos – Aventura)
Lançamento: Estados Unidos, 2011
Direção: Martin Scorsese
Roteiro: John Logan, baseado no livro de Brian Selznick
Elenco: Asa Butterfield, Chloë Moretz, Sacha Baron Cohen, Jude Law, Christopher Lee, Helen McCrory

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  • Acho que esse filme é a maior prova de que o 3D é, na verdade, completamente desnecessário. Por quê? Em muitos momentos (os principais, diria) no filme, onde o Scorsese queria criar e manter foco, ele caí de novo no 2D – e ninguém percebe.

  • Concordo plenamente, e o preço custa o dobro. O Único filme em 3D que eu vi e que valeu a pena foi Alice no pais das maravilhas. Do Tim Burton, isto é comparado a esses outros que tem pequenos efeitos em 3D, mas o resto em 2D

  • Willian

    Assisti esse filme ontem, sensacional. A historia realmente é bem cativante e o visual é incrivel. As cenas que mostram a cidade são impecaveis. Acho que esse filme vai ganhar o oscar de melhor fotografia.
    Eu ate ia assistir no cinema, mas por aqui so tem em 3d dublado, ai perde 50 % da atuação dos atores. Ai acabei vendo a versão legendada mesmo. Sem falar que eu queria ver a Chloe falando com sotaque ingles.

  • lucas

    Notei isso também, no início toda cena tinha pelo menos um objeto em 3D e depois ele foi meio que largando de mão, haha. Mas isso nem me incomodou, acho que ia ficar muito cansativo de outro jeito… E principalmente, ele usou o 3D onde cabia. Tipo, onde realmente fazia diferença ou ajudava a trama. O “valor simbólico” do 3D ali foi o que deixou mais legal, se isso faz algum sentido.O problema é cobrar ingresso mais caro pra isso, aí fode com tudo. 

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