A Insustentável Leveza do Ser (Milan Kundera)

Livros segunda-feira, 17 de setembro de 2012

“O mais pesado dos fardos nos esmaga, verga-nos, comprime-nos contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o fardo do corpo masculino. O mais pesado dos fardos é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da realização vital mais intensa. Quanto mais pesado é o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais real e verdadeira ela é. Em compensação, a ausência total de fardo leva o ser humano a se tornar mais leve do que o ar, leva-o a voar, a se distanciar da terra, do ser terrestre, a se tornar semi-real, e leva seus movimentos a ser tão livres como insignificantes. O que escolher, então? O peso ou a leveza?”

Esse questionamento inicial, em A Insustentável Leveza do Ser, acompanha o contraste entre as teorias de Nietzsche (O Eterno Retorno e seu peso) e Parmênides (A positividade da leveza). O autor, Milan Kundera, nega o Eterno Retorno, ideia de que tudo que se vive se repetirá indefinidamente, ao afirmar que escolhemos um caminho de cada vez e que não existem maneiras de se comparar o que aconteceu com o que poderia ter acontecido. Conclui, ainda, que a incapacidade de fazer essa pesagem nos livra da culpa e diminui a importância das ações, sobrando uma leveza insustentável. Esta oposição entre a leveza e o peso é a dicotomia que norteará toda a obra.

A história, iniciada em Praga, envolve quatro personagens – Tereza e Tomas, Sabina e Franz – e suas relações amorosas, assim como o modo como encaram a vida, envoltos pelo peso ou pela leveza. Por trás dessa teia cresce outra trama: O cenário político da opressão dada pela invasão russa sobre a República Tcheca.

Tomas é um médico intelectual que pratica a leveza da vida, separando sexo de amor e, assim, relacionando-se com diferentes mulheres, mesmo quando se apaixona por Tereza. Resumindo, aquele cafajeste que você odeia e ama ao mesmo tempo. Tereza, por sua vez, é pura e inocente, e em função de sua inteligência e compaixão pelos outros, carrega um peso que Tomas não poderia entender. Ela não o condena por suas infidelidades e se considera fraca perante a ele. Sabina, mulher intensa e livre, é o mais importante dos casos de Tomas e representa a extrema leveza do ser. Entretanto, essa extremidade, dada por suas escolhas ao longo da vida, pode tê-la tornado irrelevante e sozinha. Tomas escolheu Tereza e seu fardo; Sabina escolheu ser totalmente livre e leve. Nenhum dos dois pode afirmar se suas escolhas foram corretas. É esta a insustentável leveza do ser: Não saber como poderia ter sido. E se…? Não, não dá. Por último, Franz, caso amoroso de Sabina, é incapaz da leveza, atribuindo sentido a própria vida ao colocar peso e importância em tudo, envolvendo-se intensamente com seus sentimentos e suas convicções políticas.

 Tomas e Sabina na adaptação cinematográfica da obra (PS: Tô pra ver um filme superior ao livro)

Kundera consegue estabelecer uma narrativa interessante, ao não respeitar a linearidade dos fatos, passeando pelo tempo e captando a atenção do leitor. Isso, aliás, ele faz muito bem, estabelecendo em diversos momentos pequenas conversas com quem está do outro lado, interrompendo a história para induzir reflexões. A sensação que tive foi de que alguém próximo estava me contando uma novela da vida real e dando intervalos para comentar o que estava acontecendo, de uma perspectiva psicológica e filosófica. Tal fato me chamou bastante atenção, pois apesar de ler muito não havia me deparado, até então, com nada do tipo.

A Insustentável Leveza do Ser é um livro que precisa ser lido com calma, de forma a apreender ao máximo os questionamentos passados. Me peguei diversas vezes parada, pensando sobre o que havia acabado de ler e relacionando com a minha própria maneira de encarar a vida e conceituar as coisas. Pra mim, foi realmente um aprendizado. Melhor, um estudo, eu diria. A ponto de iluminar as passagens mais importantes. Algo que não entendo é por que eles sempre escolhem os clássicos menos interessantes para lermos na escola. Teria me aprofundado com prazer nessa obra, considerada uma das melhores do século XX. Paciência. Deve ter sido melhor ler O Cortiço mesmo, né.

A Insustentável Leveza do Ser


The Unbearable Lightness of Being
Ano de Edição: 2008
Autor: Milan Kundera
Número de Páginas: 312
Editora: Companhia de Bolso

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  • Arthur

    Você realmente acha que é mais importante ler obras estrangeiras do que clássicos brasileiros? No Brasil?

  • Arthur

    To dizendo na escola, claro.

  • nalu

    No caso não disse isso em nenhum momento. Mas, para me tornar mais clara, reformularei. Na minha experiência escolar, a maioria – esmagadora – dos livros lidos foram nacionais. É claro que é importante valorizar a cultura nacional, não discordo disso – e não discordo, também, que a maioria dos livros indicados sejam de autores brasileiros. Acontece que muitas obras, clássicos mundiais, passam batidos. Se hoje tenho um conhecimento razoável sobre a literatura mundial, isso se deve a minha própria vontade. Tive a oportunidade de estudar em um dos melhores colégios do país e, ainda assim, durante minha vida acadêmica, não fui colocada em contato com autores geniais. Não acho válido que a escola não estimule o jovem a ler escritores como George Orwell, Hemingway, Fitzgerald, Henry James, Gabriel García Márquez, Bukowski, etc etc. Ainda que seja importante ler autores como Machado, Joaquim Manuel Macedo, José de Alencar, Rachel de Queiroz, e tantos outros, não acredito que obras incríveis devam ser ignoradas somente pelo princípio de “estamos no Brasil, vamos mostrar que aqui também fazemos cultura”. Na minha opinião, 1984, por exemplo, é um livro indispensável de ser lido. Já O Cortiço, apesar de sua importância como carro chefe do Naturalismo no Brasil, não é de TANTA importância assim, sob uma perspectiva mundial. E, particularmente, não é uma leitura que me agrada. Enfim, o que quis dizer é que precisa haver um equilíbrio para que obras sensacionais não passem em branco.

  • Arthur

    Olha, eu entendo o que você quis dizer, e de certo modo você tem razão. Porém a questão da leitura destes clássicos passa por uma questão que vai além apenas de uma noção nacionalista de afirmação cultural brasileira. Tem relação com isso também, e da valorização da mesma, porém é muito mais importante entender as influências estéticas na nossa arte e na nossa literatura do que “estudar” romances consagrados de autores internacionais, isso porque nos ajuda a entender o próprio momento no qual o vive o país. O Cortiço não é apenas o carro chefe do naturalismo, ele é também um retrato muito bem feito da pobreza e das condições de vida dos “cidadãos de segunda (ou teceira) classe” no Brasil e isso é só um exemplo.
    Os autores que você cita são quase todos do século XX e que, apesar de serem sensacionais, com certeza, não possuem tanto apelo literário como pode parecer, principalmente em nossas terras. Se fossemos estudar romances de países de línguas diversas, existem outros autores que de mais importância e representatividade para a arte de modo geral, como Cervantes, Goethe, Victor Hugo, dentre outros, que apesar de antigos, influenciaram todas as gerações posteriores.
    Já somos um país colonizado intelectualmente, e sinceramente não vejo o porquê de tornar esta situação mais grave do que já está, ainda mais pelos autores que você citou, que tirando Gabriel Garcia Marquez, são todos de língua inglesa. Você já parou para pensar o porquê de gostar tanto destes autores? Ou também o porquê da leitura destes mesmo é mais agradável do que dos consagrados escritores da língua portuguesa?

  • nalu

    Leitor, de novo você está pressupondo coisas. O único livro que eu disse não ser do meu agrado foi O Cortiço. Memórias póstumas, por exemplo, é um dos melhores que já li, mesmo comparado aos dos “autores de língua inglesa”. No caso, Cervantes e Victor Hugo, que você comentou, eu, pelo menos, tive a oportunidade de ler no colégio, por isso não os citei. E sim, concordo que “é muito mais importante entender as influências estéticas na nossa arte e na nossa literatura” e, por isso mesmo, disse anteriormente que a maioria dos livros estudados deveria sim, ser de autoria nacional. Só questionei o porquê de grandes autores mundiais do século XX serem ignorados. Se você quiser, podemos concordar em discordar.

  • luana

    acho o cortiço uma merda mesmo. mas 1984 também.

  • Então, cara. A política do Bacon é anti-pirataria. Além do que, se você é burro o bastante pra não achar algo pra baixar, você merece ficar sem.

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