A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl)

Cinema segunda-feira, 07 de março de 2016

 Cinebiografia de Lili Elbe (Eddie Redmayne), que nasceu Einar Mogens Wegener e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. Em foco o relacionamento amoroso do pintor dinamarquês com Gerda (Alicia Vikander) e sua descoberta como mulher.

Quando o trailer de A Garota Dinamarquesa foi divulgado pela Universal, em meados de setembro, outubro, eu fiquei toda ouriçada. Sei que estou parecendo uma tiazona falando, mas eu não tenho outro adjetivo melhor em mãos. Mais do que com Goodnight, Mommy. Mais do que com o show do H.I.M., banda favorita da minha adolescência. Se meu casamento estivesse marcado para antes da estreia, provavelmente estaria dando menos fucks do que para a trama de Einar Wegener, posteriormente Lili Elbe, historicamente conhecida por ter sido a primeira transexual a realizar uma cirurgia de mudança de sexo.

Em 11 de fevereiro, finalmente, o dia chegou. Carreguei a caravana Kruczan inteira para o cinema. Me acomodei confortavelmente na poltrona 01 da fileira H, aguardando o espetáculo de atuação, fotografia, roteiro e direção que me esperava. A fotografia, de fato, estava maravilhosa. Assim como o figurino e a trilha sonora. As atuações de Eddie Redmayne, Alicia Vikander e Matthias Schoenaerts estavam no ponto, especialmente Vikander que, de coadjuvante, não tinha nada. Mas o resto. Ah, o resto… Eu não sei o que dizer, só sentir. Mas como preciso escrever um texto sobre isso, here we go.

As inconsistências são várias, para um filme baseado em uma história real. Especialmente em relação à dinâmica do casal protagonista. A impressão é que a trama se divide em dois atos, de forma brusca e malfeita, para justificar e demonstrar a transição de Einar Wegener (Eddie Redmayne) para Lili Elbe (também Eddie Redmayne). Dentre muitos pecados, esse foi o maior.

Eu no cinema.

Nos primeiros 40 minutos, Einar é um pintor de fama internacional, casado com a ilustradora, não tão famosa assim, mas muito talentosa e de certo renome, Gerda (Alicia Vikander). A vida sexual, fazem questão de ressaltar em frente aos amigos (e espectadores), é ativa e intensa, especialmente porque estão tentando engravidar. O casal sai para festas, esfrega seu amor na cara da sociedade, mas, o mais tocante, é a cumplicidade dos dois, que tinham longas conversas sobre tudo, se ajudavam nos dilemas internos, no trabalho, exploravam suas afinidades e seus talentos. Juntos. Sempre. Enfim, se fosse na atualidade, ficariam postando fotos no Instagram e fazendo juras de amor no Facebook. Talvez até dividissem um perfil no Snapchat mandando nudes em conjunto.

Toda essa construção se desmonta no momento em que ele posa para a esposa, com um vestido no colo e uma meia de seda. Parece que, apenas aí, o pintor se dá conta de sua identidade. Isso mesmo, apenas ao toque das peças femininas. Como se aquilo jamais tivesse passado por sua cabeça. Redmayne expressa esse impulso, nas telas, de fora para dentro, ensaiando trejeitos femininos e se mostrando encantado pelos figurinos de sua mulher, não de dentro para fora, como era esperado. Até então, não há qualquer indicativo de repressão da identidade de gênero no personagem. E, ainda que houvesse, a interrupção abrupta do desejo sexual e do interesse dele por Gerda, inclusive enquanto ser humano, surpreendem negativamente, pois não condizem com este que é um dos pontos mais fortes na obra de Tom Hooper. Até porque, diga-se de passagem, Einar se identificar como mulher não necessariamente apaga sua orientação sexual como se, compulsoriamente, devesse se atrair apenas por homens.

A força de Gerda é o melhor do longa, apesar de ser constantemente apagada pelo espectro de Lili, tão centrada em seu sofrimento e na sua identidade que abdica de sua companheira, melhor amiga, e das coisas que dividiam que as faziam tão felizes. Ainda assim, a ilustradora permanece dedicada, inclusive se mudando com a mulher, que um dia foi seu marido, para Paris, em busca de ajuda e fugindo dos tratamentos desumanos aos quais Einar foi submetido, como eletrochoque e radioterapia, enfrentados por gays, transexuais e mulheres “histéricas” entre as décadas de 20 e 30. Lá, ela conhece Hans (Matthias Schoenaerts), marchand e amigo de infância de Einar, com quem ela desenvolve uma amizade, intensificada no período em que Lili faz sua primeira cirurgia de transição, entremeada de muita tensão sexual artificial, porque é claro que ela precisava de um par. Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozzZZzzZZZ… Also, Guerda deve ser parecida com a maioria das garotas…

E precisa pedir permissão, sim, seu babaca. Do contrário, é assédio!

A Garota Dinamarquesa mutila a história de Lili Elbe e sua parceria de toda a vida com Gerda Wegener. O filme é raso, mas isso não invalida a pertinência do tema, em tempos de intolerância e violência, até porque pouco mudou de lá para cá nessa esfera. Fora a ciência, que avançou, em termos de preconceito ainda estamos ancorados ao passado. No cinema, ecoavam risadas nervosas e deboches. Eu não entendo como, ou por que, alguém paga 40 reais de ingresso + pipoca + estacionamento/taxi/ônibus para assistir à cinebiografia da primeira transexual a fazer uma cirurgia de mudança de sexo só para ficar gritando “que viadagem”, “esse viadinho”, “que nojo” e rindo das cenas onde a protagonista sofria violência. Precisamos falar sobre isso. E precisamos rude.

A verdadeira história da garota dinamarquesa

Esse trecho contém muitos, muitos spoilers. Então se você ainda quiser assistir ao filme, senhor juiz, pare agora!

Einar Wegener e Gerda Gottlieb se conheceram na Academia Real de Belas Artes da Dinamarca e casaram-se em 1904, aos 22 e 18 anos, respectivamente. Enquanto ele pintava belíssimas paisagens, ela ilustrava revistas de moda. E assim surgiu Lili, como o filme conta. Posando para a companheira usando figurino feminino, se sentiu atormentado pelo conforto e reconhecimento ao se enxergar como mulher. No filme, isso é levado como brincadeira pelo casal, inicialmente, mas na vida real os desdobramentos foram bem diferentes.

Lili Elbe, em 1926

Além de não interferir na identificação de gênero do marido, Gerda o apoiava. Inclusive registrou gravuras de Lili inúmeras vezes ao longo de sua carreira e sabia de seus encontros com parceiros masculinos. Ambas eram bissexuais e, em busca de soluções para o tormento de Einar, que por vezes considerou suicídio graças à sua personalidade “partida”, e de mais liberdade para exercer um casamento fora de todas as convenções, arrumaram as trouxas em 1912 rumo a Paris.

Durante a década de 20, Lili tomava a mente, o corpo e o comportamento de Einar por completo, enquanto o pintor se dissipava, junto com seus gostos e talentos. Não era apenas uma ressignificação sexual, mas pessoal. O casamento com Gerda foi anulado e, após obter seus novos documentos e ser reconhecida como mulher legitimamente, se envolveu com Claude Lejeune, negociador de arte, com quem esperava se casar e ter filhos.

Foi apenas em 1930 que Lili se submeteu a primeira cirurgia de redefinição de sexo, removendo os testículos. Foram quatro em dois anos, sendo a última um transplante de útero, cuja rejeição a mataria três meses depois. O destino de Gerda não foi muito mais feliz do que o de sua “pobre Lili”, como ela se referia a ex companheira, de acordo com registros de amigos. A ilustradora casou-se novamente com um militar italiano, Major Fernando Porta, que esgotou todas as economias da esposa antes de se divorciarem. Ela faleceu, na miséria, em 1940.

Lili, por Gerda Wegener

A Garota Dinamarquesa

The Danish Girl (120 minutos – Drama)
Lançamento: EUA, Reino Unido e Alemanha, 2015
Direção: Tom Hooper
Roteiro: Lucinda Coxon
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts e Ben Whishaw

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