A Exposição das Rosas (István Orkény)

Antípodas da Mente sexta-feira, 02 de outubro de 2009

Ano passado, rolou pela internet a lenda de um artista porto-riquenho (A saber, Guillermo Habacuc Vargas) que, como obra de arte, havia exposto um cachorro vivo, amarrado a uma corda, no meio de uma bienal.
Escrito com comida de cachorro, colada na parede atrás do animal, aparecia a frase “Você é o que você lê” e o cão, teria, teoricamente, ficado preso até morrer de fome.

Ignorando a crítica à crueldade do autor (Blá blá blá, direitos dos animais etc), a idéia de se ter a morte exibida para milhares de espectadores é algo deveras tentador, especialmente num ambiente “limpo”, “elevado” e “enriquecedor”, como uma bienal de arte.
Além disso, o artista afirma que, apesar dos inúmeros protestos virtuais, nenhum dos visitantes do evento fez Qualquer esforço para alimentar ou soltar o animal.

Idéia semelhante é praticada, de uma outra forma, pelo escritor húngaro István Orkény. Ambientando-se por volta da segunda metade do século XX, mas sem data definida, a novela retrata um diretor e produtor de televisão tentando realizar um documentário sobre a morte. A idéia, muito simples, é, com a permissão dos participantes, filmar nua e cruamente os últimos dias de três doentes terminais.
Além do nome, a história inteira é narrada com um tom de ironia Completamente Genial, beirando o hilário quando o produtor Iron pede para que o médico antecipe a morte de um dos pacientes, de forma que coincida com o horário do noticiário da tarde.

Além disso, muito mais do que falar sobre a morte, A Exposição das Rosas é uma novela de costumes dos vivos, expondo de forma incrível total a hipocrisia da convivência da Hungria comunista, bem como na humanidade no geral.
Conheça nossos Três Participantes:

– O primeiro é um famoso linguista, como alguma doença que, apesar de não ser deixado clara, assemelha-se a um tumor no cérebro, um derrame ou algum outro tipo de problema no sistema nervoso. Infelizmente, Iron só consegue a permissão para gravar o documentário após a morte deste participante, e acaba contando somente com o depoimento de sua mulher.
Entre outras coisas, o casal não conversava a mais de vinte anos, e o doente era obcecado por sua pesquisa de algum dialeto obscuro de algum lugar obscuro.

– Depois temos a pobre empacotadora de buquês de flores com câncer no estômago. Enquanto sua barriga incha e ela definha na cama, sua mãe velha, obesa e meio-cega briga pelo apartamento com uma família de “ciganos”. Com direito a um pré-adolescente com Tendências Suicidas!

– “Meu próximo infarto será seu!” Ah, J. Nagy! O ator, jornalista, conquistador, bon vivant e amigo do idealizador do documentário! Força-se a um segundo ataque do coração, convencido de que este é seu “derradeiro e mais verdadeiro trabalho”!

Além disso, o livro conta com uma segunda novela, entitulada “A Família Toth”. Essa deixo para que vocês descubram sozinhos. Adianto apenas que o Hilário, o Horror e o Grotesco misturam-se de forma sublime pela narrativa desse incrível húngaro.

Mais um belo exemplo do trabalho que a Coleção Leste vem fazendo no Brasil, publicando o melhor da obra de artistas do Leste Europeu que, de outra forma, continuariam completamente ignorados.

Exposição das Rosas


Rózsakiállitás – Tóték
Ano de Edição: 1993
Autor: Orkény, István
Número de Páginas: 160
Editora: 34

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