Os 7 Livros Mais Prejudiciais a Sua Mente – 4. A Boca do Inferno (Otto Lara Resende)

Livros segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Este texto faz parte de uma lista que, definitivamente, não é um top 10. Veja o índice aqui.

Pois bem, e eu lhes apresento outro simpático velhinho.
Otto Lara Resende foi um famoso jornalista mineiro, atuante na capital do Rio de Janeiro. Durante meados da década de 50, ele possuía seu próprio espaço para entrevistas televisivas, chegando a entrevistar personalidades como Nelson Rodrigues.

Filho de um professor mineiro e quarto de uma série de vinte (sim, vinte!) irmãos, teve uma rígida educação católica. Era conhecido pela simpatia e pela receptividade dos amigos em sua casa, estando sempre aberto a reuniões e conversas.
Mas em 1957 nosso sorridente jornalista publica seu segundo livro de contos, A Boca do Inferno. A partir daí, Otto começa a ser visto como alguma espécie de doente mental pervertido pela família, pelos amigos e pela sociedade carioca em geral.

A Boca do Inferno possui um tema Difícil. Difícil de ser aceito para a época em que foi lançado e Difícil de ser digerido pelo leitor. Trata-se de sete contos ambientados no universo infantil, com impressionante unidade temática e estilística. Todos os contos, Todos sem exceção, trabalham o universo infantil de forma Trágica, Problemática e, por que não?, Perversa.
Além disso, grande parte das histórias envolve conflitos entre a realidade da infância e a idealização da educação católica rígida. O melhor exemplo é o conto Dois Irmãos, onde a criança, atacada pela culpa da morte de seu irmão e com a cabeça rodando pelo catecismo, acaba por Cortar fora o próprio Pau dentro do banheiro de sua casa, numa forma Doentia e Desesperada de extirpar os pecados de seu corpo.

 A Perturbação fica ainda maior quando lemos O Porão, terceiro conto do livro. A forma como a Crueldade Infantil é trabalhada, em contraste com uma bela e sóbria narração do espaço, cria um profundo arrepio na espinha, enquanto lemos o Psicótico assassinato a sangue frio de Rudá por seu amigo Floriano, dentro de um porão. A canivetadas.
O trabalho estético é primoroso: a escuridão do porão é trabalhada como coisa viva, como uma Entidade de Liberdade que permite ao garoto todos os tipos de experimentações Violentas.
Conheço pessoas que tiveram pesadelos com esse porão…heh.

Continuando a Morbidez, em Três Pares de Patins conhecemos a violência da brincadeira sexual com que um garoto oprime sua própria irmã e um de seus amigos. Dentro de um cemitério.

Como triunfo final e Perverso dos instintos animais e desesperados das crianças sobre a educação falha e problemática da Igreja Católica, vemos, em O Moinho, o suicídio Brutal do menino Chico, que se joga nas engrenagens de um Moinho em movimento após perceber que não poderia escapar de seu cruel e violento Padrinho.
Por fim: a beleza da unidade do livro. O primeiro conto, chamado Filho do Padre, mostra Trindade, garoto que havia sido adotado por um padre, envenenando o velho vigário e se escondendo uma pequena gruta local, apelidada carinhosamente pelos habitantes da cidadezinha de…A Boca do Inferno.

Boca do Inferno, após passar quase meio século com suas publicações esgotadas, volta a ser impresso pela Companhia das Letras em 1998, bem como outras obras do mesmo autor. Otto Lara escreve de forma límpida e poética que, em conjunto com seus temas Perversos & Mórbidos, funciona como um Chute no Olho. E na Mente.

Boca do Inferno, A


Ano de Edição: 1998
Autor: Resende, Otto Lara
Número de Páginas: 104
Editora:Companhia das Letras

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  • joao

    urrú! isso parece doentio! e tudo que é doentio,e Pra mim!

  • Brontops

    Muito bom mesmo. Acatei recomendação do AOE e comprei este livrinho (até pra sentir se os gostos batiam) e o do Modesto Carone. O do Carone achei fraco e não fez a minha cabeça. O do Otto foi fantástico, o conto trabalha a favor da história.

    A única coisa que é perigosa na resenha é que ela “entrega” demais as histórias.

    Abs

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