Um bebê batizado de Sedutora, abortos e Facebook. Ou, simplesmente, Freakonomics

Cinema segunda-feira, 02 de Maio de 2011

Lembro quando documentário era algo que se assistia na escola, geralmente babando e dormindo na cadeira. Os tempos mudaram, inclusive neste gênero outrora rotulado de chato-pra-cacete. Que o diga o jornalista Stephen Dubner e o economista Steven Levitt, autores de Freakonomics. Um livro nada modesto que prometia mostrar o lado escondido de todas as coisas, mudando a forma do leitor ver o mundo.

Se a promessa era grande, a tiragem foi maior ainda: Mais de 4 milhões de exemplares sumiram das livrarias. Como bons estadunienses (Vulgo americanos) a dupla de autores logo fez da obra um documentário. E o resultado é sensacional. Freakonomics não tem vampiros, mas revela coisas te deixarão pálido. Não tem explosões, mas sacode o cérebro, derrubando as teias das aranha que vivem felizes por lá. Em quatro histórias independentes, vemos por exemplo como um ditador na Romênia se relaciona à queda da criminalidade em Nova Iorque.

O primeiro segmento mostra que pessoas com nomes estranhos aparentemente são mais pobres, ignorantes, feios e fedorentos. Inicia-se então uma análise baseada em fatos comprovados e pesquisas sérias. O espectador é pego pela mão e convidado a acompanhar um raciocínios digno de House. Percebemos que a verdade frequentemente não é aquilo que se pensava.

América, anos 60. O bicho pegava feio entre negros e brancos. Protestos, muita porrada e gritaria eram a rotina num país que ainda possuía bebedores de água separados de acordo com a cor do vivente. Ah, sim: Negro sentava só no fundo dos ônibus. O separatismo cultural fez com que afro-americanos da época, buscando identidade própria e querendo distância dos brancos azedos, dessem nomes como Shamala, Unneqque ou Tyrone aos seus filhos. A intenção era legal, mas não melhorou o destino de ninguém. Os não-brancos seguiram com menores chances de formação e profissionais. Fato: As jovens Shamalas e Unneqques eram pobres não pelos nomes, mas pelo ambiente, a pouca educação e oportunidades. Quer mais? Trinta cópias de um currículos foram enviados para vagas de emprego. O nome no cabeçalho: Tyrone, considerado negríssimo nos Estado Unidos. As mesmas trinta cópias foram re-enviadas, mudando só o detalhezinho do nome: Mike. O retorno dos empregadores cresceu 30%. Concluindo: A menos que papai e mamãe tenham lhe batizado como Gates ou Tom Cruise, seu nome não lhe ajuda, mas pode atrapalhar, principalmente se sinalizar sua cor. Aqui no Brasil varonil, o fenômeno se liga à ignorância gerada pela pobreza, não cor. O que mais explica os Uóxintons, Uélintons e companhia? (Desculpa aí quem sofreu esta sacanagem batismal. Lembre que o importante é ter saúde).

Seguindo o baile, o documentário foca a enorme onda de criminalidade que varria as terras do Tio Sam no fim dos 80. Todos especialista afirmavam que a década de 90 seria pior ainda. Não sobraria nem uma cueca no varal. E então? O crime caiu. E muito. E rápido.

As autoridades correram para encher a própria bola. O milagre seria porque havia mais policiais, mais prisões, penas mais severas, a economia melhorou, blá-blá-blá. Aí entrou a teoria do economista Levitt. Ele mostrou que na Romênia, o ditador local – Nicolae Ceauceascu – ordenou, a partir de 1966, que todo mundo tivesse filhos em ritmo de coelho. O aborto foi proibido. Uma polícia especial fazia testes de fertilidade nas mulheres. As incapazes de fazer alguém nascer, morriam (Executadas). A taxa de natalidade duplicou, trazendo ao mundo legiões de bebês cujas mães não tinham condições de criá-los, e muito menos o Estado tinha. O resultado foi o aumento dos crimes, cerca de 15 a 20 anos depois. Simultaneamente, ocorreu o inverso nos EUA. O aborto foi liberado em todo o país. O resultado? Após os mesmos 15-20 anos, faixa de idade ápice de criminalidade, esta despencou. O próprio autor do documentário diz que esta não foi a causa única. Mas respondeu por mais da metade dos casos registrados.

O trunfo de Freakonomics é contar estas e outras histórias com didática, mas sem encher a paciência. A sensacional direção de arte exibe informações e dados com os mais criativos recursos de animação e computação gráfica. Acredite: Fica muito interessante.

Então nesta época de maria-vai-com-as-outras, em que alguém grita qualquer coisa na Web e uma multidão vai atrás, pare pra pensar. Não dói. Procure saber o que realmente está por trás das coisas. Garanto que é muito mais instigante do que replicar mensagens nos Facebooks da vida.

Megadica: Entre um episódio e outro de Chaves, experimente Freakonomics. Seu cérebro agradece.

Cícero de Cesero é leitor do Bacon, e nas horas vagas [Ou seja, todas] fica mandando textos pra aparecer aqui. Quer participar também? Mande seu texto pra feijoada@baconfrito.com e a gente dá uma olhada.

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  • Fiquei interessado em ver esse documentário, tinha ouvido falar só por alto.

  • O documentário eu nunca tinha ouvido falar. o livro eu li a bastante tempo. E bem interessante mesmo

  • Fátima

    O documentário consegue ser histórico, atual, pois utiliza ferramentas cinematográficas de última geração e é baseado em um livro que deve ser lido também. parabéns pela notícia, não percam o documentário.

  • Carol Mattos

    mas olha só, sr. Cicero por aqui! ótimo texto, ótimos argumentos.

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