Top 10 cinebiografias musicais

Cinema quinta-feira, 24 de maio de 2012

Então, esses tempos eu falei sobre o filme que conta a história do Woody Guthrie e tal. Pelo menos eram esses tempos quando eu pensei nesse post. Enfim, enquanto escrevia, eu fui percebendo o quão difícil é encontrar cinebiografias que prestam. Mas isso foi só um lapso de memória, já que existem inúmeras. Mas cinebiografias de músicos/bandas, não. Provavelmente porque não existam tantos filmes de músicos/bandas assim. Mesmo assim, eu consegui achar o número suficiente pra montar aquele top 10 maroto, onde todo mundo se diverte pacas reclamando das posições.

10 – Sid e Nancy (Sid and Nancy)

OK, é um filme medíocre. Mas a banda também é, então tudo meio que se encaixa. E vale a pena pela interpretação do Gary Oldman como Sid Vicious. A performance da Chloe Webb também é muito boa, de um jeito ruim. Ou ao contrario. Porque ela é irritante pra caralho, só que a Nancy Spungen devia ser assim na vida real também. Além disso, é foda ver como o Sex Pistols era uma banda “vazia”. Que nem o punk, ou pelo menos a parte do movimento imediatamente influenciada por eles. E como o Johnny Rotten era babaca. Porque a gente lê as declarações dele de vez em quando, e todo mundo sabe que os Pistols não passavam de uma jogada de marketing pra vender roupas. Só que ver a coisa toda no contexto da época torna tudo mais significativo. Tipo a critica inglesa ao clima paz e amor dos anos 60, sendo que eles próprios acabaram se tornando uma versão distorcida dessa geração, abraçando o pior que os hippies tinham a oferecer nos seus momentos finais.

Mas se o filme vai bem na ambientação, a história não tem nada de mais. A narrativa de Sid e Nancy nunca vai além do que nós já sabemos, sempre se atendo a versão oficial, sem se arriscar ou aprofundar em momento nenhum. Dá até pra pensar que estamos vendo um especial de TV sobre o casal, as vezes. E as ocasionais tentativas de aproximação dos personagens acabam deixando tudo mais vago ainda, sem nem conseguir com que nos importemos com eles.

9 – Ray

Outro filme em que grande parte do mérito vai pra interpretação do ator principal. Que é o Jamie Foxx, no caso. A história é bacana também, mas só funciona porque estamos falando do Ray Charles. De outro jeito, o filme passaria fácil por um drama comum. Tipo, porque a vida inteira dele já é interessante/sofrida/heroica o suficiente e mesmo assim o filme se esforça pra dramatizar tudo ainda mais. Mas pelo menos, a importância da música da vida do cara ocupa um papel de destaque. Só que, até por querer englobar todos os momentos da existência de Ray, a importância dele pra música acaba não ficando clara o suficiente.

8 – Johnny e June (Walk the Line)

O Johnny e June infelizmente compartilha (E até maximiza) vários dos problemas do colocado anterior. Principalmente no que se refere a hollywodização excessiva dos fatos. Todas as passagens são retratadas de forma dramática demais, perfeita demais, o que faz com que mesmo sendo reais, elas percam a autenticidade. Mas porra, o Johnny Cash é foda demais mesmo assim. O que faz a gente perdoar esses erros menores e acompanhar a jornada dele sem maiores problemas. E as performances do Joaquin Phoenix como Man in Black e da Reese Witherspoon como June Carter ficaram surpreendentemente legais, já que eles mesmos cantaram as músicas.

7 – Walk Hard: The Dewey Cox Story

Não, não é uma biografia de verdade. Mas reúne os principais elementos do gênero de um jeito genial. Eu até recomendo que vocês vejam os outros filmes dessa lista e depois o Walk Hard, é uma grande forma de reavaliar a qualidade deles. Isso porque ele se apropria dos artifícios mais reutilizados nas biografias pra transformar tudo na ascensão e queda de Dewey Cox, o maior astro da música de todos os tempos. E em meio a essa linda história de superação, a gente percebe alguns exageros de outros filmes que nem eram notados anteriormente. Como os personagens se tratando por nomes completos no Johnny e June, a repetição de cenas idênticas pra mostrar a progressão no vício do Ray Charles e até o retratamento duvidoso da reclusão do Bob Dylan. E o filme ainda conta com algumas participações especiais sensacionais, como o Jack Black interpretando o Paul Mccartney. E outras nem tanto, como o Eddie Vedder meio deslocado interpretando ele mesmo no final.

6 – The Doors

Se nos filmes biográficos a atuação do protagonista costuma ser o destaque, o Val Kilmer conseguiu se destacar… Sendo o destaque. Entre os destaques. Enfim, ele se tornou o Jim Morrison. Não só na aparência, mas comparando uns vídeos da época com cenas do filme, dá pra perceber que ele captou a essência do vocalista dos Doors, por mais vago que isso soe. E claro, o foco no Morrison é inevitável, mas os outros membros da banda tem espaço também. Diferentemente do que acontece em vários filmes de bandas, eles são bem explorados. Dá pra ver claramente a preocupação do Ray Manzarek com a música e o dilema do Robby Krieger em seguir a ideologia sessentista e abraçar o sucesso.

E o melhor de tudo, o filme do Oliver Stone é um resumo perfeito da década de 60. O Jim Morrison começa com o objetivo de se expressar e acaba alcançando o sucesso, já que se encontra num período singular o suficiente pra que a sinceridade de suas letras proféticas à la William Blake sejam aceitas e compreendidas por muita gente. A partir daí, ele passa a compartilhar da visão coletiva de que essa nova forma de pensamento vai ser suficiente pra mudar o mundo. Só que a coisa toma outra dimensão quando o resto da banda vende os direitos de Light My Fire pra um comercial. E a desilusão aumenta quando ele (E toda uma geração) percebem que a cultura das drogas não vai abrir as portas da percepção no final das contas. Mas ao mesmo tempo, lá no fundo, ele sempre soube que tudo não passava de uma jornada de autodestruição, cujo o fim não podia ser diferente. É perfeito. Um tanto quanto desanimador, mas perfeito.

5 – Esta Terra é Minha Terra (Bound for Glory)

Eis um filme com um personagem real que não depende dele pra funcionar, é autentico, original, e enfim, eu já falei dele antes. Cliquem aqui e leião.

4 – Piaf – Um Hino ao Amor (La môme ou La vie en rose, sei lá)

O filme que acompanha a vida da Edith Piaf, talvez a maior (E menor) cantora francesa da história. E ele supera os outros dessa lista por alguns aspectos muito simples, mas essenciais. Primeiro, a narrativa não linear realmente funciona. Ela não é usada pra deixar o filme com um ar mais cult, ou tentar dar uma complexidade inexistente ao roteiro. Através dos saltos temporais, realmente conseguimos entender as motivações da personagem e porque ela chegou onde chegou. Além disso, as referências, personagens e situações da época são retratadas de forma natural, sem qualquer artifício forçado pra situar o espectador. Ou seja, se você sacou, sacou. Se não, a história segue em frente assim mesmo. E isso garante uma autenticidade muito maior a coisa toda.

Mas principalmente, é um filme que realmente dá a devida importância à música. Durante todo o tempo, a vida da Piaf gira em torno das suas canções, as ações dela se refletem no palco e vice-versa. E tudo isso, apesar de meio fragmentado demais, é retratado de forma muito coesa. E é claro, a Marion Cotillard tá espetacular no papel principal.

3 – Bird

Por alguma razão desconhecida, o Bird quase nunca é lembrado, apesar de ser um dos melhores filmes do Clint Eastwood. Ele mesmo um grande fã e pianista de jazz, o que provavelmente fez com que a história do Charlie Parker fosse contada com tanta atenção aos detalhes e sutilezas. Sério, esse filme consegue acertar em todas as áreas. A curta existência do Charlie Parker é retratada com a mesma intensidade da música dele, numa narrativa concentrada, fluída, sem muitos cortes ou efeitos desnecessários. Como o Eastwood sempre faz (E acerta), aliás. E a contextualização também é espetacular. Paralelamente à historia do Bird, a gente vai acompanhando a trajetória do jazz, ou do bebop, mais especificamente, subgênero mais rápido e baseado no improviso, que o Parker foi percursor. Desde os anos 40, quando ele começou a tocar em bares em Nova York, até ter um certo reconhecimento na costa oeste dos Estados Unidos e finalmente ser reconhecido na França, tocando em teatros pela Europa, pra só então passar a ser aclamado na sua terra natal. Tudo isso coincidindo com o surgimento dos beats e o nascimento da contracultura.

E de novo, a música ocupa, acertadamente, o papel central na trama. O Forest Whitaker encarna com perfeição toda o desespero de um Charlie Parker viciado em drogas, que vê sua vida pessoal, a qual ele nunca esteve em sintonia, ruir ao seu redor. Mas ao mesmo tempo, ele captura os momentos sublimes em que o saxofonista transcende tudo isso, momentaneamente achando o seu lugar no planeta, em cima do palco.

2 – Não Estou Lá (I’m Not There)

O maior mérito dessa biografia é que não é realmente uma biografia. É mais uma passeio por alguns fragmentos da vida e da mente do Bob Dylan. E essa ousadia já seria suficiente pra garantir a posição, mas o troço ainda funciona muito bem. Seis atores interpretam o artista durante o filme, com destaque pra, olha só, a Cate Blanchett. E essa foi a forma mais acertada de tentar retratar o “verdadeiro” Dylan na tela, já que cada um retrata um período, ou até diferentes facetas que ele adotava ao mesmo tempo. Tudo intercalado por passagens de músicas do cara, trechos de composições e transições meio oníricas. Sim, pode parecer complexo demais e muita gente pode não entender algumas coisas. Mas dá pra dizer exatamente isso do artista retratado também.

1 – Amadeus

Até agora, a qualidade de todos os filmes dessa lista foi subindo gradualmente. Mas o Amadeus se encontra a uma distância assustadora de todos eles. O nível de excelência alcançado pelo Milos Forman é inacreditável. Assim como a caracterização, que com toda a grandiosidade possível consegue capturar superficialidade da sociedade europeia do século XVIII. E o principal aqui são o roteiro e as atuações. Desde o mmomento em que o Salieri, grande compositor da época, é ofuscado pelo talento da criança mimada que é Mozart, e passa a odiar o rival, deus e o resto do mundo, a narrativa é de uma profundidade incrível. Como até já foi dito aqui no Bacon, o conflito dos dois é retratado a altura da obra do músico.

E enquanto a maioria dos filmes peca nesse quesito, o Amadeus consegue não um, mas dois personagens complexos e multifacetados. Ok, talvez essa comparação seja injusta, já que a música clássica ocupa um lugar muito superior, ou pelo menos, muito distante da música popular. E talvez a consciência dessa distância influencie na abordagem dos realizadores. Mas essa discussão que não deve chegar a lugar nenhum fica pra outro post.

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