Sobre as adaptações

Cinema terça-feira, 06 de março de 2012

Todo mundo sabe que Hollywood passa por uma crise de criatividade de mais ou menos uns 30 anos e vive adaptando livros, quadrinhos, desenhos e tudo mais o que puder ser adaptável para o formato do cinema. De certo modo eu acredito que não há problema nenhum adaptar, ou copiar, ou qualquer coisa que seja, as vezes é interessante você ver a ideia de alguém “artístico” sobre um personagem que você gosta em um livro, ou ver em movimentos os poderes de seu super herói predileto.

 Pergunta surpresa: Prefere qual?

O grande problema disso tudo é que adaptações são coisas polêmicas, que mexem com fãs de outros formatos que normalmente são mais exigentes do que a média do público do cinema, que geralmente é um público mais casual, uma vez que assistir um filme exige relativamente menos compromisso do que ler um livro, seguir uma hq/mangá ou jogar um vídeo-game, mesmo que as vezes aconteça de uma adaptação levar o espectador para a obra original. Eu mesmo fui agraciado com a linha Vertigo depois de assistir o filme Constantine nem vou falar que depois de ler Hellblazer, achei o filme um lixo. Imagino a cara de um fã de carteirinha de Homem Aranha, lá nos idos de 2000 e poucos quando saiu o primeiro filme, quando ele vê que o Aranha produz teia a partir do seu organismo, e não possui cartuchos de teia. Deve ter sido no mínimo estranho. Claro, isso são pequenos detalhes, porém para os fanboys mais chatos isso faz toda a diferença. O grande problema, acredito, não são os pequenos detalhes (A não ser que eles fodam com todos os pequenos detalhes), e sim certos aspectos de descaracterizam o personagem.

Continuando com o Homem Aranha e pegando o exemplo da Mary Jane. O que eu conheço dos quadrinhos, a Jane é uma mulher forte, sensual, com uma índole bastante marcante, enquanto a contraparte cinematográfica por outro lado me parece um pouco sem sal, desprovida de força, ou seja, é apenas uma garota em perigo. A própria personalidade do protagonista deixa a desejar, principalmente quando se trata do ácido humor do Cabeça de Teia durante as batalhas, uma das características marcantes do personagem nas hqs. Neste caso, a adaptação mexeu com aspectos centrais da obra, que se foca principalmente na personalidade dos personagens. Porém, neste sentido, foi uma adaptação, apenas isso, o cara pegou um conceito, um personagem existente e adaptou a seu modo, deu as cores que mais lhe interessaram.

 Alguém sabe me dizer se ficou bem adaptado? É sério.

Em contraparte, há o exemplo de 300, que foi quase que totalmente reproduzido das páginas, tendo inclusive cenas que reproduzem fielmente quadros da obra original. Blá, blá, blá, discussões técnicas à parte, o filme é do caralho, mas será que ele realmente acrescentou algo aos fãs, que são os mais “prejudicados” quando o assunto é a adaptação? Houve uma nova nuance nos personagens? Uma nova perspectiva? Ou apenas deu movimento a uma obra que em si já era muito boa?

Isto leva a uma discussão que é talvez a que tenha alguma importância: O que é ou não é uma boa adaptação? Pode ser fidelidade? Pode ser perspectivas diferentes, porém interessantes? Eu vou colocar aqui a minha ideia e depois debatemos nos comentário.

 Crianças, não façam isto em casa.

Bom, eu acredito que um bom modelo de adaptação não é aquele que segue canonicamente a obra, mas que respeita elementos que sejam basilares. O Batman do Nolan possui uma mescla de fidelidade com novos elementos, como por exemplo o batmóvel ou a própria roupa do herói. A grande jogada é que ele resgata uma coisa essencial, que é um pouco dos tons sombrios do personagem e da história, acabando com toda aquela coisa colorida e bizarra que saiu da cabeça do maluco do Tim Burton. Ao meu ver ele cria uma história “original” para o personagem, respeitando a essência dele mas inserindo novos elementos. Acredito que se ele apenas tivesse pegado uma história, por exemplo, a fantástica A Piada Mortal, e traduzido ela totalmente do quadrinho para o cinema, não seria mais interessante. Talvez o mesmo tanto, mas com certeza não mais. Claro que este tipo de adaptação acarreta em mais riscos, o Batman funcionou legal; porém o Aranha é um filme que se sustenta mais pelos aspectos técnicos e pela popularidade do seu protagonista do que por uma boa ideia. A mesma coisa no caso dos livros, apesar de eu achar que este deve seguir o guião principal e não interferir de maneira significativa no roteiro, os esquemas podem ser mudados, elementos suprimidos e tudo mais. Vamos exemplificar com Senhor dos Anéis, que possui uma adaptação/tradução que diria que chega a ser fiel, em certos aspectos. Bom, eu não vou lembrar de tudo que o Peter Jackson cortou ou inseriu, mas as duas contribuições mais marcantes para mim no filme foi minimizar o romance entre o Frodo e o Sam, no Duas Torres, e o corte do Tom Bombadil, no A Sociedade do Anel. A primeira foi ótima, ou você vai me falar que iria aguentar ver um filme do jeito que o Tolkien colocou no livro? Umas duzentas páginas de rasgação de seda hobbit? O cara sagazmente intercalou as cenas entre batalhas, hobbits legais com os ents, hobbits chatos indo queimar o anel, não mantendo nenhuma como a principal por muito tempo. A segunda pra mim foi relativamente boa, pois suprime uma parte importante da história, que é o primeiro perigo real que os pequeninos passam e tudo mais, mas imagine que saco seria aquele mala do Tom Bombadil ficar cantando “neneca, boneca” e o escambau? Enfim, claro que a adaptação teve problemas. A impressão que fica, por exemplo, no terceiro filme é que os fantasmas vencem a guerra de boa, minimizando todo o esforço humano(ide). Tem outras coisas tristes, como cortar o Expurgo do Condado. Mas enfim, não deixa de ser uma adaptação razoável.

Quero com isso dizer que adaptar pode ser uma coisa bastante interessante, pois você possui todo um novo plano, uma mídia diferente com possibilidades distintas daquelas encontradas em obras originais, como livros e hqs, que podem muito bem serem exploradas de maneira positiva, sem que para isso tenha de haver uma fidelidade caxias da obra adaptada. Por outro lado, deve-se evitar abusar demais da licença poética. Ninguém é obrigado a ficar escutando que o Watchman, o filme, é melhor do que o original por um diretorzinho pretensioso que acha que é melhor que o Alan Moore até porque não existe ninguém melhor que o Alan Moore, se ele tivesse escrito a Bíblia, perigava eu ser cristão.

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  • Dizer que Senhor dos Anéis foi uma adaptação “fiel” do jeito que foi dito é meio que uma ofensa à trilogia…de filmes. É a única adaptação, a meu ver, que é (muito) melhor que a obra original.

  • Ricardo G. Souza

    Batman não é bem adaptado, é bem produzido. 

  • Arthur Arantes Souza

    Ai é uma questão de gosto, eu discordo firmemente. No meu ponto de vista os livros são superiores. Um filme, por melhor que seja nunca será capaz de apresentar todas as nuances existentes num romance, principalmente um tão extenso quando o SdA.

  • 42

     Hermes Tessaro, O que???????????????? Acendam a fogueira, queimem o herege!!!

  • Arthur Arantes Souza

    Hahahahah, c viu que eu tentei ser polido, mas bem isso mesmo…

  • Ze Baude

    Tem um Oscar por ano pra roteiros adaptados de outras mídias, então algumas adaptações devem ficar boas…

    E não acho que os fãs não gostam da adaptação do seu respectivo material por que eles são mais exigentes e sim por que altera o original. É uma questão de fidelidade, se eu sou fã, eu gosto daquele jeito, mexeu, piorou.

    Acho que válido analisar a adaptação comparando com o original mas sem levar em consideração as mudanças. Sei que é difícil pra um fã, mas a única comparação válida é se a adaptação é pior ou melhor que o original. Diferente vai ser de qualquer jeito e as vezes (sempre, ou quase) a obra original não é perfeita, principalmente levando em consideração a mudança de mídia. Nem tudo se traduz bem nessa mudança. Nem sempre a mudança é bem vinda, mas as vezes é.

    Poderoso Chefão  – considerado por muitos um dos melhores filmes de todos os tempos – é adaptado de um livro. O filme é pior que o livro?

  • Ze Baude

    Ser extenso não é sinônimo de ser bom. Se fosse assim o melhor livro do mundo seria o de maior quantidade de páginas. Nuances e detalhes podem ser ótimos mas também podem ser enfadonhos. Note que não estou dizendo que esse é o caso, mas essa definição genérica não é motivo pra dizer que o livro é melhor que o filme.

  • Arthur Arantes Souza

    Eu não quis dizer que tamanho é documento, mas quanto maior o livro, mais difícil é colocar o que foi dito nas páginas e transferir para um filme. Jamais disse que quantidade é igual a qualidade

  • Arthur Arantes Souza

    Eu concordo, mas tem de ter em mente que eles acham ruim por alterar o original por serem exigentes, exigem fidelidade canônica.

    Sobre o Poderoso Chefão. Eu li o livro e vi o filme, inclusive li o livro antes pra poder comparar. O livro é muito mais completo, tem altas tramas paralelas, mas a história que importa está toda no filme. Porém tem de ver que quem adaptou o roteiro foi o próprio escritor, então é um exemplo bem diferente.

  • yuri

    Se eu não me engano, há várias abordagens diferentes sobre o homem-morcego. O filme do Tim Burton seguiu a linha de uma Hq, enquanto o do Nolan seguiu a linha do Batman do Frank Miller, certo?

    A história do Miller é (ao meu ver) melhor, o que dá chance de ser melhor produzida.

  • yuri

    O exemplo mais claro de um filme que ficou melhor que o livro é O Iluminado do Kubrick. Os monstros do Sthepen King não davam medo em ninguém

  • Arthur Arantes Souza

    Mas o livro é bom tb.

  • phresquin

    Cinema é uma mídia completamente diferente de qualquer outra. Exige adaptação para que uma história “funcione” nas telas. E cinema exige sim compromisso de quem assiste. Falta desse compromisso por parte do público (vai comprar meias aproveita e dá uma passadinha no cinema, bater papo) resulta em filmes ruins.

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