Run-D.M.C.

Música sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Eu gosto de coisas antigas: Velho oeste, máquinas de escrever, carros dos anos 50, músicas antigas e tal. Só que tudo isso vai mais ou menos até o final dos anos 70. Isso porquê eu acho os anos 80 uma cagada. Não, sério, uma cagada com cobertura de merda. O rock virou uma porcaria afrescalhada em sua maior parte, teve muitas baixas. Essa década matou a poderosa União Soviética. Nessa época o Brasil estava se afogando na inflação.

Não gosto dos anos 80.

Mas mesmo afirmando isso, eu reconheço que essa década não foi um fracasso tão grande assim. Houve coisas interessantes. Uma delas foi uma banda de hip hop. É isso aí maluco, HIP HOP.

Tá, agora esquece tudo que vem na tua cabeça quando cê lê “hip hop”. Por incrível que pareça, já houve um tempo em que isso não era sinônimo de caras cheios de dinheiro posando com carros modernos e caros e mulheres gostosas com a inteligência de uma pedra. Houve um tempo em que o hip hop era feito por gente realmente dos bairros pobres de Nova York, por exemplo. Eles não tinham um maldito Lamborghini, não eram fúteis, imagine você. Eram gente cantando sobre sua realidade, não poses ambulantes.

Pois bem. O Run-D.M.C. foi uma das bandas de hip hop que mais influenciaram no desenvolvimento do estilo. Em 1982, Joseph Simmons e Darryl McDaniels completaram o colégio na vizinhança de Hollis, no bairro do Queens, em Nova York, e começaram a aprender a usar toca-discos. Mais tarde outro integrante iria se juntar a eles, Jason Mizell (Mais conhecido como Jam-Master Jay). No ano seguinte, lançaram seu primeiro single, Sucker MCs, que fez algum sucesso. Depois dele vieram Jam Master Jay e Hard Times e finalmente o álbum homônimo de estréia.

O sucesso veio mesmo em 86. Quatro faixas do álbum Raising Hell foram parar no topo da Billboard Hot 100. Fizeram um cover de Walk This Way, do Aerosmith. O clipe passou na MTv até cansar. Dizem que isso fez as pessoas lembrarem que a banda do Steven Tyler ainda existia e, de quebra, mandou o Run-D.M.C. pro estrelato de vez.

Em 88 teve até um filme sobre a banda, com participação dos Beastie Boys inclusive. O Run-D.M.C. reapareceu na Billboard em 93, já perdendo o gás, eu diria, mas ainda no topo, com o single Down With The King. Eles tentaram mais umas coisas nos anos 90, mas realmente perdendo gradativamente a força.

Nos anos 2000 eles tiveram uma perda. Jam-Master Jay foi morto em outubro de 2002 e banda se aposentou. Os outros dois integrantes seguiram suas vidas, fazendo aparições em canais de música, jogos, enfim. Em 2004 foram condecorados pelo canal de música VH1.

Bem, é uma história mais ou menos curta, mas no espaço de tempo em que existiu, o Run-D.M.C. contribuiu pra música sim. Fizeram o que eu considero um dos últimos grandes e reconhecidos exemplos de criatividade de que se tem notícia. Apareceram em uma década cercada de merda e fizeram algo de qualidade. Ponto pra eles.

Esses caras foram os primeiros em várias coisas, inclusive: Foi o primeiro grupo de rap a ir até o primeiro lugar das paradas, a colocar um álbum no top 10 da parada pop. Primeiros do rap a aparecer na capa da Rolling Stone também, a ser nomeados pro Grammy, a ter um vídeo na Mtv e a assinar contratos com uma marca (Adidas). Aliás, estes dois últimos feitos ainda são copiados pela gente que faz rap hoje.

 COÉ MANO?

Um dos motivos que me fazem detestar o atual hip hop é a falta de criatividade. Geralmente todos os artistas que fazem rap e hip hop hoje e são reconhecidos mundialmente seguem um quase padrão:

Características Gerais: Uma porcaria melosa acerca de algumas gostosas, carros e grana. Grana pra cacete. Grana saindo pelo ladrão. Eventualmente drogas e artigos ilícitos.

Imagem: Padrão, pra mostrar a presença ostensiva da grana e da capacidade de atrair as gostosas. Com a grana, claro.

Temática: Relações amorosas fugazes, indo até sexo casual e pá. Drogas geralmente não mencionadas, mas dá pra notar a Maria Joana (Né, Snoop Dog?) nos clips. E a grana, eu já falei na grana? Enfim.

NINGUÉM fala mais de onde veio, dos problemas da vida, da realidade nas vizinhanças pobres, nada. Eram histórias que se contavam, era o que eles tinham pra falar. Hoje é “yo, mothafucka, ya gonna fuck, gonna smoke s’me pot n’ gonna get around with my fuckin’ car”.

Pra vocês entenderem, comparem trechos de duas músicas:

Vagabas serão vagabas enquanto eu amasso elas no carro
Tá ficando, tá ficando, tá ficando pesado (3x)

Trecho de A Bitch I Knew, Snoop Dogg.

Tempos difíceis se espalhando que nem gripe
cuidado garoto, não deixa isso te pegar
p-p-p-preços subindo
não deixa teu bolso descer
Quando você tem pouco dinheiro
Você está preso no chão
Se vire, se prepare, mantenha seus olhos no relógio
e esteja preparado pro choque

Trecho de Hard Times, Run-D.M.C.

A diferença é…fascinante, como diria o Sr. Spock. Curiosamente, foram eles próprios do DMC que definiram muito do que é esse hip hop tosco de hoje.

Sobre o trecho do DMC, é engraçado como lembra a situação do Brasil naquela década. Enfim.

Cês já sacaram né. Até o hip hop se estragou com a “evolução” e a modernidade. Felizmente, não por completo. Tem sempre uma resistência. Sempre tem gente que nota quando o mundo se transforma gradativamente em uma cagada, do ponto vista cultural, e não entra nessa. Por isso, respeito aqueles que ainda fazem rap e hip hop falando sobre coisas da própria realidade, coisas que não são fúteis e que realmente pretendem passar algo com a música que fazem. Eu não ouço, por isso não posso citar nenhum grupo com exatidão, mas sei que existem.

Vou contar uma história procês: Uma vez eu fui deixar minha garota em casa, à noite. Quando voltei, ouvi uma música vindo de uma casa lá na outra quadra. Era um hip-hop, mas eu parei pra prestar atenção na letra. O cara falava da vida dele, da realidade dura, de uma maneira ainda mais contundente que o Run-D.M.C. Não sei que grupo era, mas parecia ter sotaque paulista. Quem quer que fosse, estava fazendo algo criativo. Algo que faz sentido e é… Real. Só essa palavra que eu tenho. Não era sobre pose, nem bens, nem todas as vagabas que o dinheiro pode comprar. Não era trivial nem medíocre, felizmente.

Quem tenta fazer algo verdadeiro deve ser respeitado.

Enfim.

Adendo: A revista Rolling Stone coloca o Run-D.M.C. em quadragésimo oitavo lugar na lista de maiores artistas musicais de todos os tempos. Em 4 de abril de 2004, o rapper Eminem os introduziu ao Hall da Fama do Rock and Roll. Com isso, se tornou o segundo grupo de hip hop a estar lá, depois de Grandmaster Flash and The Curious Five.

Adendo, de novo: Coé mano, cê num viu como a gente do Bacon é conectado com as rede social mano? Tem Orkut, Twitter, Facebook e inté Last.fm. Dá uma força pra nóis, tá ligado mano?

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  • muitos grupos de raps de periferia contagem a sua realidade.

    Racionais MC’s é um exemplo disso nos primeiros albums.

    Infelizmente no cenário mundial, o que chega pra nós é o tal do ‘Gangstar’, tipo 50Cent.

  • Willian

    Um exemplo dessa “evolução” no brasil é o funk.
    Antes as musicas falavam coisas q aconteciam na favela, tinham letras com conteudo, hoje em dia funk é sinonimo de putaria.

  • Raphael Luis

    Existe muita coisa boa no cenário músical dos anos 80, 90; Uns exemplos: Rage Against The Machine, SNJ, RZO, Trilha Sonóra do Gueto, Raimundos, Apocalipse 16, Criolo(2000 Pra frente), Sabotage, Cólera, Dead Kennedys, Guns N’ Roses, Iron Maiden, Metallica, Mamonas Assassinas, Planet Hemp, Ultraje à Rigor, entre outros, que por sinal, existem muitos.

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