Pra que servem os clichês?

Cinema quarta-feira, 27 de junho de 2012

Os humanos são seres de hábitos e podemos dizer que são estes hábitos que praticamente definem quem somos, o que fazemos, as pessoas com quem nos relacionamos. Todos temos um estilo de escrita, um tipo de música preferida e eu sei que o de vocês é Justin Biba, um programa, um filme do qual gostamos mais. Nosso cotidiano se repete em um looping infinito que nos deixa mais preso ao nosso estilo do que um nerd na frente de um filme pornô (Tudo bem que por 10 segundos). Nossa vida é definida por uma base invariáveis de ações pré-definidas pelo nosso convívio, cultura, meio et cetara. Revivemos nossos próprios clichês todos os dias. E é justamente ai que eu quero chegar: Para quê servem os clichês?

É comum vermos em resenhas e críticas sobre filmes ou livros ou peças o constante uso de expressões pejorativas terminarem com o uso desta palavra. Nestes contextos, “clichê” significa a repetição de elementos consagrados em outras obras, ou temporalmente por um estilo, ou diretor, ou escritor, pela mídia ou pelo mendigo da esquina. Existem clássicos exemplos, como a dama indefesa dos romances de cavalaria, o soldado fodão dos filmes de guerra americanos, começar um discurso de casamento com “the Webster dictionary defines…”, dentre outros. Em um primeiro momento eles tornam enfadonha uma obra, deixando bem claro a falta de inspiração original no criador do texto. Em segundo eles mostram o quão profundo pode ir uma influência estética.

Absorvemos tudo ao nosso redor e refletimos incessantemente traços de nossa cultura e de todas sub-culturas experienciadas por nós. A absorção se traduz primariamente em nossos gostos e maneiras, os quais refletimos em um nível superior no nosso gênio criativo. Tudo o que fazemos é decorrente desta nossa convivência cultural, mesmo que façamos coisas insignificantes, como é o caso do indivíduo médio, que não produz nenhuma realização que seja relevante culturalmente em um nível macro, o que não deixa de ter alguma importância. Isto quer dizer que toda criação, por mais atemporal que seja, por mais universal, é terrivelmente datada, em decorrência da influência cultural e a mutabilidade da mesma. Assim como as criações, existem outros fatores que são datados, porém são marcas culturais fortíssimas: Chamamos de representações sociais. Não irei entrar em detalhes extensos, porque provavelmente todos parariam de ler aqui se é que já não pararam. Representações sociais são marcas deixadas por um traço cultural extremamente influente no nosso cotidiano; eventualmente eles se tornam os famosos ditados populares, tipo, “quem avisa amigo é”. Poderíamos dizer que são os clichês da vida real.

No cinema não seria diferente, uma vez que toda forma de arte é influenciada culturalmente, devido ao simples fato de ser uma obra humana, e como eu disse anteriormente, tudo é refletido. Porém, além disso o cinema cria sua própria meta-cultura. Eu chamaria de estilos, escolas, ou qualquer coisa que queiram chamar, mas certamente existem fórmulas semi-prontas de como se criar um trabalho que seguem uma certa tendência. Realismo, impressionismo, terror, sci-fi, comédias românticas. Existem certas manifestações desta “cultura cinematográfica” que se engessam mais do que as outras. Dai aparecem os clichês, que são fórmulas que aparentemente são de sucesso, mas mais do que isso, são manifestações “físicas” da influência de uma certa cultura. São exatamente como as representações sociais, que como eu não disse antes, também dizem muito a respeito do modus operandi do gênio humano médio que normalmente lança mão de pensamentos pré-definidos em detrimento de construir um esquema de reflexão pessoal. Por isso os clichês são considerados negativos, pois não fazem parte de um real processo de criação, uma vez que são meras repetições.

Então, dentro desta perspectiva, os clichês não são apenas aquele recurso utilizado por diretores e roteiristas preguiçosos, apesar de o serem. São também marcas claras manifestadas da história do cinema, do modo de se fazer cinema. Acredito que se uma pessoa deseja conhecer a criação cinematográfica a fundo e necessita buscar na origem e no uso dos grandes clichê a fonte para entender como, neste processo, certas tradições se enraizaram e outras não.

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  • Nossa. Uma bela justificativa para os clichês, apesar de mantê-los, ainda, como repetições que podem ou não tornarem-se enfadonhas.

    Usar um clichê é uma aposta, tal qual é a criação de algo novo. Pode dar muitíssimo certo e agradar ao grande público, ou pode cair na infame vala comum e relegar o trabalho a mediocridade.

    Enfim, clichês não são condenáveis, mas nunca vão levar a nada diferente. É isso?

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