O salvador

Contos quarta-feira, 20 de março de 2013

Tiago está sentado em frente ao computador há duas horas agora. Não faz nada a não ser atualizar o Facebook e dar uma olhada rápida no Twitter. Ele sabe que devia estar fazendo alguma coisa de útil agora, mas não consegue, simplesmente porque está entediado demais para se concentrar em algo que seja útil.

– Vou ligar para alguém e sair para beber – ele pensa.

Após alguns minutos ligando, ele descobre que todos os seus amigos estão ocupados demais para beber e que ele é o único disposto a deixar tudo pra lá e tomar um bom trago.

– Que se dane, reflete rapidamente enquanto pega um casaco e sai de casa.

Está um pouco chuvoso e as pessoas se amontoam embaixo das marquises. Seu casaco é grosso e ele tem coragem de correr pelas poças de água que se formam na irregularidade da rua. O lusco-fusco que tem esse horário do dia dá cores mais do que adequadas para este momento de tédio que Tiago está passando.

Ele avista uma birosca com cara de suja e resolve que é ali que irá beber até se cansar, ou seu dinheiro acabar, o que vier primeiro. Ao balcão estão sentados dois senhores, que na verdade não devem ser tão senhores assim. Provavelmente estão na casa dos seus quarenta e cinco, cinquenta anos, mas como grande parte desses devem ter sido passeando pelos bares, a severidade do tempo parece ter pego pesado com eles. O barman, se é que dá para chamar assim, tem um aspecto típico dessas figuras que tomam conta de bares assim: Barba meio branca, por fazer, mas que não escondem a vermelhidão das bochechas causadas por anos de administração de botequins, cabelo que só circula os lados da cabeça, deixando o topo do couro cabeludo à mostra.

Tiago se senta entre os dois bêbado e pede uma cerveja, – Brahma, por favor, ele diz.

-Tá na mão. Responde o homem do balcão.

– O movimento tá fraco hoje, é?

– É. A chuva não colabora muito.

– Imagino. É difícil dormir na rua depois de tomar um porre enquanto se está chovendo.

Após um momento de risada o senhor responde:

– Realmente. A vida de bebedeira não é fácil para quem cai. Mas fazer o quê? Enquanto tiver gente disposta a dormir nas calçadas existem outras dispostas a realizar este desejo.

Um dos bêbados parece semi-acordado e ouvindo que se passa:

– Mas é isso mesmo, Gilsão – o nome do homem do balcão -, se não fosse a gente, como você iria alimentar sua família?

– Não é bem assim também. Não alimento meus filhos com a sua desgraça.

– E quem disse que é desgraça? Desgraça é quando eu tenho que aguentar tudo sem um trago. Enquanto eu estou bêbado o resto é que se foda.

– Realmente – Tiago interfere novamente na conversa. A desgraça de quem bebe é não ter o que beber. Você é o salvador da pátria, Gilsão, imagina para onde eu iria se você não estivesse com o bar aberto?

– Nunca tinha pensando por este lado… – Fala o salvador servindo um cachaça para si próprio e para os outros dois.

– Então vamos brindar a mim.

Saúde!

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