O mal encarnado em um jogo

Nerd-O-Matic quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Alguma vez você já se perguntou se é do tipo de jogador que gosta de sofrer?

Se nunca se perguntou, acabei de perguntar por você. E se você não sabe a resposta, eu respondo:

SIM, você gosta de sofrer.

Pra começar, você lê essa coluna toda semana, onde invariavelmente você é xingado e ofendido por mim. Sério, eu xingo os leitores semanalmente; pode conferir nos arquivos da Nerd-o-matic. Além do mais, meus textos sempre são obtusos, difíceis e voltados para um público muito específico de hardcore gamers. E, pra piorar, você freqüenta um site com layout feito pelo Théo.

 Sim, você gosta de sofrer.

Mas o que interessa mesmo é que eu também descobri que sou um jogador que gosta de sofrer. E como você gosta de sofrer, então está preparado para o jogo que vou discutir hoje. Graças à Romance of the Three Kingdoms XI, eu fiz as pazes com o meu masoquismo:

 Contemple a face de Baphomet

Cê leu direito o nome do jogo? Já tá na seqüência número ÔNZIMA, cara. Onze jogos de puro sadismo dos programadores e uma relação com o jogo baseada em frustração e várias momentos YOU LOSE. Eu sempre me defini como um jogador hardcore, com um grande histórico de jogos jogados, nos mais diferentes consoles. No que toca aos jogos de estratégia, então, sempre achei que eu possuía uma boa habilidade, refinada ao longo de centenas de horas com Civilization, Age of Empires, Starcraft, Warcraft, Command and Conquer e Warhammer. Mas depois de passar algumas horas com o Romance XI eu me recolho à minha insignificância novamente, e percebo que ainda existem jogos que podem fazer eu me sentir como vocês: NOOB.

 Clique o mouse para começar… O SEU MARTÍRIO NA TERRA!

Pra começar, eu consegui perder NO TUTORIAL desse jogo. E não foi tipo “ah, não saquei qual era o comando, errei o lance lá e fui derrotado no cenário. Na próxima eu acerto.” Não, eu perdi várias vezes seguidas na porra do tutorial. Alguns momentos eram tão tensos que eu berrava pra tela do lap “Caralho, jogo do CARALHO! COMO eu vou aprender a jogar se você fica derrotando meus exércitos toda hora, seu PUTO?!” Porra, eu nunca vi um tutorial tão inclemente como o desse jogo. Precisava de um tutorial pra aprender a jogar o tutorial.

E percebam: não é que o tutorial seja ruim, ele até ensina tudo direito. É que a porra do jogo é complicada mesmo, com um monte de detalhes pra prestar atenção. Existe um termo em inglês para o que você precisa fazer no jogo: micro-managing.

 Encare menus sobrepondo-se uns aos outros para executar tarefas simples como… fazer um exército de arqueiros.

“Micro-manage” significa você vai precisar gerenciar e tomar conta de absolutamente TUDO na sua cidade e nos seus exércitos. Como o jogo é ambientado na China Imperial, você decide até mesmo com quem os oficiais dos seus exércitos vão casar, porque isso tem implicações políticas que mudam as habilidades do seu oficial e as relações do seu clã com os outros clãs do cenário. É uma puta coisa lôca o nível de profundidade desse jogo. Faz uma semana que eu estou jogando e eu ainda estou descobrindo menus e tabelinhas novas ao clicar em coisas que eu não tinha clicado antes.

 Podia ser pior. Olha a cara do primeiro Romance, ainda no Nintendo 8 bits

Mas tudo bem, consegui concluir o Tutorial o que, acreditem ou não, foi uma vitória em si. O jogo sabe que o Tutorial é um saco, porque ele te premia com oficiais novos depois que você consegue terminar todas as fases do Tutorial. Aí fui jogar o jogo de verdade e só me fodi. SÓ ME FODI. Eu não consigo terminar o cacete do primeiro cenário do jogo. Eu mal consigo evitar ser detonado pelos meus vizinhos mais próximos que, segundo o jogo, NEM SÃO MEUS INIMIGOS. Dá pra acreditar?

 Nego te ferra de tudo quanto é lado aqui. E dá-lhe menu.

Acompanhem minha cadeia de raciocínio gamer e, por favor, me digam onde eu estou errando:

Estou eu lá, cuidando da minha cidade imperial, desenvolvendo estruturas básicas nos arredores da cidade pra gerar grana e comida, como se faz em qualquer RTS, certo? Bom, do nada os caras que ficam em volta da minha cidade vêm, invadem minha terra, queimam minhas fazendas e começam a atacar minha cidade. Perdi:

– beleza, vou começar de novo e investir em mais exércitos desde o início dessa vez.

Aí eu, assobiando e cantando, vou lá e gerencio melhor os meus recursos dessa vez, criando exércitos pra defesa da cidade, com um bando de arqueiros, enquanto vou fazendo o desenvolvimentos daquelas estruturas básicas que mal pagam o exército e tals. Aí os putos vêm com o DOBRO de exércitos, detonam meus arqueiros e tomam a cidade. Perdi:

– BELEZA. Vou criar estruturas de defesa dessa vez, além dos exércitos.

Aí eu vendo comida pra ter mais dinheiro, deixo as estruturas meio de lado, despacho uns oficiais pra ganhar tempo com o inimigo e consigo construir três torres de arqueiros e cinco estruturas de contenção, pra impedir a chegada dos inimigos até a cidade. Dessa vez os calhordas vêm com aquelas paradas de atacar muros, e com MAIS exércitos. Detonam TUDO, tacam fogo nos meus cavaleiros, enrabam os arqueiros, tomam a cidade e ainda têm a moral de destruir o exército de OUTRO clã inimigo que tava invadindo meu terreno pelo outro lado. Perdi:

– Susse. Dessa vez vou ser mais agressivo; ao invés de me concentrar em defender, vou invadir outra cidade pra aumentar minha estrutura.

Aí vou lá, faço exércitos, tomo a outra cidade. Mas como pra fazer isso eu dividi minhas forças, agora os putos vão atacar a cidade que tá mais fraca. Perco a cidade recém adquirida, eles incorporam meus oficiais derrotados e usam as forças remanescentes pra atacar minha cidade principal. Perco mais rápido ainda do que nas outras vezes. Perdi:

– CARALHOVSFJOGOFDPCHERAMEUOVOESQUERDOVOUMATAR

Faço alianças, vendo comida pra financiar a guerra, descolo mais oficiais pra conseguir tomar mais ações por turno. Desenvolvo exércitos especializados para contra-atacar unidades específicas do inimigo. Cerco a cidade com torres arqueiras. Posiciono fazendas e mercados atrás da cidade, pra evitar a invasão delas pelos vizinhos. Faço dois ataques preemptivos na cidade do vizinho mais próximo, pra minar suas forças e desestimular o ataque. Espalho bolas de fogo nas entradas principais do terreno, pra minar exércitos que porventura entrem no meu território.

Aí meus aliados me traem, dois oficiais debandam e um grupo de saqueadores randômicos aparece na parte DE TRÁS da cidade e queima minhas fazendas e minhas barracks, me impedindo de recrutar mais exércitos. Um dos aliados que me traíram aproveita que eu perdi um monte de soldados combatendo os saqueadores, e toma minha cidade. Perdi:

– Satanás existe, e ele é um jogo de estratégia.

Sério, meu: esse jogo é DO MAL. De alguma forma ele LÊ SUA MENTE e prepara todos os outros clãs desde o primeiro turno pra foder sua estratégia, seja qual for. Estou supondo que a única maneira de ganhar é vendendo um pedaço da sua alma. E isso eu não vou fazer, porque eu já vendi minha alma inteira pra conseguir terminar Devil May Cry 3.

Enfim, se você gosta de sofrer, taí uma ótima recomendação. Depois que você vender sua alma, me diga qual foi a estratégia pra passar da primeira fase, ok? Agora vou jogar Viva Piñata.

 Jogo burro é o que há, principalmente depois de se jogar contra SATÃ

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