O Apanhador no Campo de Centeio (J.D. Salinger)

Livros segunda-feira, 27 de agosto de 2012

O Apanhador no Campo de Centeio é um daqueles livros conhecidos pela maioria das pessoas, mesmo que elas nunca tenham segurado um exemplar nas mãos. A diferença é que a fama desta obra não se dá apenas por sua genialidade, mas por razões um tanto quanto… curiosas. Segundo o assassino de John Lennon – aquele músico que fez algum sucesso com sua bandinha – o livro serviu como inspiração para o crime e sua tentativa de suicídio. O mesmo foi dito por aquele que tentou matar Reagan (Ex-presidente norte-americano, para os que faltaram as aulas de história).

Com alguma sorte, depois de ler O Apanhador, não apresentei uma súbita vontade de matar o Julian Casablancas ou o Alex Turner, mas pude entender porquê o livro gerou tanto impacto, sendo considerado um ícone de sua geração. Escrita por J.D. Salinger e publicada em uma época de prosperidade nos Estados Unidos, endereçada a uma sociedade norteada por valores conformistas, a obra foi criticada negativamente por uma parcela da população, por se utilizar de vocabulário chulo e tratar abertamente de sexo na juventude. Hoje, para nós, pode não parecer grande coisa, mas nos anos 50, aquilo era novidade.

Holden Caulfield, a personagem principal, constrói sua narrativa diretamente de uma clínica mental, na qual encontra-se internado. O garoto, de dezesseis anos, faz parte de uma família cheia de dinheiro de Nova Iorque, mas não corresponde aos padrões sociais que esperam-se dele. Expulso de diversas escolas, a história conta sua volta para casa, após ser excluído da última delas.

O jovem tem nojo da vida adulta, por ser extremamente crítico e considerar todos a sua volta hipócritas, entediantes e falsos (“Phony”). Este termo é repetido exaustivamente ao longo do livro, e refere-se a pessoas superficiais, que “se fazem”, procurando seguir regras sociais impostas sutilmente, seja no modo de falar ou se vestir, como ainda notamos nos dias de hoje (Exemplo: Caras na night com camisa da Abercrombie e um copo de energético e vodka na mão). Assim, por acreditar ser superior aos outros, ele apresenta muita dificuldade em comunicar-se com o mundo que acontece fora de seus pensamentos, alienando-se do mesmo como forma de auto-proteção, tornando-se uma pessoa sozinha. Mesmo ao tentar dar início a alguns relacionamentos, sua incapacidade de assumir mudanças que um dia serão inevitáveis impede o seguimento de todos eles. Fechado em sua concha, Holden não consegue alcançar intimidade física ou emocional com ninguém.

 Holden no auge de sua habilidade comunicativa.

Sua tentativa de evitar o próprio amadurecimento e entrada na vida adulta pode ser percebida em várias passagens do livro, como, por exemplo, pelo amor incondicional por sua irmãzinha ou como quando ele afirma que a melhor coisa sobre os museus é que eles continuam sempre iguais. No fundo, apesar de não admitir, o garoto tem medo de crescer, por não entender os outros e por enxergar em si mesmo o que critica nos demais. Assim, coloca a infância em um pedestal, ao considerá-la o ápice da inocência e honestidade. Talvez a cena mais famosa do livro seja aquela em que afirma que gostaria de ser o apanhador no campo de centeio, apanhando as crianças que estão quase caindo do penhasco, ou seja, perdendo sua inocência e ingressando no mundo adulto.

 Holden salvando as criancinhas e tal.

Recentemente, a autora da célebre série Gossip Girl, Cecily Von Ziegesar, afirmou não gostar muito de livros sentimentais ou que tentam ensinar algo. [Nota do editor: Isso explica muito sobre a “qualidade” da série.] Se você é do tipo da autora, e o que gosta mesmo é de tramas estilo novela das 8, O Apanhador no Campo de Centeio provavelmente não será do seu agrado. O número de personagens é pequeno e não há grandes reviravoltas ou acontecimentos. O livro aproxima-se de um romance psicológico (Clarice Lispector, Virginia Woolf, Dostoievski, Machado de Assis, etc), um dos gêneros preferidos de muitos, como eu aqui que vos escrevo. Apesar de quase não existir aquela tensão “o que vai acontecer agora?”, a história prende por outras razões, ao aproximar-se do leitor e captar sua atenção através da intimidade construída na narrativa. Holden é quase um amigo, e você quer saber se vai ficar tudo bem com ele.

The Catcher in the Rye foi um símbolo para os jovens dos anos 50 e 60 (E seus movimentos de contracultura), por sentirem-se pressionados a amadurecer, viver suas vidas de acordo com as regras impostas e se conformarem com um modelo cultural que restringia suas personalidades. Holden é exagerado em seus pensamentos e atitudes, por não ser nada menos, nada mais, do que uma criança assustada com o futuro. Entretanto, seus medos não são irracionais. O Apanhador no Campo de Centeio não nos dá as respostas para as dúvidas daqueles prestes a passar para a fase adulta, mas marca com firmeza o ponto de interrogação que vem acompanhando os jovens ao longo de tantas gerações. Nessa confusão compartilhada, muitos de nós já nos sentimos como Holden Caulfield um dia – ou em todos.

O Apanhador no Campo de Centeio


The Catcher in The Rye
Ano de Edição: 2004
Autor: J.D. Salinger
Número de Páginas: 208
Editora: Editora do Autor

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  • Felipe

    Realmente, é essa intimidade que nasce entre o leitor e o Holden que deixa o livro interessante. O desconforto do personagem é claro e sincero, o que te aproxima, e o que faz você tratá-lo como um amigo. Ótimo texto.

  • Regina

    Parabéns , muito bem escrito!

  • Um clássico, inspirado pelos escritos de John Fante (Se não leu, leia).

  • Fernando

    É engraçado como cada um tem uma experiência diferente com a mesma coisa, eu não vi nada demais nesse livro, mas minha irmã caçula leu e agora recomenda até pros mendigos na rua. Vai ver sou eu quem não sei apreciar os clássicos. Achei massa essa resenha, fico feliz com mais gente pra falar sobre livros no Bacon.

  • Sandra

    Muito bom!!!! Fiquei com vontade de ler o tal livro. Muito bem escrito e amarrado, meus parabéns. Bjks, Sandra Amariggi

  • Luana

    Adorei! mas vou ter que discordar um pouco… apanhador no campo de centei é meu livro preferido desde que eu li ( acho ate que eu coloquei ele num certo altar e sou extremamente relutante em deixar qualquer outro, por mais brilhante que seja, tomar o seu lugar). Mesmo assim tenho que admitir que adoro gossip girl – e acho Machado de Assis um saco. O estilo do livro, sem essas reviravoltas todas, me lembra um tanto mais um filme da Sophia Coppola, daqueles que nada acontece até que o filme termina e você não consegue não achar brilhante, mesmo sem talvez conseguir explicar o por quê!

  • Marina

    Muito bom! Parabéns pelo texto. Adorei como apresentou os aspectos mais importantes do livro de forma resumida e inteligente! Abraços, Marina Azevedo.

  • bibis

    uaaaau!!!!!!!!!!!!!

  • Poxa, agora me bateu uma saudade do Clube sem nome do Bacon,

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