Letras de músicas

Música sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Tarde, noite passada, um sujeito saiu pra uma caminhada na beira do rio, perto de casa. Ele foi surpreendido. Não conseguiu acreditar nos próprios olhos e jura que nunca mais vai sair de casa: Ele viu um homem andando sobre a água, vindo bem em sua direção, chamando seu nome. “Não tenha medo”, disse. Desespero. Os pés começaram a correr e com a cabeça se agitando, aquele que antes só passeava, gritou “Eu não quero ir, eu não quero ir!”.

Bem, esses gritos sendo interpretados por John Fogerty impressionam, aliás. Essa pequena estória é a letra de Walking on The Water, última música do primeiro álbum do Creedence Clearwater Revival. Dos mais de quatro minutos da música, três são instrumentais. Mas eu prefiro o primeiro minuto, cantado. Em parte por causa da voz de John Fogerty e em (Grande) parte pela letra.

Faz-se uma poesia, ou uma historieta, e ela é embalada por música. Assim nasce uma canção. Parece simples, mas, como todos nós bem sabemos, dentro disso se pode criar muitas, muitas coisas. Já houve uma época em que freqüentemente os artistas cantavam as músicas feitas por compositores profissionais. Logo, depois da metade do século passado, se popularizou um fenômeno, onde o próprio cantor ou grupo musical escreve o que vai cantar.

Uma das músicas mais populares de Frank Sinatra, Theme From New York (A “New York, New York”) foi composta por dois desconhecidos entre nós, os senhores Fred Ebb e John Kander. No meio musical onde estava Sinatra, isso era absolutamente normal, e duvido que ele tenha composto algo alguma vez.

Longe de Nova York, no Sul dos Estados Unidos estavam os “caipiras”. Os nascidos em estados menos populares, como Arkansas, Virginia ou Texas, os que trabalhavam nos campos de algodão ou nas lavouras. Essa gente sempre teve ligação com a música. Vou dedicar especial atenção à eles nesse texto.

A contribuição dos sulistas foi muito importante, por exemplo, para que o rock seja o que é agora. O que formou esse estilo musical atual foi uma mistura que se homogeneizou e ganhou consistência durante mais de 60 anos: Blues e gospel, folk, country, swing, boogie-woogie, rhythm & blues e mais alguns. A música que você ouve aí sentado tem história, mesmo que seja black metal finlandês e que você se ache um troll e que sua música não tem nada à ver com, sei lá, Johnny Cash (Que você deve odiar, aliás). Mas ele esteve na vanguarda daquilo que permitiu que o que você ouve aí seja isso.

 “In them old cotton fields back home…”

Mas então, o country. A quantidade de letras criativas aqui é grande. Criativas e longas: Muitas são verdadeiros contos. Ghost Riders In The Sky é uma das minhas preferidas. Foi escrita por Stan Jones em 1948 e ficou muito conhecida na voz de Cash. Diz, em um dos últimos versos:

Enquanto os cavaleiros galoparam sobre ele, ouviu-se uma chamada pelo seu nome
‘Se você quiser conservar sua alma do inferno de cavalgar conosco,
Então hoje, vaqueiro, mude suas maneiras de ser, ou conosco você montará,
Tentando coletar o rebanho do diabo, através destes céus infinitos’

Essa música foi a inspiração pro personagem da Marvel Ghost Rider. Segundo seu autor, a estória da música lhe foi contada por um cowboy quando tinha 12 anos de idade. É uma das canções clássicas do country.

Volto pro começo do texto, pro Creedence. As letras da banda refletem a vida no sul, como em Cotton Fields, que fala dos campos de algodão “lá em Louisiana, mais ou menos a uma milha de Texarkana”; ou então conta estórias interessantes, como a que abre esse texto, ou músicas como It Came Out Of The Sky, onde um misterioso objeto vem do céu e pousa em uma fazenda.

 Caipiras

Existem muitas outras letras de músicas que eu posso citar, em uma porrada de gêneros musicais, mas isso vocês podem descobrir sozinhos. Como se ouve muita música em inglês por aqui, e poucos brasileiros entendem inglês, muitos têm o péssimo costume de nem querer saber o que dizem as letras. Têm preguiça, nem se importam, ou os dois. Deixem de vagabundagem e CORRAM ATRÁS seus putos. Se apenas ignorarem que alguém está tentando dizer algo ali, poderão estar ignorando estórias interessantes. Poderão estar perdendo algo valioso que poderia inclusive te ajudar em algum ponto da vida. Já passei por isso. Já ouvi em músicas aquilo que um amigo deveria ter me dito. Por isso sempre me esforcei pra saber o que está contido naquilo que eu ouço, e já traduzi até russo e alemão pra isso.

Ah, uma ressalva: Esse texto é pra quem ouve música que preste. Tem muita letra de merda por aí, sempre teve, e a coisa não mudou nessa pobreza musical atual.

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  • Climber

    caraca…Um dos melhores textos do Bacon. Se não for O melhor.

    Muito legal!

  • Climber

    Só um “A dentro”.
    A música caipira brasileira, certa vez eu li, é como fiofó de galinha: não dá pra saber se sairá um ovo (uma coisa boa) ou titica.

    Vide “Chico Mineiro” e “Moreninha linda”, ambas de Tonico e Tinoco, sendo uma emocionante e a outra um arrastapé bobinho

  • (Ghost) Riders é incrível, mesmo. Adoro ela, principalmente na versão do Outlaws, já ouviu?

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