Filmes Dublados e a preguiça de ler

Cinema segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Na minha última ida aos cinemas percebi uma coisa preocupantemente chata: TODOS os filmes em cartaz eram dublados. E investigando o fato, constatei que isso está se tornando a regra: Mais cópias dubladas do que legendadas nas salas de cinema Brasil afora. A simples preguiça de ler dos “usuários” dos cinemas predomina. Preferem a comodidade de assistir a um filme que não os obrigue a praticar o que não aprenderam na alfabetização. Em geral eu nunca encontrei alguém que tivesse o hábito da leitura e reclamasse de legendas. Infelizmente, são estes espectadores medíocres e preguiçosos que estão sendo levados em consideração pelas distribuidoras. Nunca fui muito de querer impor meus pontos de vista (Com exceção aos meus gostos, mas isso é outra história) e como sempre existe quem discorde, vou responder todas a suas críticas antes que vocês as façam. Então vamos lá:

 Vai dizer que você sabia que todas essas vozes eram desse cara?

As legendas “atrapalham” o filme.

Tá bom. Então ouvir uma voz diferente da dos atores e completamente dessincronizada com os movimentos labiais dos atores não incomoda? Mesmo? Acho mais fácil ver o Stallone matando 600 pessoas com um único tiro do que ouvi-lo soltando um “Seu filho da mãe!”, um “Ora, bolas!” ou mesmo um “Mermão” carioquíssimo enquanto pratica seu genocídio particular. Quando o Bill Murray abre a boca e fala com a voz de Wesley Snipes, Will Smith, Kevin Spacey, Samuel L. Jackson, Danny Glover, Alfred Molina, Ed Harris e Denzel Washington (Todos dublados por Márcio Simões) é engraçado. Mas quando me acostumo com a voz do Bruce Willis sendo a mesma voz durante anos e subitamente fica diferente (Em 2006, o dublador dele, Newton da Matta, faleceu), a coisa fica meio chata.

Fora isso tudo, perdemos o trabalho bem feito dos atores. Assistir ao clímax de Coração Satânico e tentar ignorar a rouquidão desesperada de Mickey Rourke substituída pelo trabalho apenas esforçado de um dublador é dose. Imagine então a diferença entre o Coringa de Heath Ledger dublado e o original… Meses dedicados pelos atores originais aos seus personagens e as poucas horas (Se muito!) que os dubladores brasileiros tiveram para gravar seus diálogos.

Por causa disso, não vejo nada demais em dublarem as animações. Só substitui o trabalho de um ator pelo de outro. Mas é foda ver que o cuidado não é o mesmo (Luciano Huck gravou todo o seu péssimo trabalho em Enrolados em apenas 4 ou 5 horas).

 Dublagem de peso

E os deficientes visuais? Não podem nem tentar ir ver um filme?

Claro que podem sim. Mas novamente, não creio ser justo que uma minoria absoluta seja responsável por moldar a maneira com que a maioria irá assistir aos filmes. Além disso, há duas questões: É obvio que o cinema é uma mídia visual. E não podemos esquecer dos deficientes auditivos. Faz infinitamente mais sentido facilitar o acesso dos deficientes auditivos aos filmes em tela grande do que o dos deficientes visuais.

Os dubladores não vão trabalhar?

Temos alguns dos melhores profissionais do ramo. Mas o que vem tirando o ganha pão dessa classe trabalhadora na verdade são as “celebridades” convidadas ultimamente pra dublar os filmes de maneira vergonhosa. Mas mesmo assim temos que concordar com outra coisa: Dublagem distorce, deforma e prejudica a obra de arte original. Pros dubladores o que não falta a eles é trabalho: Séries de TV, animações (Para cinema e televisão) e praticamente todas as produções lançadas em home video contam com suas versões dubladas. É na verdade o contrário que vem ocorrendo: Com um número cada vez maior de projetos com versões dubladas, tá rolando uma enxurrada de trabalho. E as dublagens vão sendo feitas de qualquer maneira.

Pow cara, quem não sabe ler não tem direito de ir ao cinema?

É muita estupidez e muito cinismo dizer que mais cópias dubladas vão atrair o público analfabeto pras salas de cinema. Quem não sabe ler geralmente não tem o melhor dos salários pra ficar indo ao cinema e assiste mesmo aos filmes piratas. Menos de 0,01% daqueles que vão às salas de cinema são analfabetos (E dentre estes a grande maioria é de crianças). “Acessibilidade” é o caralho. Isso não justifica o crescente aumento das cópias dubladas. O negocio é simples: Preguiça de ler. Analfabetos têm acesso aos filmes pela TV aberta onde 100% das produções são dubladas e praticamente todos os lançamentos em DVD já vêm com a opção da dublagem (E a palavra-chave aqui é “opção”). A população analfabeta (Seja este analfabetismo real ou funcional) não está sendo excluída do acesso ao cinema.

 Séria mais legal se assim fosse, não seria?

Ir ao cinema para ver um filme em tela grande é um gesto de amor ao cinema. Seria muito menos trabalhoso pra mim baixar um filme, procurar a legenda e assistir no conforto do meu sofá, podendo pausar o filme quando eu quiser, assistindo no volume que eu quiser, o filme que eu quiser. É deprimente sair de casa e ter que pagar entre R$10,00 e R$20,00 pra ver um filme (Fora gastar gasolina, pegar trânsito, pagar estacionamento, pipoca, etc) e ainda por cima ver que a sua opção de ver um filme dublado ou legendado não existe mais. Boicote o filme. Eu não vejo mais filme assim. Desisti.

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