Faroeste Caboclo (Ou: Como o cinema nacional conseguiu estragar um roteiro pronto há mais de 20 anos)

Cinema segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Eu provavelmente serei expulso daqui por estar escrevendo sobre Legião Urbana. Bem, não é bem sobre Legião Urbana que eu vou falar, mas tem a ver e isso já é motivo para medo. É que em uma tarde ociosa de chuva eu resolvi assistir o “clipe” de Faroeste Caboclo, que na verdade é aquele filme de 2013 e pra minha surpresa, conseguiram romantizar ainda mais e piorar a porra toda. E olha que eu não gosto de Legião Urbana. E antes que você venha com seus argumentos hippies renato russescos me chamando de fã enrustido, sim, é possível gostar apenas da letra de uma música chata. Do mesmo jeito que é possível gostar apenas da trilha sonora de um filme ruim. Durmam com essa, seus maconheiros sem vergonha organizadores de roconha que fazem todo mundo dançar.

Mais ou menos, mais ou menos.

Mas então, vamos falar desta pocilga de filme. Eu sei que é uma adaptação e que adaptações são diferentes do original, afinal, são adaptações e não cópias. Porém, o que faz a letra da música foda é toda a ascensão de Santo Cristo como super traficante de Brasília e sua queda diante de Jeremias. Afinal de contas, adaptações servem para melhorar aquilo que já existe, não pra piorar como este filme fez, tirando todo o sentido da música e transformando em um romance bem mais ou menos. Mas calma, falta muito pra chegarmos até aí.

Na música, Santo Cristo é um moleque encapetado desde criança. É vítima da sociedade? Tá, é. Mas não precisavam ter inocentado tanto o cara como fizeram no filme. Cagaram a fodacidade de Santo Cristo, rapaz. Afinal de contas, o moleque era o terror da cercania onde morava, ladrão de dízimo, só pensava em ser bandido, comia todas menininhas de cidade e na escola até o professor com ele aprendeu. Sabem o que eu esperava ver? Um pequeno trecho da infância de Santo Cristo sendo tão filho da puta quanto Zé Pequeno e Bené no início de Cidade de Deus. Tá, talvez menos. Mas o que tivemos foi um moleque caladão, meio emburrado e que roubava balinhas, mas ainda assim não convencia como o piquinha das galáxias que a música conta. Sem falar que o fato do pai ter sido morto por soldado só ajudou o moleque a ficar mais filho da puta e não foi o único motivo dele ter se fodido na vida como o filme conta.

Até aí tudo bem, com 15 anos ele mata o soldado que matou o pai dele e vai pro reformatório, saindo de lá homem feito e sem destino, mas o filme não mostra Santo Cristo indo pra Salvador ou conversando com o boiadeiro que ia perder a viagem. Até aí tudo bem, sempre achei estranho o fato de o tal boiadeiro não conseguir pegar o ônibus mas Santo Cristo sim. O problema é que eu sempre pensei que Maria Lúcia fosse a tal filha do fazendeiro e que o destino resolveu unir os dois. Mas nem o filme mostra isso e nem a música, era apenas idiotice minha mesmo. E o maior problema do filme começa exatamente quando Santo Cristo chega em Brasília. Eu não sei se vocês notaram isso, mas o foco de Faroeste Caboclo não é o amor entre Santo Cristo e Maria Lúcia. Não senhores. O foco é a vida de Santo Cristo, suas escolhas, seus erros e acertos e nessa parte o filme peca eternamente, colocando Maria Lúcia no caminho de Santo Cristo assim que ele chega na cidade.

Escola de Atuação Kristen Stewart.

Santo Cristo trabalha como aprendiz de carpinteiro no filme, o problema é que João não vai pra zona da cidade gastar todo seu dinheiro de rapaz trabalhador e tampouco conhece muita gente interessante e até um neto bastardo de seu bisavó. Pois é, Santo Cristo já chega em Brasília sabendo que tem um primo chamado Pablo que mora lá. OK, afinal o cara ir para Brasília por acidente e encontrar um parente que nem sabia que existia também por acidente foi um pouco de forçação de barra. No filme, João não tem a liberdade de ser o porra louca sem amor que é na música pois desde o início está fazendo o que faz por Maria Lúcia. Assim como Jeremias, que tem sua filha da putagem “justificada” pelo amor não correspondido de Maria Lúcia. A pra casa do caralho vocês, hein.

E como Jeremias tá no rolo desde o início do filme, Santo Cristo em momento algum fica rico e acaba com todos os traficantes de lá. Quer dizer, ele começa uma plantação com Pablo e ganha muita grana, mas nada de fodacidade, muito pelo contrário, ele resolve largar a porra toda por causa de chilique da Maria Lúcia antes da hora. Todo mundo sabe, bem, pelo menos todo mundo que já se deu ao trabalho de ouvir a música e prestar atenção na letra, que Santo Cristo vai para o “inferno” duas vezes. Da primeira vez, sob a má influência dos boyzinhos da cidade começou a roubar, o que sempre me pareceu escroto. O cara era O traficante da cidade, porque diabos ele começaria a roubar sob a má influência dos boyzinhos da cidade? E é por isso que nessa parte o filme também acerta. Santo Cristo não rouba e também não é preso, mas é capturado pelo policial corrupto da cidade que tá junto de Jeremias, que não somente espanca Santo Cristo como manda seus capangas comerem o cu do negão. Legal, ponto pra aumentar o ódio por Jeremias, mas ainda assim, cortam a fodelice de Santo Cristo mais uma vez.

Agora, que Jeremias deveria ser bandido destemido e temido, sem medo de polícia, capitão, traficante, playboy ou general, sua vingança é açucarada pela chatice de Maria Lúcia. Eu sei que na música esta é a exata hora em que Maria Lúcia é introduzida, mas como disse antes, ela tá na jogada desde o início do filme, capando a fodelice de Santo Cristo. Os dois pombinhos açucarados vão pra casa de Maria Lúcia, fodem no chão da sala e depois dormem no sofá. Pra que? Só pra serem surpreendidos pelo pai da moça, que é senador e a adaptação do senhor de alta classe com dinheiro na mão que fode com a vida de Santo Cristo. Aliás, uma das partes mais esperadas por mim neste filme era a parte em que João de Santo Cristo, do alto de sua fodelice, escorraça o velho filho da puta de sua casa, mas infelizmente não tivemos isso, assim como também não tivemos a clássica fala do desfecho do duelo. Mas tem outra coisa.

Na música, Maria Lúcia casa-se com Jeremias porque não sabe quem o sujeito é e não pra salvar a vida de seu amado Santo Cristo que é espancado todos os dias na cadeia pelo policial corrupto. Outro grande momento é quando a saudade começa a apertar e Santo Cristo, que estava expandindo seus negócios, resolve voltar pra casa e surpreende-se com o rival casado com sua amada e chama o cara pra porrada e ainda jura matar também Maria Lúcia, aquela menina falsa pra quem jurou o seu amor. No filme, o policial entrega a Santo Cristo uma foto de Jeremias beijando a barriga de grávida de Maria Lúcia, o que dá forças pro cara fugir da cadeia e botar em prática sua vingança. Essa parte até que é legal, com Santo Cristo invadindo a casa de Jeremias, matando seu capanga e escrevendo com cocaína o local do duelo. Mas é claro que seria muito mais legal se Santo Cristo chegasse em casa e desse uns catiripapos de surpresa em Jeremias e Maria Lúcia. Enfim, vamos ao duelo.

Jeremias tá cheiradaço e por conta do Zé Inácio, porque Santo Cristo pegou seu pó e matou seu capanguinha e parte pra Ceilândia no lote 14. Enquanto isso, Maria Lúcia vai até a casa de Santo Cristo e pega sua Winchester 22, mas quando ela chega no local do duelo a merda já tá armada. Aliás, a merda já tava armada desde que resolveram mudar esta caralha de cena. Não tem tiro pelas costas, não tem bandeirinhas e nem povo a aplaudir. Assim como Maria Lúcia não tem do que se arrepender e nem o povo tem a declarar que Santo Cristo era santo porque sabia morrer. A parte da alta burguesia da cidade que não acreditou na história que eles viram na TV? Também não. Sabe o que também não teve?

Jeremias, eu sou homem, coisa que você não é e não atiro pelas costas não. Olha prá cá filho da puta sem vergonha, dá uma olhada no meu sangue e vem sentir o teu perdão

E foi nesse momento que eu percebi que eu deveria ter desistido de assistir este filme logo que comecei a desconfiar que seria apenas mais um romance entre um cara pobre e uma mocinha burguesa. MEU DEUS, EU JÁ ESTOU ATÉ FALANDO COMO VOCÊS!

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  • Django

    A premissa do filma era ser baseado na música, não um cópia fiel da mesma. Tá falando merda.

  • Jo

    É legal quando os “leitores” deixam bem claro que não leram o texto.

  • Cê falou mal de algo minimamente relacionado à Legião Urbana, cara.

    O mimimi é inevitável.

  • Militar facista acido

    Esse é o tipico filme feito para juventude maconheira, que so fica em casa fumando maconha e criticando o sistema e bla bla bla… .filme para vagabundo que gosta de defender bandido e criticar o exercito, mais quando roubam o celularzinho que o papai deu de 2000 reais ficam putinho e fazem protesto falando que não tem segurança….traduzindo filme feito PARA ESSE LIXO QUE SE CRIA EM UNIVERSIDADES!

  • Nossa, cara. Quanto ódio no seu coraçãozinho.

  • Loney

    Só li verdades, mas gostei do nome

  • Por mim, Quentin Tarantino poderia ter feito essa adaptação pra ser uma versão abrasileirada de Django Livre.

  • Aline

    Pra ter cagado tanto assim na música, poderiam simplesmente ter feito uma porcaria qualquer de filme, como em geral é filme brasileiro. Como é que conseguem errar num filme, que como vc bem disse, TEM O ROTEIRO PRONTO??

  • Lucas Barbosa

    Segurança o Brasil não tem, quanto raiva de universidades cara
    ps: li o seu nome então acho que é zuera

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