Escute, camarada

Livros sábado, 21 de agosto de 2010

E então eu olhei e vi que só havia água. Eu tinha estado até então inclinado a acreditar que havia mais do que realmente há; via até o tubarão de Spielberg e o próprio barqueiro do inferno navegando do seu lado. Mas só há água. Foi assim o tempo todo. Quem via errado era eu. E então eu passei mais algum tempo esperando pra ver se a nova conclusão estava certa, por precaução. Eu sou precavido. Acontece que, bem, às vezes eu sou precavido demais. Depois de esperar e sem toda a certeza, com a sensação de que havia algo errado, peguei o remo e saltei no barco. Enquanto remava, ia meio que receoso ainda, pensando se não esqueci de algum detalhe pra chegar à conclusão que aquilo era seguro. Enquanto pensava, eu deixei de notar que só havia água. Esqueci que era um fim de tarde e que não havia nenhum problema. Parece que eu não estava assim tão certo da conclusão. Então eu remei com menos vontade, porquê se eu percebesse de repente que estava errado, eu não teria ido muito longe e poderia me salvar mais depressa. Ao mesmo tempo, havia a possibilidade de a conclusão inicial estar mesmo, e isso me mantinha remando. Era um meio termo. Não ia rápido e nem muito devagar.

Aportei do outro lado sem problemas. Levantei e vi o caminho por onde eu tinha vindo. É, não tinha nada além da água mesmo. Que besteira. Eu poderia ter remado mais se tivesse certeza antes como tinha agora. Fiquei algum tempo me repreendendo. Depois, mesmo ainda pensando no meu erro, fui ao encontro dela. Quando cheguei no local combinado, não a vi. Esperei alguns minutos e nada. Perguntei então a um homem no cais se ele a havia visto e a descrevi. Ele me disse que ela havia ido embora, depois de esperar durante vários minutos. Agora eu acabava de notar: Cheguei muito atrasado. A culpa e o auto-repreendimento vieram e senti-me mal. Fiquei alguns momentos pensando em como remediar a situação, mas não havia como, não agora.

Com meu dia desperdiçado, fiz o caminho de volta. Não parei pra pensar na água e não me senti mais culpado. Apenas fiquei preocupado em como remediar a situação. Depois de algumas horas, ela veio me visitar em casa. Pediu-me desculpas porquê sentiu-se mal e teve que ir embora do local do nosso encontro antes que eu chegasse. Calei-me e disse que a desculpava. O mais difícil agora era desculpar a mim mesmo. Todas as minhas ações perderam o sentido: Preocupei-me demais com a água e remei menos; me repreendi e perdi tempo; preocupei-me demais e não havia motivo.

Antes que começasse a me repreender por tudo isso, aprendi que existem dois tipos de pessoas nesse mundo, camarada: As que perdem tempo e as que não sabem ganha-lo. Mas isso não me agrada. Então inauguro a terceira categoria: Os que simplesmente vivem.

Devem ser raros os que farão parte dessa.

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