Cipreste Triste (Agatha Christie)

Livros segunda-feira, 04 de novembro de 2013

Já cansei de ouvir que Agatha Christe é leitura pra criança/pré adolescente. Ela era ótima no que fazia, ou seja, contar histórias de crimes. Além de ter tido uma personalidade fantastica. É impossivel não compará-la com Sir Arthur Conan Doyle, mas quem é fã de ambos sabe reconhecer as diferenças e virtudes de cada um. Agatha conta suas histórias de forma tão particular que quase sempre é possível reconhecê-la dentro das suas obras. As vezes, na personalidade de uma de suas melhores personagens, Ariadne Oliver, uma escritora amiga do detetive Poirot, que não sabe utilizar ordem e método quando se depara com crimes reais. Outras vezes oculta, como uma sombra. Você não sabe exatamente aonde, mas ela está lá, em algum lugar. No caso de Cipreste Triste, a encontro na protagonista, Elinor Carlisle.

Agatha Christie era uma mulher contida, daquelas bem inglesas. No entanto, era extremamente apaixonada e passional. Ao ser largada pelo primeiro marido, logo após a morte de sua mãe, surtou e ficou desaparecida por um tempo, até ser encontrada em um hotel. Havia reservado o quarto com o sobrenome da amante de seu ex e disse não lembrar dos acontecimentos. Muitos acham que ela fez isso para se promover, visto que seu cérebro era uma verdadeira fábrica de livros, e um novo lançamento estava próximo. Mas eu acredito em sua inocencia, pois uma mulher capaz de escrever uma personagem como Elinor Carlisle com certeza tem sentimentos muito intensos.

Daria dois rins, fígado e coração só para ser essa mulher.

Cipreste Triste conta a história da morte de uma jovem atraente, Mary Gerrard, protegida de Laura Welman, viúva muito doente, tia de Elinor Carlisle. A culpa do assassinato de Mary recai sobre Elinor, pois além de Laura querer beneficiar sua acompanhante no testamento, Roddy – noivo da protagonista – acaba se apaixonando pela simples garota, dissolvendo seu noivado para conquistar seu amor. Hercule Poirot é chamado para tentar livrar Elinor de uma condenação que acredita ser injusta, pois nesse caso nem tudo é o que parece ser.

Apesar de ser um livro interessante e a história da morte de Mary ser instigante, o crime fica em segundo plano. Cipreste Triste é paixão, das mais avassaladoras, do inicio ao fim. Todo mundo ama alguém, menos o Poirot, que só tem olhos para seu bigode preto. O desespero apaixonado de Elinor, que se incomoda muito mais com a perda do homem amado do que – de fato – com sua condenação aparentemente injusta, dá o tom da narrativa e te toma de tal forma que você fica feliz por aquela garota sonsa ter morrido. Ou ninguém se sente assim e eu sou uma psicopata.

RESPEITA O MOÇO!

A trama, além de contar uma história bem amarrada e surpreendente, tem trechos belissimos, como não costumamos ver em romances da Rainha do Crime. O nome da obra foi inspirado em um trecho de Noite de Reis, de William Shakeaspeare. Come away, come away, death. And in sad cypress let me be laid (Dessa última vez eu li o livro em inglês, chorem!). Além de nomear, é também a epígrafe do livro e fala sobre a morte causada por amor, o que é poetico por si só. Ainda que estivesse em uma música do Molejão, com certeza engrandeceria a discografia da “banda”. Mas, apesar de ser William Fucking Shakespeare, a primeira página não é a minha favorita. Logo no inicio, quando ouvimos falar de Elinor, Agatha Christie a descreve como uma mulher chique, controlada, segura de si. Além de linda, inteligente e prática. Para os outros. Na realidade, é frágil e completamente dominada, não por Roddy – seu noivo – mas pelo sentimento quase aterrador que tem por ele. Logo ele, um homem de poucas atitudes e, como a própria pensava, perfeitamente comum:

Como sempre que via Roddy, Elinor sentiu uma sensação de ligeira tontura, uma vibração de súbito prazer, e achou que devia mostrar que possuía um espírito prático e não era suscetível a emoções. Porque era bem evidente que Roddy, apesar de amá-la, não sentia por ela o que ela sentia por ele. Vê-lo, causava-lhe um efeito como se estivessem comprimindo seu coração a ponto de quase doer. Era absurdo que um homem – um homem comum, sim, perfeitamente comum – conseguisse produzir aquele efeito em alguém! Que o simples fato de olhar para ele a fizesse ver tudo rodando, que ouvir a sua voz desse, ainda que um pouco, vontade de chorar. O amor devia ser certamente uma emoção agradável, e não algo que machuca por sua intensidade. Uma coisa estava clara: Era preciso ter o cuidado de mostrar que encarava a questão despreocupada e naturalmente. Os homens não gostam de dedicação nem de adoração. E Roddy não gostava com certeza.

Como Elinor, Roddy também vivia sob águas profundas, assim como Mary Gerrard e todos os envolvidos. Inclusive você ai, lendo. É quase um livro de auto-ajuda, pois faz o leitor pensar em si mesmo o tempo todo. E é isso o que mais fascina sobre Cipreste Triste. Ninguém é o que diz ser e as coisas nem sempre são como deveriam ser. Os diálogos são interessantes e Hercule Poirot surge não apenas como um instrumento de investigação, mas também como o grande apaziguador sentimental. Sendo ele um homem solteiro, que não é dado a arroubos de paixão, nos perguntamos o que o detetive baixinho, bigodudo e cabeça oval também tem a esconder.

Em relação a resolução do mistério eu me fodi. Já li esse livro três vezes. Na primeira, comprei em um sebo a edição da Nova Fronteira, onde tem um megablaster huge spoiler na gravura da capa. Lendo a história e vendo a capa todo santo dia, obviamente tirei minhas conclusões. Não completas, mas em parte. Se bem que depois de ter lido todos os livros da Agatha Christie ao longo de 10 anos, provavelmente nem precisaria disso.

Cipreste Triste


Sad Cypress
Ano de Edição: 1940
Autor: Agatha Christie
Número de Páginas: 256 (Primeira edição)
Editora: Collins Crime Club

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