Cinema Trash

Cinema segunda-feira, 28 de maio de 2012

Ah, o cinema trash. De onde saem os maiores candidatos a serem filmes cult, os piores filmes de todos os tempos, os filmes mais honestos, feitos por gente como a gente, as vezes sem verba, sem roteiro, sem noção… Mas afinal, o que é cinema trash?

É como ser indie/hipster/gay/babaca/troll: Muitos o são, mas poucos realmente tem a coragem e a vontade de admitir. Não é uma pergunta fácil de ser respondida. Quase qualquer produção mal feita e com pouco dinheiro pode ser classificada como trash. Os filmes de terror surgiram junto com o cinema, nos primordios da sétima arte, com o aparecimento do expressionismo alemão, representado pelos filmes como Nosferatu, M, o Vampiro de Dusseldorf e O Gabinete do Dr. Caligari. Chegaram ao mainstream com os filmes de monstros da era de ouro de Hollywood, com os filmes feitos pela Universal e pela Hammer e uma caralhada de filmes baratos de bichos gigantes destruidores de metrópoles. Até mesmo um organizado revezamento entre Vincent Price, Lon Chaney, Peter Cushing, Bela Lugosi, Boris Karlloff e Christopher Lee nos papéis de zumbis, vampiros e lobisomens garantiram a rentabilidade dos estúdios e o interesse do público, sem detrimento dos grandes astros do trash da época. Mas infelizmente, tudo que é bom caí no esquecimento e os filmes de horror entraram em declínio. Lamentável. Dali por diante, o trash seria apenas um estilo revival, vintage, feito por gente que realmente amava a sétima arte a tal ponto que não conseguia ver no ridículo dos roteiros mal escritos e das cenas toscas e impossíveis um motivo pra ter semancol e obter um pouco de noção do que realmente estava fazendo. Era a nova era.

O primeiro diretor de cinema da era realmente trash por natureza do cinema era um cara canastrão que gostava de gatos e se travestir de mulher. Edward Davis Wood Jr., ou simplesmente Ed Wood, era um alcoólatra sem noção e metido a grande cineasta. Por causa dessas características, ele conseguiu levar no bico diversos investidores, que bancaram seus filmes horrendos. Até mesmo uma igreja batista bancou um de seus filmes. Que delírio mental grave fez esse pobre homem acreditar ser um gênio além de seu tempo? Os filmes de Wood eram de uma qualidade técnica incomensurável. Ele filmava seus filmes sempre com equipamentos emprestados, uma equipe técnica formada por malucos e usava as mesmas cenas reutilizadas em vários filmes, reciclando cenas toscas de um filme em muitos outros. Depois de Ed Wood que a crítica estadunidense resolveu chamar os filmes ruins, toscos e mal ajambrados de “filmes trash“. E realmente, Wood deve ter sido um grande gênio do cinema, pois até hoje ele é reconhecido como o pior diretor de cinema de todos os tempos. Sério, pior até que o Michael Bay e que o George Lucas juntos.

A grande obra prima (Caralho, eu escrevi mesmo obra prima?) do cinema trash é até hoje (Não por falta de concorrentes a altura) o clássico Plan 9 From Outer Space, em que uma invasão alienígena ressuscita os mortos para dominar a Terra. O elenco é um primor: O lutador de wrestling Tor Johnson, a decadente apresentadora de televisão Vampira e o fudido e a beira da morte Bela Lugosi (Que morreu logo no inicio das filmagens e foi substituído por um outro ator, mais alto e mais magro, que passava o filme inteiro escondendo o rosto nada semelhante ao de Lugosi com uma capa). Os discos voadores eram feitos com calotas de rodas de carro penduradas por barbantes que eram visíveis aos olhos. O mais incrível é que mesmo sendo um filme horrível, mal feito e muito, mas muito ruim mesmo, foi um grande sucesso de público. As pessoas lotavam os cinemas, não pra se assustar com o pretenso filme de terror, mas pra rir das atuações toscas e dos efeitos “especiais” bizarros. Não fosse por esse sucesso repentino, esta matéria não existira nem teria qualquer sentido.

Depois do inesperado sucesso de Ed Wood e de seus filmes impagáveis, o que as décadas seguintes nos trouxeram foi totalmente impensável. Filmes que misturavam erotismo e violência explícitos. Surgiram o Exploitation (Faster! Pussycat!Kill! Kill!, de Russ Meyer e que revelou para o mundo a estonteante Tura Satana), Sexploitation (Thriller – A Cruel Picture, do sueco Bo Arne Vibenius), Nazixploitation (Ilsa, She Wolf of the SS, de Don Edmonds), Blaxploitation (Shaft, de Gordon Parks), Spaghetti (Django, de Sergio Corbucci), Eurotrash (Cannibal Holocaust, do italiano Ruggero Deodato), Italian zombies (Zombie & the Beyond, de Lucio Fulci), Kung fu (A trilogia Street Fighter, do sanguinário Sonny Chiba) e muitos outros subgêneros que foram nascendo nos anos 60, 70 e 80. A expressão “Uma ideia na cabeça e uma câmera na mão” nunca foi tão real. Em qualquer beco ou esquina era possível encontrar aquelas salas de cinema mal administradas, mal frequentadas (Ladrões, traficantes e prostitutas eram o público alvo), sujas e exibindo por um dólar dois a quatro filmes em uma única sessão (Que sonho). Estas salas eram chamadas de Grindhouses, e foram homenageadas pela dupla Quentim Tarantino e Robert Rodriguez no filme duplo de 2007 e que fracassou alguns anos atrás (O público não sabia que teria dois filmes na sequencia e abandonava as salas de cinema antes de ver o segundo filme…).

Hoje em dia o cinema trash está morto. Morto por causa de filmes como Tubarão 77, O Ataque dos Tomates Assassinos, Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e muitos outros, que banalizaram o gênero, fazendo filmes trash-gore milimetricamente planejados para serem ruins (Em alguns casos nem tanto). Os slasher movies dos anos 1970 hoje dão lugar a filmes genéricos como Pânico, Jogos Mortais e O Albergue. Mas enquanto as filas se formarem para ver um careca sádico estripar pessoas perturbadas que queriam fazer sexo (Eita trauma nerd hein?) ou um alienígena transexual vampiro sugador de vaginas que brilha no escuro e foi criado por uma família de lobisomens mutantes hibridos de tartarugas que vivem no deserto, saberemos que pode surgir mais um clássico filme ruim.

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