Carrie, a Estranha (Carrie)

Cinema segunda-feira, 02 de dezembro de 2013


Carrie (Sissy Spacek) é uma jovem rejeitada por todos, inclusive pela mãe, mulher religiosa e completamente louca. É constantemente ridicularizada pelos colegas, o que acaba levando a uma série de eventos estranhos que envolvem seus poderes telecinéticos, que se fortificam graças ao desejo de vingança da protagonista.

Chegamos em 2013 e as pessoas simplesmente não desistem de reciclar filmes bem sucedidos do passado. O remake de Carrie, a Estranha, que será lançado em breve, não é o primeiro. Em 2002, fizeram uma versão made for TV das mais toscas. Isso para não esquecer a sequência, Carrie 2 – A Maldição de Carrie, que é basicamente a mesma história, com nomes diferentes e uma trilha sonora bacana. Mas o original, ah, o original mexe comigo até hoje. Se passar 100 vezes na TV, assistirei todas. Conheço a história de cabo a rabo, mas ainda me causa os mesmos arrepios na espinha do passado, mesmo não sendo aquele filme de terror clássico que estamos acostumados.

Carrie foi uma personagem que me encantou, tanto no romance de Stephen King, quanto no filme dirigido por Brian De Palma. E era apenas uma garota tímida abandonada pelo pai, filha de mãe extremamente católica e maluca, sem amigos e com poderes telecinéticos. O mais angustiante no filme é justamente o fato de ela não ter a quem recorrer. Quando menstruou pela primeira vez, as colegas de classe debocharam e jogaram absorventes nela, porque a jovem não sabia o que estava acontecendo com seu corpo. Sua mãe a prendeu no armário de orações, porque ela havia se tornado uma pecadora. E a pobre garota continuava não entendendo nada. E isso se repete várias vezes ao longo do filme, chega a ser claustrofobico. Ela é o próprio retrato da solidão. Apenas a professora Collins (Betty Buckley) dá um suporte a menina, mas conhecendo o desfecho da história, vemos que não adianta muito.

Apesar de ser um filme incrível, existem coisas que eu não entendo nele, mas que tampouco estragam a trama. A escalação de Sissy Spacek, que na época era uma bela jovem, não condiz com a Carrie White que todos zombam. Tentaram enfeiá-la ao máximo, retratá-la como um patinho feio, mas não dá. Ela era bonita. E por mais ingenua e até ignorante em algumas questões que ela fosse, algum rapaz, em algum momento, acabaria se interessando. Apesar da mãe e das roupas fora de moda, é inconcebível que a garota do filme não fisgasse alguns olhares que fossem. No livro, a personagem tem acne, é gordinha e possui cabelos escuros, sendo não apenas feia, mas bastante sem graça. Nada a ver com o porte de Sissy, que além de alta, é esbelta. Obviamente o talento da atriz contribuiu muito para a trama. Mas quando vi pela primeira vez, sendo inclusive uma gordinha de cabelos escuros bem sem graça, não compreendi muito bem por que aquela garota com o baby liss mais bem feito do baile era tratada como aberração. Esse mundo tá perdido mesmo.

Rainha do Tinder.

Outra questão que me incomoda é o fato de Sue Snell (Amy Irving) se sentir tão, mas tão, mas tããããããão culpada por todas as maldades que fizeram com Carrie, a ponto de mandar seu namorado Tommy Ross (William Katt) acompanhá-la ao baile. Maltrataram a menina a vida inteira e só agora que jogaram uns absorventes nela a consciência pesou? No mais, todos na escola sabiam que Tommy e Sue eram namorados, tendo em vista que formavam o segundo casal mais popular da história. E não estamos falando de um passeio no shopping, estamos falando de um baile de formatura, algo que para a maioria das pessoas tem um significado gigante. Não sei qual é o bem que você pode causar a alguém iludindo e dissimulando um interesse que não existe. Imagino a pobre Carrie chorando por horas a fio, no armário de orações da mamãe, porque o príncipe encantado não ligou no dia seguinte. Isso se o filme (E o livro, né) tivessem tido um final feliz. O que, amiguinhos, não aconteceu.

Outro lance que pra mim é muito bizarro, porém muito comum na vida real, é a motivação para humilharem a protagonista no baile: Simplesmente, Chris (Nancy Allen), a líder de torcida escrotinha, acha um absurdo ser punida depois de debochar da ignorância da adolescente ao ter sua primeira menstruação. Quer dizer, você não ajuda uma pessoa que está se esvaindo em sangue, ri dela, constrange, é punida por um superior – sem a menor influência da vítima – e se vinga de quem? Se você é normal, de ninguém, porque tá errada. Se for um espírito de porco como alguns que conhecemos por aí, colocaria tachinhas na cadeira da professora. Mas se você é Chris ou Billy Nolan (John Travolta), obviamente vai jogar sangue de porco na pobre miserável da Carrie White.

Carrie, a Estranha deveria ser obrigatorio no currículo escolar, porque mostra o que acontece com bully safado. Ou, ao menos, o que deveria acontecer. A trama não envelhece porque existem muitas pessoas como ela por aí. Tive amigas que sofreram bullying constantemente, algumas conhecidas que não falavam com absolutamente ninguém do colegio, outras que tinham pais ausentes, ou desequilibrados. Infelizmente nenhuma tinha poderes de fazer brotar fogo do chão. Mas se fosse o caso, os dias letivos teriam sido muito mais divertidos.

Carrie, a Estranha

Carrie (98 minutos – Terror)
Lançamento: EUA, 1976
Direção: Brian De Palma
Roteiro: Lawrence D. Cohen
Elenco: Sissy Spacek, John travolta, Amy Irving, Nancy Allen, Betty Buckley

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