As produções mais desastrosas do cinema

Cinema segunda-feira, 03 de outubro de 2011

Se tem alguma forma de arte que pode destruir completamente os sonhos e esperanças de uma pessoa, ela é o cinema. E se o desenvolvimento de um filme pode traumatizar os envolvidos pelo resto de suas vidas, pra nós, meros espectadores mortais, o máximo que uma produção cinematográfica catastrófica pode fazer é deixar o filme em questão mais interessante. A menos que você pense em trabalhar com algo relacionado à sétima arte. Aí é melhor parar por aqui.

Uma Aventura na África (The African Queen)

Lá pelos idos de 1950, o John Huston já era um diretor consolidado, com filmes como Relíquia Macabra e O Tesouro de Sierra Madre no currículo. E também era conhecido por seus excessos e por sua genialidade. Por isso, ninguém protestou (Muito) quando ele decidiu fazer um filme todo no meio da selva africana.

E assim lá se foram, pro meio da floresta, centenas de empregados, roteiristas, um elenco com Humphrey Bogart e Katharine Hepburn e tudo o que uma grande produção de Hollywood tem direito. O único problema é que o filme era só uma desculpa pro diretor satisfazer a sua obsessão de caçar um elefante. E isso foi ficando claro pra todo mundo quando ele começou a se embrenhar cada vez mais na floresta, usando a desculpa de que o filme precisava parecer mais realista, mas com o único propósito de matar um maldito elefante. A história é tão bizarra que até virou outro filme, Coração de Caçador, dirigido e estrelado por ninguém menos que Clint Eastwood.

Mas ele é o John Huston, então é claro que no fim o filme acabou sendo um sucesso, inclusive com um Oscar de Melhor Ator pro Bogart. E se podemos tirar uma lição de tudo isso, é que segundo reza a lenda, todos, TODOS os envolvidos na produção tiveram malária, disenteria ou alguma doença parecida. Menos o John Huston e o Bogart, que passaram as filmagens a base de uísque.

O Segredo do Abismo (The Abyss)

Pra vocês, que pensam que o James Cameron só é um merda por causa do Avatar, taí a prova de que ele é um merda desde 1989. Aliás, O Segredo do Abismo não é nada mais que uma versão primitiva do Avatar. Onde de novo, o diretor se preocupou demais com os aspectos visuais e esqueceu do que importava. E exatamente por isso o filme estourou prazo, orçamento e quase acabou com a sanidade dos protagonistas.

Tudo porque o troço precisava ser filmado inteiramente em baixo d’água. E no escuro. Pra isso, foi usada a piscina de uma usina nuclear desativada, com uma cobertura plastica pra bloquear a luz do sol. Só que uma tempestade elétrica destruiu a porra toda e as filmagens tiveram que ser transferidas pro turno da noite. O que fez com que as horas de trabalho ficassem mais absurdas ainda. Adicione isso as inúmeras compressões e descompressões, a claustrofobia de passar 16 horas por dia dentro de um aquário e dá até pra entender porque o Ed Harris teve um colapso nervoso.

Tudo pro filho da puta do Cameron inflar o ego um pouco mais tentando ensinar uma liçãozinha imbecil pra humanidade.

As Aventuras do Barão de Münchausen (The Adventures of Baron Munchausen)

Pra que fazer um filme nos Estados Unidos quando dá pra fazer a mesma coisa na Itália, por um terço do valor? Pois é, foi assim que convenceram o Terry Gilliam a levar toda a produção d’As Aventuras do Barão de Munchausen pro velho continente. Só que chegando lá mas que vergonha, ele também foi convencido a deixar um produtor alemão cuidar de tudo. Produtor este que cordialmente apresentou o diretor pra toda equipe italiana e vice-versa. Sem realmente conhecer nenhuma das partes. E então começaram os problemas. O filme se tornou uma coisa maior do que todos poderiam imaginar. Ninguém tinha experiencia com grandes produções, nenhum encarregado falava italiano e mais e mais empregados chegavam para trabalhar em sets imensos que ninguém sabia pra que serviam.

E, que surpresa, os italianos começaram a tirar vantagem de tudo isso. Pra ter uma ideia da desorganização da coisa, nas palavras do ex-Monty Python Eric Idle, os habitantes das proximidades da Cinecittà, que começaram só com a roupa do corpo, ao final da produção estavam vestindo cachecóis e dirigindo Mercedes. Nem precisa dizer que o filme estourou o orçamento em vários milhões. O que fez com que mudasse de mão por 3 vezes e ocorressem inúmeras ameaças de interromper a produção. Com direito ao mesmo produtor lá do inicio sequestrar o rolo original do filme. Com a melhor das intenções, claro.

A coisa chegou num nível em que o Terry Gilliam, depois de mais uma amigável visita de um contador do estúdio, saiu de uma filmagem tão furioso que quebrou com um soco a janela do primeiro carro que viu na rua. Coisa que fez ele se sentir imediatamente muito melhor. Até perceber que tinha destruído o seu próprio carro.

Fitzcarraldo

Fazer um filme sobre um irlandês que pretende construir uma ópera no meio da selva e pra isso precisa mover um navio sobre uma montanha entre dois rios já parece meio megalomaníaco. Mas realmente mover um navio sobre uma montanha no meio da Amazônia pra isso já é um pouco demais. E foi exatamente o que o diretor Werner Herzog fez.

O pior é que mover um navio de 300 toneladas por uma montanha (Com a ajuda de centenas de índios) nem foi tão difícil. Pelo menos não se comparado a estar no meio de uma guerra entre o Equador e o Peru, sofrer ameaças de morte de diversas tribos e enfrentar uma estação de chuvas que atrasou as filmagens em vários meses. Aliás, a coisa atrasou tanto que os atores como Mick Jagger e Jack Nicholson tiveram que desistir do filme. E o Klaus Kinski, protagonista remanescente, reclamava tanto das condições do set que os empregados indígenas se ofereceram pra matá-lo. Várias vezes.

Tudo isso gerou o documentário Burden of Dreams, que é tão depressivo que lembrar dele me fez desistir até de acabar essa frase de um jeito decente.

O Portal do Paraíso (Heaven’s Gate)

Contemplem, o filme maldito. A obra que quebrou um estúdio. E praticamente destruiu o cinema. Tudo começou depois do grande sucesso d’O Franco Atirador, obra de estreia do diretor Michael Cimino. Graças ao filme, ele conseguiu carta branca da United Artists pra realização da sua próxima obra. Que era pra ser só um western de baixo orçamento sobre uma massacre de imigrantes no final do século XIX. Só que o diretor foi tão perfeccionista que o orçamento do filme pulou imediatamente de 7 milhões de dólares pra 40 milhões, se tornando a produção mais cara da história até então. Reza a lenda que no quinto dia, as filmagens já estavam 4 dias atrasadas.

Aliás, lendas não faltam sobre O Portal do Paraíso. A maioria se referindo a megalomania do diretor, que supostamente construía e demolia sets no meio do deserto, contratava e demitia funcionários semanalmente e repetia cenas centenas de vezes. Em um ponto das filmagens, ele teria mandado demolir não um, mas dois lados de uma rua, construídos de acordo com suas especificações, só por achar o espaço entre eles muito pequeno. E depois reconstruir tudo no dobro da distância.

Mas tudo isso poderia ter passado em branco, se não fosse o fracasso estrondoso ao chegar as bilheterias. O filme nem é ruim, mas saiu no momento errado. A Guerra do Vietnã já começava a ficar fora de moda e o mesmo pessimismo que consagrou Cimino acabou por enterrar sua carreira de diretor pra sempre. Mas o mais engraçado são os erros inacreditáveis que o filme apresenta. Mesmo com quase 4 horas de duração, vários personagens são indefinidos e alguns momentos são apressados demais. Bom, talvez porque o corte original tivesse 5 horas e 25 minutos.

Enfim, o fato é que praticamente sozinho, Michael Cimino conseguiu fechar a United Artists (Que foi comprada pela MGM) e acabar de vez com a última “era de ouro” de Hollywood, bem como toda a liberdade criativa conquistada pelos cineastas independentes no fim dos anos 60. A partir daí, financiamento só pra blockbusters otimistas do Spielberg e do George lucas. Foi o início do fim.

Apocalypse Now

Enfim, um filme que vocês conhecem o filme mais próximo de retratar a Guerra do Vietnã de que se tem notícias. Provavelmente pela extraordinária dose de loucura presente durante as suas filmagens. A história é a seguinte: Depois de encher o cu de dinheiro com O Poderoso Chefão, o Francis Ford Coppola estava livre pra investir na sua própria produtora. E o projeto escolhido pra isso foi justamente o Apocalypse Now, que já tinha o roteiro (Quase) pronto.

A partir daí, o filme conseguiu reunir mais problemas que todo o resto dessa lista junta. A começar pela escolha do local, as Filipinas. Tudo em prol daquela velha e boa dose de realidade. Infelizmente, o país estava em guerra, e todos os helicópteros alugados podiam ser recolhidos pelo governo a qualquer momento, sem aviso prévio. Tudo certo, só que depois de duas semanas filmando, o Coppola demitiu o protagonista Harvey Keitel, por motivos ainda desconhecidos, e o substituiu pelo Martin Sheen. Apenas um aviso do que estava por vir.

As coisas iam relativamente bem, até um tornado destruir todos os sets. E seis semanas de filmagens se transformaram em 16 meses dentro da selva. Obviamente, os envolvidos começaram lentamente a perder a sanidade. Assim como o diretor, quase falido, começou a perder o controle. As filmagens se tornaram tão extenuantes que causaram um ataque cardíaco no Martin Sheen. Olha só, por pouco a gente não ficou sem Charlie Sheen, e consequentemente, sem Two and a Half Man. Maldita medicina moderna…

Ah sim, e tudo melhorou ainda mais com a chegada de um Dennis Hopper drogado 24 horas por dia. E do Marlon Brando. Sim, o grande astro do filme, com um contrato de 3 milhões de dólares por 3 semanas. Acontece que o ator estava muito gordo pro papel, que o Coppola precisou reescrever. E nem tinha lido o roteiro. E o filha da puta ainda insistiu que não entendia o personagem, não importa quantas vezes explicassem pra ele. Por isso, já que o tempo do contrato estava se esgotando, as cenas que vemos no filme são o resultado de 3 semanas de improviso do Brando com o Sheen.

E é graças a isso que até hoje o Coppola prega o fim da industria cinematográfica, pra que o cinema se torne uma forma de arte verdadeira e talz. Aquele papo de uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, sabem? Bora por em prática, crianças.

 Cês não querem que o titio Coppola se mate, né?

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  • Rech, Pedro

    Excelente postagem, amigo Lucas! Não sei se o critério aqui eram apenas obras “concluídas”, todavia, caso não o fosse, foi um grave esquecimento a ausência do maior filme jamais feito, o “O Homem Que Matou Don Quixote”, também do Terry Gilliam. Não me aprofundarei aqui descrevendo a megalomania e o fracasso completo dessa produção, já que os mesmos se encontram muito bem desenvolvidos no documentário “Lost In La Mancha”. Abraços!

  • lucas

    Hahaha, valeu, valeu… E sim, foi esse o critério mesmo, senão seria uma lista (quase) totalmente diferente.

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