O Contrato

Contos quinta-feira, 09 de agosto de 2012

Eram pouco mais de três horas da manhã. Eu andava sozinho pelo centro da cidade. Engraçado como algo escrito empobrece tanto um acontecimento, acabei de condensar todo um ambiente em duas frases curtas, o que me parece injusto. Uma explicação melhor se faz necessária então:

Andava eu sozinho às três da manhã no centro da cidade, em uma sexta feira, ou melhor, tecnicamente era sábado, mas para mim era o mesmo dia – nunca entendi porque na minha mente parece que o dia não muda se eu não durmo. Muitas coisas passavam por minha cabeça: Medo de qualquer acidente, de algo que mude meus planos, da minha atenção não ser suficiente pra notar algo antes de acontecer. Entenda, nunca fui um notívago, mas gosto do clima noturno; ou melhor, viver em uma cidade moderna, uma cidade normal, nos ensina a não ser um amante de andar sozinho pela rua de madrugada.

Não sei se é só comigo, mas nessa situação parece que se processa uma mudança na maneira de funcionar da minha mente, é como se o perigo ficasse mais óbvio, apesar de existir o tempo todo. Torna-se quase impossível distinguir qual parte do medo é justificável e qual não é.

Mas, no meio de todas as impressões, ainda era interessante prestar atenção nos detalhes, que simplesmente estavam em volta. Um gato olhando de cima de uma caixa do outro lado da rua, uma janela iluminada no segundo andar de um prédio antigo, a placa de “pare” corroída pela ferrugem na esquina. Todos lá, cada um em seu posto.

Passei pela rua do canal, perpendicular ao meu caminho, e a vi vazia, correndo para ambos os lados a perder de vista, com todas as suas lojas fechadas, decorada com luzes amareladas vindas dos postes; no meio de suas duas vias havia o canal em si, formado por uma água escura, parada e certamente suja. Era uma visão quase mórbida, quase como um aviso. De dia por ali circulavam pessoas às centenas e aquela desolação me era estranha. Talvez eu até houvesse parado ali, pra ver aquela paisagem, se parar não fosse uma idéia tão repulsiva, cessar o movimento ali seria me entregar, me entregar a algo mal, a um perigo ainda não descoberto.

Passei pela frente da mureta do canal, na parte elevada construída para fazer passar a rua principal por cima da água. Na minha frente, a poucos metros, havia a outra esquina. Era iluminada por um poste comum, mas munido de uma lâmpada que piscava em intervalos inexatos. Piscava deixando, por alguns segundos, parte da rua na penumbra, que a fachada de uma loja agravava, com seu toldo que se estendia pela calçada. Aquilo me chamou a atenção, mas não havia nada de absurdo em uma luminária defeituosa.

Durante poucos segundos me distraí olhando para a rua, a encruzilhada em si, a conjunção de fatores que levaram àquela interessante paisagem. Notei que quando a luz piscava, a escuridão era incompleta por conta de uma leve iluminação debaixo do toldo; havia na ponta direita uma pequena porta. Uma porta aberta, por onde vazava uma luz avermelhada e fraca, praticamente do lado da fachada do estabelecimento, em um canto formado por duas paredes. Desci o desnível da calçada descuidadamente, mantendo os olhos na área sob o toldo.

A luz daquele poste piscou de novo. Apagou, fazendo um barulho característico ao reacender, como se estivesse se esforçando para funcionar. Piscou mais uma vez, acendendo desesperadamente e pareceu ter conjurado a figura de um homem na soleira da pequena porta. Sua silhueta era visível, uma sombra que se mantinha de pé, uma massa escura apenas quebrada pelo brilho da ponta de um cigarro. A pequena brasa se movia e brilhava mais forte ao subir na altura da cabeça da sombra, que então ficava envolta em fumaça. Já podia imaginar o homem correndo, me pedindo a carteira, com uma arma na mão – minha própria mente me assaltava antes da realidade. Pude ver o vulto mover-se de onde estava, calmamente, enquanto a luz piscava e caminhar para a esquina. Tive o ímpeto de correr na direção oposta, mas uma bala me acertaria antes de eu poder dar cinco passos. Apenas segui no meu caminho mais lentamente, enquanto sentia as pernas formigarem e fraquejarem de adrenalina. Via-me ali indo para o tal mal, agora um mal inadiável, sem escapatória. Quando me aproximei mais alguns passou, ouvi uma voz rouca:

– Já passam vinte e sete minutos das três da manhã, não é hora pra se estar na rua, rapaz. – disse ele, com ar de autoridade, mas com um leve sorriso.

Não respondi, com a ânsia de correr e o medo de ser pego se debatendo em mim. Tudo isso começou a perder força quando a luz vacilante que tomava o ambiente me permitiu ver as vestes do estranho, estava como que em um terno surrado e escuro, uma gravata, também escura, presa no colarinho desalinhado e no conjunto parecia como um velho professor ou escrivão, sem nada que inspirasse medo; mesmo assim, sua expressão tinha algo de insano, de perturbador. Tinha os cabelos brancos desgrenhados, a face marcada por rugas e dir-se-ia que combinavam com os olhos cansados e o rosto alongado.

– Tu, por que tens tanta pressa? – disse o desconhecido quando passei bem em sua frente.

– Não interessa – disse eu ríspido, e continuei andando, ignorando-o.

– Ah, vós tendes sempre tanta pressa, e como sois demasiados grosseiros também… – disse o velho, movendo-se com rapidez e me segurando de supetão pelo braço direito – Mas não vos culpo, assim é vossa natureza.

Estranhei a maneira de falar do velho e como dizia aquelas palavras pausadamente, soltando fumaça pela boca. Apesar da visível idade do homem, tinha considerável força na mão. Comecei a tomá-lo por algum louco, ou um mendigo, desses que falam sozinhos ou coisa assim. Fiz menção de voltar a andar, e o velho pareceu tomar como uma ofensa, me mantendo seguro pelo braço.

– Não, tu ficas. Tenho um assunto a tratar contigo, jovem James. – e ele sorriu ao notar meu pavor por ouvir meu nome mencionado. Fiz força para me soltar, mas não pude. O lugar por onde eu era mantido preso parecia estar esfriando, meu braço formigava. Uma falta de ímpeto, de força, pareceu se apoderar de mim. Ao pensar naquilo mais tarde, não fui capaz de compreender por que não fiz mais nada.

– Eu… Eu não… – comecei eu, sem saber bem o que dizer.

– Você não, o quê? Vais dizer que não te chamas James, que não sabes o que dizer? Não digas nada. Nem percas tempo mentindo para mim. Eu sei quem és tu, sei onde nascestes e como tens vivido. Sei também que vens do centro da cidade, onde fostes ter com teus amigos, beber, conversar, não é?

– Quem… Quem é você? – falei devagar, sabendo que não se tratava de nenhum assalto ou loucura, mas ainda sem idéia do que fosse aquela situação ou do que eu poderia fazer. Travei, mirando os olhos do estranho.

– Ah… – o velho soou desanimado – por que fazeis sempre a mesma pergunta? Veja, tenho muitos nomes. Muitas identidades, inclusive. Em cada parte deste mundo os humanos me vêem de maneira diversa. É bem verdade que sempre gostei de vir… Gracejar convosco, para quebrar o tédio, mas é preciso também vos dar o devido crédito, posto que sois incrivelmente criativos. De qualquer maneira, nada disso vem ao caso, James. O que importa é o presente, – sua cabeça se moveu, pois a criatura olhava para a direção do canal, e passou a mirar meu rosto firmemente – e, neste presente, quero lhe oferecer um contrato.

Não respondi. Apenas o encarei; sentia tudo aquilo coberto de irrealidade, tanto que nada me ocorria a não ser continuar encenando aquele bizarro papel até ser posto em liberdade. Enquanto isso, o homem enfiou a mão livre no bolso e retirou um maço de Lucky Strikes aberto, que habilmente levou à boca, prendendo nela um cigarro, para substituir aquele que tinha acabado de fumar e pisado na calçada.

– Acima de criativos, por vezes também sois incrédulos em demasia, teimosos como mulas. Mas isso é fácil de corrigir… – e, ao dizer isso, ergueu a mão e de seu indicador brotou uma chama. O espaço entre seu rosto e o meu se encheu de fumaça. Minhas pernas fraquejaram; senti que ia desfalecer, mas da mão que me prendia irradiou-se uma sensação horrivelmente gelada, percorrendo meu braço, o que me manteve em pé, mas paralisado. – Agora, vamos aos negócios.

Enfiou a mão no casaco e retirou do bolso interno um papel envelhecido, dobrado em três partes tal qual um documento.

– Aqui está, rapaz – e ergueu seu contrato à altura de meus olhos – veja se está tudo certo.

A luz do poste agora, ao invés de piscar como esteve fazendo por todo aquele tempo, permaneceu acesa como se nada houvesse de errado. No papel, datilografado com esmero, se lia “Contrato” no topo, seguido de meu nome completo, minha data de nascimento e um breve bloco de texto mais ou menos no meio da folha, debaixo do título “Termos”. Antes que eu pudesse compreender algo mais, o documento foi afastado pelo velho, que passou a olhá-lo com uma espécie de sorriso, dizendo:

– É um primor, não? “James Alexander Parker, nascido em seis de junho de 1966…”; sei o que estás pensando, chega a ser lugar-comum, até engraçado. Mas gosto de meu senso de humor. Isto vos deixa sempre impressionados. Quando estas lendas se espalham, estes detalhes ridículos ajudam a espalhar minha fama. Não resisto… – e sorriu mais, mostrando os dentes amarelos. – Pois então, Jimmy… Posso te chamar assim? Então… Aqui há o básico. Sabe, inteligência, sucesso, charme, poder, dinheiro…

Ele falava de maneira persuasiva, até irreverente. Comecei a tremer, não podia parar.

– Em troca… Ora, pare de tremer, Jimmy. Em troca, te peço algo muito simples. Muito, muito simples mesmo. Sei que nos filmes e livros que tu leste, dizem que cobro coisas caras como vida ou adoração, mas não é bem assim. Por vezes, peço de vós apenas… Reconhecimento. Apenas boatos. De tempos em tempos, vós, humanos, te tornais céticos demais. Então, para não modificar meus meios, digamos, discretos e tampouco parecer piegas como… Aquele Outro, peço a alguns de vós para que espalhem meu nome. E é só isso: Dar-te-ei os meios e a motivação, e em troca quero que tu, James, diga a todos que existo. Se for o caso, diga até mesmo como surgi hoje, escreva sobre mim, mostre o contrato. É só isso. Não importa que te tomem por louco ou que penses que não te darão crédito; alguém sempre acreditará. Pode parecer banal, mas uso esta tática há milênios, nunca falha. Só preciso que tu cumpras tua parte e cumprirei a minha, pois tenho palavra. Caso tu não tenhas… Visitar-te-ei novamente… E não estarei de bom humor. Agora – disse ele, puxando uma pena, com a qual fez um corte em minha mão paralisada, molhando-a na ponta de um sangue escuro – assine na linha pontilhada, por favor.

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