Ensaio Sobre A Cegueira (Blindness)

Cinema quinta-feira, 11 de setembro de 2008

 A esposa de um médico é a única pessoa capaz de enxergar numa cidade onde todas as pessoas são misteriosamente tomadas por uma repentina cegueira. O fato acaba criando o caos e a desordem entre a população.

Com uma sinopse dessas, e baseado num livro de um ganhador do Nobel, cê tem que admitir que suas expectativas iriam a mil. E o filme não decepciona. Ensaio Sobre A Cegueira é o tipo de filme que vai te fazer ver o mundo de outra forma. E eu não tou fazendo um trocadilho.
Nas palavras do próprio autor:

“Acho que não ficamos cegos. Acho que sempre fomos cegos.
Cegos apesar de conseguirmos ver.
Pessoas que conseguem ver, mas não enxergar.”
José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira

E sabe o melhor? Quando viu sua obra na telona, o véio Saramago chorou, cara, de tão perfeito que é o filme. [Apesar de eu não ter lido o livro. Ainda.]
É difícil focar só no filme, já que o filme em si não tem foco. Os efeitos visuais são feitos como se o cara que tá filmando tivesse ficado cego junto com todo mundo. Tem cenas que estão com um enquadramento bem torto, mal focadas. Boa parte dos cortes é feito com telas brancas, e não pretas, como de costume. Você é ofuscado no meio do filme. E há uma ênfase nos sons, já que, fora a visão, esse é o único sentido que pode ser manipulado no cinema. As conversas paralelas não são cortadas, você tem que saber filtrar o que quer. É uma experiência chocante, até difícil de digerir, por suavemente criticar à sociedade em que vivemos, onde o visual conta mais que o conteúdo. Ou pelo menos foi o que eu notei, porque o próprio Meirelles falou que cada um tem a sua interpretação do filme.

 Tão reconhecendo o Minhocão?

Vamos ao enredo do filme, então: Tudo começa com o primeiro homem a ficar cego. [E os personagens não tem nome, inicialmente isso causa um certo estranhamento, mas depois você se acostuma.] Ele perde a visão do nada, num farol. Então, um homem se dispoe a ajudar. O pôe de vonta no carro, e leva até em casa. Lá, ele tem uma briga com a mulher, talvez pelo absurdo da situação: “Oras, onde já se viu, ficar cego do nada? Cê tá é enrolando, palhaço.” Tá, não é isso, mas quase. Eis que então ela marca uma hora no oftalmologista pra ele, emergencialmente. E assim vai se desenrolando a história, com as contaminações sendo feitas em cascata: cada novo doente contamina um grupo ao seu redor. O oftalmo não descobre o que é, obviamente, e o manda de volta pra casa. Não sem antes ser contaminado. Ele só não sabia que a contaminação levava algumas horas pra “fazer efeito”. E assim vai, pessoas ficando cegas só por chegar perto de quem está contaminado.

 Loira chama menos atenção num filme tão claro.

E no meio disso tudo, a mulher do oftalmologista se descobre imune. Só que, como estava tentando conter o avanço da doença, o governo resolve enfiar todos os doentes detectados em locais reservados para quarentena, que mais parecem campos de concentração. E os cegos são jogados lá, à própria sorte. A grande vantagem é que, pra não ficar longe do marido oftalmologista, a mulher se diz cega, mesmo não sendo, e vai junto com ele. Ela acaba se tornando a grande líder, por que já dizia o ditado: “Em terra de cego, quem tem olho é rei”. O problema é que ela tem que fingir ser cega, senão iam tira-la do lugar e fazer milhões de experiências pra tentar achar uma cura. Isso se os cientistas também não ficassem cegos… O problema é que vai chegando mais e mais gente, afinal a doença demora a se manifestar, e contamina nesse meio tempo. E com isso aquele lugar vai virando o inferno lotando. Não tanto quanto uma penitenciária brasileira, mas lota.

 Não é exatamente o trem da alegria.

Até que um novo rei é coroado: O Rei da Ala 3! Ele se auto-proclama rei, e ai começa a putaria. Por que ele não tá necessariamente errado. Quer dizer, isso vai da cabeça de cada um. Mas ele só fez o que achava certo pra sobreviver. Ou, no caso, lucrar. Capitalismo é isso ae! E a empolgação com o filme é grande, mas acho melhor parar por aqui, senão vou acabar revelando algo que não devia pra quem não leu o livro. Tem muita coisa pra falar, sério. Podia falar sobre a relação inesperada que o garotinho cria com a mulher de óculos escuros, ou sobre os conflitos que o oftalmologista enfrenta, dentro de si e com os outros internos no confinamento, mas esses detalhes são o tipo de coisa que não tem tanta graça ler sobre. Então, vão ver o filme, seus motherfuckers, que cês não vão se arrepender!

Ensaio Sobre A Cegueira

Blindness (118 minutos – Drama)
Lançamento: Canadá, Brasil, Japão, 2008
Direção: Fernando Meirelles
Roteiro: José Saramago (Livro), Don McKellar (Adaptação)
Elenco: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Alice Braga, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura, Don McKellar, Maury Chaykin, Mitchell Nye, Danny Glover, Gael García Bernal, Scott Anderson, Isai Rivera Blas, Jackie Brown, Martha Burns, Joe Cobden

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