Quem não riu é porque não entendeu

baconfrito quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Um comediante sem graça é incompetente?

Sim, afinal de contas, considerando que esse é o trabalho do cara, e ele falhando em ser engraçado, em fazer sua plateia rir, ele é incompetente. Um comediante sem graça não é nada. Está abaixo até de um comediante tão ruim que consegue fazer os outros rirem por pena, um comediante tragicômico.

Mas o “engraçado” não é relativo? Não varia de acordo com o público, a situação? Não seria então correto dizer que um comediante pode ser, ao mesmo tempo, competente e incompetente, e que pode, no decorrer de seu ato (Seja este de que tipo for), transitar constantemente entre um e outro?

A questão da competência então não seria mais relacionada à capacidade do comediante de “ler” sua plateia? De saber sobre o que fazer piada, para quem, quando, onde? Competência não seria então muito mais uma relação comediante-ambiente do que comediante-plateia? O que importa é o coletivo, o pensamento de massa, a sociedade (Aqui no sentido biológico) em que o comediante se insere?

O resumo então: A competência de um comediante depende de suas piadas, de seu público ou dele mesmo?

Acontece que não dá pra responder “todos os três” porque vejam só, piadas são temporárias, durando os 30 ou 40 segundos que demoram para ser contatas. São mutáveis (Afinal, quantas versões diferentes de uma mesma piada todos já não ouvimos?), adaptáveis, efêmeras. Uma piada é mais uma ferramenta do que um objetivo.

Por outro lado, também não seria injusto classificar a competência de um comediante pelo seu público? Afinal de contas o público também é mutável: Mesmo que as mesmas pessoas assistam o mesmo espetáculo de comédia, o dia muda, a hora muda, a “vida lá fora” continua e influencia em cada um alí presente. E mesmo que não influenciasse, você (E nem ninguém) diria que um encanador é incompetente porque quem trabalha na fábrica de conexões de plástico não percebeu um produto defeituoso na linha de produção.

Por fim, é justo colocar sobre as costas do comediante toda essa responsabilidade? “Você não percebeu que fazer piada de aborto numa maternidade não daria certo”… O mundo não é fácil assim, não é uniforme, óbvio. É simplesmente impossível prever cada reação, saber cada posicionamento social, econômico e político. É impossível conhecer, à fundo, cada pessoa na plateia, mesmo que seja a sua mãe, suas tias e seus primos melequentos. E, cedo ou tarde, chega um momento em que as piadas que não incomodam ninguém acabam.

Tudo se resumiria então à entrega da piada? O como ela é contada? Essa é uma das grandes chaves da comédia (E da atuação também), mas dá para colocar nela toda o peso do sucesso? Dá pra fazer uma piada sobre aborto, numa maternidade, durante a morte de uma criança, com a mãe do lado, com alguém filmando pra botar na internet e ainda se dar bem? Fazer todo mundo rir? Não é uma questão de unanimidade, mas sim de competência: Até mesmo quem não riu (Por qualquer motivo) poderá dizer que “essa piada foi boa”? Talvez haja até um jeito de que esta resposta seja “sim”, mas eu é que não aposto nisso.

Só clássicos hoje.

Tem aquela máxima de que “não existe piada sem graça”… Meu querido, você não conhece minha família. Talvez tenha alguém no mundo que ria de qualquer coisa. Talvez sempre tenha alguém pra rir de qualquer piada que seja feita, mas rir não é sinônimo de graça. Dá pra fingir rir, dá pra rir forçado, dá pra rir por educação, dá pra rir por pena, dá até pra rir porque a piada foi tão, mas TÃO sem graça que só o pensamento de que você e mais tantas outras pessoas ouviram aquela porcaria já é algo cômico. Quase um momento catártico de notar que você acabou de desperdiçar alguns minutos da sua vida e jamais os terá de volta.

Fazer uma piada ruim é totalmente culpa do comediante. O cara pode até não achar que é uma piada ruim, mas a culpa é dele do mesmo jeito, e sabe o que mais? Quem é que pode culpar qualquer comediante por fazer uma piada ruim? Quer dizer, o Bacon mesmo é cheio delas, a gigantesca maioria das pessoas só faz piada ruim, você e seus amigos fazem piadas ruins o tempo todo, e a real é que todos nós nos divertimos com isso. Não dá pra rir de todas elas, mas se desse seria mais uma questão de saúde mental que senso de humor. Mas tá tudo bem. Sério mesmo, tá tudo bem fazer piada ruim.

Agora, fazer piada que não faça ninguém rir é, sim, culpa do comediante. E veja bem, seja uma piada boa, uma piada ruim ou uma piada sem graça, ainda dá pra fazer alguém rir com ela. Talvez não seja uma risada sincera, talvez não seja aquela risada “de verdade”, porque a plateia achou engraçado, porque a divertiu à ponto de gerar a reação biológica natural que que é o riso, mas talvez pedir por esse tipo de risada toda vez seja pedir demais. É pedir demais que a sua versão de “por que a galinha atravessou a rua” mude a vida de cada um que esteja te vendo e ouvindo; ainda não há uma técnica pra fazer milagres.

Então, no fim, o comediante incompetente é aquele que não faz ninguém rir, seja porque suas piadas simplesmente não foram boas o bastante para alegrar o público e nem ruins o suficiente para quebrar a barreira da apatia. Seja porque lhe falta prática pra contar uma piada do jeito certo ou porque não sabe identificar sua audiência, porque no fim do dia a prática também é necessária, indispensável na real, e não dá pra praticar pra sempre na frente do espelho, pra família e pro chuveirinho durante o banho.

Talvez a marca da competência seja saber quando admitir a derrota, rir de si mesmo e aproveitar pra fazer sua plateia rir de você também.

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