Como fazer o seu best-seller ter uma adaptação pro cinema

Cinema, Livros terça-feira, 14 de julho de 2015

É interessante essa coisa dos best-sellers, não? Ainda que a quantidade geral de livros vendidos a cada ano diminua (Mesmo com as ondulações comuns do mercado), os mais diversos jornais, revistas, sites e instituições especializadas mantém sua lista de best-sellers: Os livros mais vendidos dos últimos tempos, um feito mais impressionante do que seus correspondentes na música, e que ainda mais comumente é estampado inutilmente nas capas dos livros.

Primeiro de tudo, há de se deixar claro que se você tem um livro já pronto e ele não corresponder às exigências aqui (Apenas) narradas, há duas saídas: A primeira é abrir mão da obra já feita, alterá-la, editá-la, mudá-la e, finalmente, adequá-la ao que for dito; a segunda é desistir de uma adaptação para o cinema (Com um pouco de sorte não precisará desistir do livro como mero livro).

Por outro lado, se você ainda não tem um livro, parabéns! Torna tudo muito mais fácil já que ninguém terá de perder tempo vendo o que já se tem, e assim a confecção da nova obra não precisará ser formulada para a tarefa, uma vez que já será feita com os objetivos corretos em mente.

Vamos começar do começo, assim ninguém se perde, e depois podemos seguir de forma mais aprofundada: Um livro tem três elementos básicos, a se citar o meio, o tempo e os personagens. O meio é a parte física, o onde; o tempo é o período em que a história se passa, o quando; e os personagens são o elemento centralizador da história, não quem, mas por que.

 Todas as imagens deste post são stock images sem motivo particular nenhum.

O meio da história pode ser qualquer um, em qualquer lugar: No meio da maior cidade do mundo ou no campo, em isolamento; no mundo mágico das fadas ou numa favela real famosa. O que o meio é não importa mesmo, o que importa é que este deve ser interessante.

Percebam o que eu disse: Interessante. Não pode ser um lugar legal. Não pode ser um lugar em que o autor se sinta bem, em casa, não, nada disso. O meio tem que despertar interesse, e ele pode fazer isso de alguns jeitos diferentes: Sendo extremamente violento (E aí encaixam-se todos os tipos de violência), sendo um lugar idealizado (Ou seja, perfeito demais), sendo misterioso (Um meio do qual não se sabe quase nada, e o que se sabe entra em uma das outras categorias), sendo próximo do real (Neste caso, o interesse é despertado pela familiaridade), ou ainda sendo uma versão modificada do real (Aqui entram as fantasias medievais, dimensões paralelas e essas coisas todas).

Em suma, o leitor tem que se interessar pelo meio, mas não deve jamais querer viver nele. Se ele quer viver no meio significa que o meio é amigável demais, e se o meio for amigável demais, o tempo não importa porque será bem aproveitado e os personagens não tem um ponto de apoio. O jeito de se tornar o meio interessante porém inóspito é seguir o conselho de Maquiavel, mas ao contrário: Fala-se tudo de bom que o meio tem, pra depois ir minando isso aos poucos. Desse jeito o meio ganha profundidade e o personagem ganha importância.

O tempo, como disse, é o período de tempo que a história abrange. O tempo não precisa ser linear, direto, rápido e nem nada disso. Aliás, dependendo do que você quer mostrar, o tempo sequer precisa passar, contanto que você esclareça que naquele momento mágico o tempo não passou por algum motivo qualquer.

O tempo é o elemento básico mais fácil de se brincar porque contanto que o resto faça sentido, ele não precisa fazer, e em alguns casos você ganhará pontos extras se ele não fizer sentido nenhum mesmo: Todos os elementos de uma narrativa que alterem o tempo são bem vindos, desde lembranças até flashbacks, de magia à simplesmente um relógio parado. A menos que seja para alterar a ordem natural do tempo, sequer faça menção à ele: Passa por cima mesmo, e cada um define para si se o tempo passou ou deixou de passar, o importante é marcar quando as coisas não saem do jeito ordinário.

Finalmente os personagens. Os personagens devem ser, para todos os efeitos, genéricos. Seus personagens não podem ter personalidade já que se um personagem tem personalidade ele não é um personagem, mas uma pessoa real, e uma pessoa real é um indivíduo, o que significa que o público leitor não vai se identificar com o personagem. Não levem isso do jeito burro: Seu personagem tem que ter opiniões fortes, ser teimoso em algumas coisas, fazer uma ou outra coisa esquisita, cometer grandes erros e grandes acertos, contanto que nada disso seja memorável.

Timmy, 16 anos.

Gosta de: Skate, música, torta de amora com quiabo da avó.
Não gosta de: Esportes, TV, música mainstream.

Um grande sonho: Subir o monte Everest para ver se tem realmente corpos de alpinistas na subida.
Um desafio: Mario Kart contra o primo mais velho do melhor amigo.
Já fiz e não me arrependo: Terminar com a Kim.
Já fiz e me arrependo: Não ter avisado a Kim que não estávamos mais juntos antes de ficar com a Carol.

“Nunca deixe que ninguém te diga o que fazer, principalmente nas segundas-feiras”

Um personagem que gere identificação requer muito mais trabalho, e a probabilidade de dar certo no cinema é muito mais baixa já que requer um ator melhor para o papel. Um personagem identificável tem características que façam dele um quadro em branco, mas não ao ponto de o leitor começar a trocar o nome do personagem pelo seu próprio durante a leitura (Isso é para as fanfics). Não precisa se desesperar: O segredo é encontrar o equilíbrio entre a falta de personalidade e a necessidade de que lembrem quem o personagem é quando este for mencionado numa outra hora na história, e normalmente esse segredo inclui um nome meio esquisito pro personagem ou ainda uma descrição detalhada de sua aparência.

Lembre-se entretanto que o objetivo é a telona, e portanto deve-se pensar em como tudo será retratado na adaptação: Não só os atores, mas o meio deve ter sempre uma boa fotografia; seja numa cena de carnificina, seja num casamento. A beleza visual deve ultrapassar sempre o que a história está mostrando para que até mesmo quando a história deslize, o meio seja o suficiente para garantir o público. De novo, o tempo não importa muito: Faça o que quiser, contanto que você explique bem, pra ninguém ficar com dúvida.

É sempre uma boa ideia escrever o livro diretamente como um roteiro, para depois transformá-lo numa narrativa tradicional. Assim alguma eventual surpresa pode ser reconhecida antes da adaptação oficial… Aliás, sempre que possível seja responsável também pela adaptação do seu livro para o cinema. Não é algo que se tem muita escolha, mas se a oportunidade surgir, não perca: É um álibi pra galera do cinema e algo a mais pro seu currículo.

Mas voltando para a parte literária, vamos abordar questões mais teóricas: A escrita. Há duas grandes escolas quando se trata da escritura de um romance, e são elas o Pedantismo e o Simplorismo. A primeira diz que o quão mais rebuscada for a escrita, melhor, uma vez que leva o leitor a conhecer mais de um idioma. A segunda diz que o importante é a mensagem em si, e que portanto uma linguagem simples deve ser usada, para não desviar a atenção do público. A apuração, obstante, é embargada pela primordialidade de expedir seus desígnios de modo preciso e esmerado: Quanto mais fácil a linguagem, um público maior pode aproveitar a obra, e um público maior é exatamente o que se tem e se espera quando se trata do cinema. Você pode sim incluir uma ou outra palavra mais complicada, contanto que dentro do contesto correto. Também é sempre uma boa ideia fazer piada consigo mesmo quando se usa uma palavra assim, dá um toque de intimidade com o leitor.

Aliada à linguagem escrita está a linguagem visual. É importante ter um bom projeto gráfico do seu livro: Romances que se levam à sério não tem um monte de desenhos e ilustrações, nem é muito colorido, mas uma eventual imagem ajuda a quebrar a monotonia da leitura e dá um ar mais detalhado ao que se lê. Não é uma boa ideia entretanto ilustrar um personagem: Na dúvida, ilustra-se o meio sempre.

Entre folhas brancas e folhas amareladas, escolha as amareladas: Cansam menos os olhos. Letras grandes, de preferência com um bom espaçamento entre linhas e margens generosas, não só para facilitar a leitura mas porque dá volume e dimensão. A capa do livro vai variar de país para país (Afinal, um best-seller é, atualmente, um produto global) dadas as diferenças culturais, mas esta deve seguir sempre as mesmas regras: O nome do autor deve ser maior que o título do livro, já que é você que tornou tudo possível; assim como nas ilustrações, prefira não ilustrar algum personagem, mas sim o meio ou até mesmo uma metáfora elaborada para representar toda a história; um ou dois easter eggs são sempre bem vindos; cores fortes, com bastante contraste; fontes maneiras pra tipografia; e nada de capas feitas por alguém que não seja um profissional da área: Você é importante e escreveu o livro, já está bom demais.

Agora que você tratou do meio, do tempo, dos personagens, da escrita, da capa, do recheio e do pensamento prévio pro cinema, chega-se enfim à história, o que movimentará o livro e encherá realmente páginas e páginas de conteúdo.

 Tá, eu não resisti. Mas quem resistiria?

Primeiro de tudo, como disse rapidamente, tire um bom espaço para detalhar seus personagens: Estaturas medianas, cabelos naturalmente despenteados, roupas comuns, cor de olhos normais (Ou normais plus tipo dourado – amarelo com brilho – ou com pupilas de gato, coisas assim), tem carro mas precisa de conserto, tem uma família legal mas não consegue aproveitá-la, você entendeu. Desenvolva como seus personagens são para garantir que eles representem um pouquinho de cada leitor (E, em breve, espectador) que eles venham a ter.

Também detalhe o meio. Não como Tolkien, porque fica chato, mas sempre como Aluísio Azevedo: Cada cena é um quadro, e portanto deve-se pensar no enquadramento, luz, fotografia, posicionamento e tudo mais. Não só isso vai tornar sua obra mais interessante como vai facilitar o trabalho da galera no futuro, e por galera me refiro ao pessoal que vai trabalhar na adaptação pro cinema e em quem vai assistir o filme: Uma cena bonita é épica, mesmo que nada de importante tenha sido mostrada nela, uma vez que nossa memória é principalmente visual.

Não dê uma de iniciante quando se trata do tempo: Espaços, parágrafos, linhas puladas e outros elementos extra-narrativos são as palavras-chave aqui. Lembre-se que o livro é escrito, mas o projeto gráfico dele pode sim incluir uma ilustração de modo a contar que o tempo passou: O nome disso é obra multimídia.

Tirado o devido espaço que cada local e personagem merece, há a história central: Há milhões para se escolher, mas a grande maioria dela envolve meia dúzia de elementos básicos. Esta tabela periódica é uma boa ferramenta complementar: Dramas passados não resolvidos, antigos amores, novos amores, personagens conhecidos que retornam, missão “impossível” a ser resolvida, conspirações, briga entre clãs/famílias/raças, guerras, mais um pouco de amor, sexo, sexo com e sem amor e traições (Amorosas ou não) são sempre bem vindas. Fica aqui o grande lembrete: Não se deixe levar pela história. Lembre-se sempre que o que importa é a identificação do leitor com a obra, e se o leitor ver o personagem fazendo algo que nem mesmo dentro da história criada seja possível, tudo pelo que se trabalhou está perdido. E não deixe o personagem criar personalidade durante o percurso também.

 As marcas d’água deixam tudo melhor.

Contanto que você tenha seguido mais ou menos estes passos, agora tudo que você tem que fazer é publicar seu livro. Pode parecer difícil, mas não é: O seu livro é fácil de ser lido, tem personagens identificáveis, uma ambientação legal e, de quebra, está a meio caminho andado de poder ser adaptado pros cinemas! O sonho de uma editora que se realiza! Basta você assinar os papéis entregando os direitos autorais e utilização de obra pra editora (E desta pro estúdio de cinema) e esperar sua parcela dos lucros.

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