Cancelamento de Bloodline é um frisson desnecessário

Televisão segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Nota do editor: Não tem Primeira Fila hoje.

Outro dia, no ônibus, me deparei com a notícia de que Bloodline vai terminar em sua terceira temporada ano que vem. Na cerimônia do Emmy, isso também foi falado à exaustão. Kyle Chandler foi anunciado como apresentador de uma das categorias, houve menção. Quando foi indicado como melhor ator, idem. Até a vitória de Ben Mendelsohn como melhor ator coadjuvante, foi ofuscada pelo anúncio que só surpreendeu a quem não acompanha a trama, que conta com um dos melhores castings dos últimos anos e uma narrativa consistente, com mais acertos do que erros.

Como se fosse um demérito não parar na UTI, entubada antes de seu fim, Bloodline foi pintada quase como um fracasso pela mídia após o anúncio. É bem verdade que não é um super sucesso de público, sequer figura entre as mais assistidas do Netflix, e que sua segunda temporada foi menos catchy do que a primeira. O que não significa nada. Séries que vêm caindo de produtividade há anos, como Grey’s Anatomy, How To Get Away With Murder e Supernatural sobrevivem capengas graças ao fandom. No drama médico de Shondanás, por exemplo, encontramos apenas dois atores originários da primeira temporada. Peças chave, como Patrick Dempsey e Sandra Oh, pularam do barco, deixando com calças nas mãos a equipe, os fãs, o desenrolar da história. Morre o co-protagonista, assim como outros tantos dissidentes, mas a narrativa continua a se desenrolar como se nada fosse, em meio aos encontros e desencontros amorosos de Meredith Grey nos corredores hospitalares. A mesma coisa nas 13 temporadas. Séries já canceladas demonstram que se estender não é sinônimo de qualidade. Lost e Dexter foram renovadas por muitos anos graças ao hype, mas fecharam o balanço com saldo negativo, inclusive junto aos fãs.

Eu também!

Bloodline é uma drama familiar. Sua trama principal é forte demais e, apesar das histórias colaterais, é o que segura a série. É o que dá sentido a ela. Solucionada, não tem razão de existir. E acho que foi muito bem segmentada, parafraseando Agatha Christie, como uma tragédia em três atos. A primeira temporada mostra a união dos Rayburn, até que a chegada do primogênito Danny (Ben Mendelsohn) rompe com o bem-estar e a normalidade da família. Segredos são revelados, problemas são criados e, ao final, a frase dita por John (Kyle Chandler) logo no primeiro episódio, “Nós não somos pessoas ruins, mas fizemos uma coisa ruim”, não nos convence – porque, fora o John, todos são seres humanos terríveis – mas também permite uma reflexão sobre os limites da nossa moral e até que ponto podemos, ou devemos chegar, para preservar nossa integridade e a de quem amamos.

Já na segunda, vemos as consequências dessa “coisa ruim” que essas “boas pessoas” fizeram. Descobrimos mais sobre a vida de Danny antes de regressar a Islamorada e a exaustão de John por carregar nas costas os problemas familiares e seus segredos. Enquanto flashbacks tornam o vilão simpático ao público, mostrando um homem que ainda não conhecíamos, o maniqueísmo do mocinho surpreende. E eles colidem na inevitável constatação de que não são tão diferentes assim. E odiamos, cada vez mais, o ar de superioridade de Meg (Linda Cardellini) e o inútil do Kevin (Norbert Leo Butz) que só traz problemas e inviabiliza qualquer solução, porque é impulsivo e pouco inteligente. Passa a integrar o elenco David Zayas, como o controverso Aguirre, que antagoniza com John na disputa como xerife do condado e, de quebra, revela uma faceta desconhecida do, até então, doce e honesto Marco Diaz (Enrique Murciano).

Na ótima season finale é que a ficha cai para os fãs: Bloodline não sobreviverá a uma terceira temporada. Eu falei exatamente essa frase quando assisti. Como para John, Meg e Kevin, já não há novos caminhos para a trama. Não precisou de artigo na internet ou comentarista de prêmio nenhum para me explicar que não há necessidade de prolongar o encontro dos Rayburn com seus destinos que, para o bem ou para o mal, já estão traçados. Estender a história por tempo demais incorreria em riscos desnecessários para uma narrativa tão amarrada. Cedo ou tarde, a evasão do elenco seria uma questão. Ben Mendelsohn, por exemplo, é o vilão do próximo Star Wars. Kyle Chandler é um protagonista profissional e nunca vi Linda Cardellini desempregada. Não é interessante ficar preso a uma série agonizante, cansando sua imagem e minando novos convites. E, em se tratando de um núcleo tão fechado e decisivo para o encaminhamento do seriado, isso seria mais um empecilho para seu sucesso. O pacing, que já é lento, teria que se arrastar ainda mais, o que afastaria a nova audiência e os fãs, porque comprometimento tem limite. Não tem barriga que segure os acontecimentos da segunda temporada e eu fico feliz que, de antemão, os criadores saibam que é a chance de coroar uma ótima série com um ótimo final.

Talvez por não ser fan favorite, Bloodline tenha a oportunidade de encerrar com grandeza sua história. Longevidade na TV significa retorno financeiro e sucesso de público, mas pode ser a maior desgraça que um programa pode enfrentar, com desgastes naturais, perda de personagens e incoerências narrativas. Acredito que, em vez do cunho negativo que um cancelamento carrega, deveria servir de reflexão para os criadores e roteiristas planificarem suas histórias e definirem, a parte da emissora, até onde uma história deve ir. Que seja breve, mas eterna enquanto durar. Tão melhor terminar por cima do que se perder em mil e um mistérios de Lost, conflitos existenciais de um serial killer atípico ou cânceres terminais que não matam ninguém.

Bebe que a saudade passa.

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