Entrevista com Tiago Junges do Coisinha Verde

Games segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Eis outra entrevista acerca de RPG, desta vez com o Tiago Junges, do Coisinha Verde. Se você achou a RetroPunk estranha, pode ter certeza que esse aqui é ainda mais.

 Tiago, aprontando altas confusões numa quest da pesada.

Já vou começar pedindo que você faça uma breve (Ou não tão breve) apresentação da sua pessoa e tal. Divirta-se.

Eu sou Tiago Junges, também conhecido como Coisinha Verde, e sou o criador de jogos e escritor de RPG. Tenho 28 anos sendo 16 destes jogando e escrevendo RPGs. Entre meus títulos, os mais conhecidos são Mighty Blade RPG e Malditos Goblins. Recentemente estou preparando todos meus jogos estacionados para lançar em 2012.

Então, Mighty Blade é o clássico RPG medieval, que, até onde eu vi, tem muitas semelhanças com D&D, só que é mais fácil: Apenas d6, vejam só que maravilha. Sério, é absurda a quantidade de coisas que já tem para Mighty Blade, no site oficial (O link alí em cima) tem TUDO para download: Livros de mestre, monstros, mapas, fichas, dicas, aventuras e ainda a revista oficial da coisa, que, vou lhes dizer, à nivel de publicação.

Malditos Goblins é um RPG de humor, no qual são todos goblins, e bem, um goblin tem que fazer o que um goblin tem que fazer. Deve ser a maior zona jogar esse troço, mas definitivamente parece ser o jogo mais legal dele.

Porra, cê começou a jogar cedo, hein? E com 12 anos, você jogou o que?

Hehe… Eu joguei um jogo de Vampire, mas comecei mesmo com AD&D. Como eu já adorava o Hero Quest (Eu era realmente muito viciado), quando vi o First Quest na banca pela primeira vez comprei logo e já fui jogando. Nunca mais parei. Depois de um tempo comecei a entrar no Storyteller e jogar de tudo um pouco. Fiquei viciado em sistema alternativos, mas sempre jogando D&D com outro grupo que acompanhou todas edições (Até mesmo a 4ª).

Só para quem não sabe: Hero Quest é um jogo de tabuleiro, no estilo medieval. First Quest era um pacote para iniciantes do AD&D. Vampire é um RPG (Obviamente) sobre vampiros e Storyteller é um sistema de Vampire.

Então você tem uma mesa fixa de D&D? Desde quando ela existe?

Como falei, ela começo na época o AD&D, mas ela mudou e não jogamos mais D&D. A 4ª edição mudou o jogo para um jogo de tabuleiro, e não nos agradou a longo tempo. É um jogo muito legal, mas não é RPG, e o grupo sempre queria joga RPG. E o D20 da D&D 3.X (Uma das edições de D&D), já “deu o que tinha que ter dado”. Já é um sistema ultrapassado e com conceitos até abandonados pela maioria dos game designers atuais. Nenhum sistema dura para sempre, e ele está “vivendo por aparelhos” enquanto não apresentam coisa melhor. E como vemos hoje, está aparecendo muita coisa nova no mercado independente brasileiro. Retropunk, Secular, Confraria dos Observadores, Redbox e outros, estão aparecendo e ganhando espaço no mercado. E obviamente, “Coisinha Verde” também está ai!

Faz sentido. E quando você viu que poderia criar sistemas próprios?

Foi quando descobri que haviam outros sistemas! hehe
Naturalmente, como qualquer mestre após um tempo, eu começei a desenvolver regras diferentes. Sistemas inteiros eu fiz quando queria jogar por chat (Na época, no mIRC). Com o tempo fui aprimorando, e quanto mais jogava outros jogos, mais ideias vinham de maneiras de construir o jogo, acho que toda semana eu tinha uma ideia de sistema novo.

Muitas experiências e playtests com diversos sistemas. Não é facil conseguir um grupo que aceite fazer experiências com tantos jogos, mas felizmente eu tinha e pude aprimorar meus jogos. Hoje, eu ainda faço a mesma coisa: Muito playtest (A coisa mais importante no desenvolvimento de jogos) e experiências diferentes.

Mas você vive só disso hoje em dia?

Infelizmente não, aliás, isso é o que me da prejuízo! hehe
Eu faço por que gosto e tudo que ganho eu gasto pra divulgar e fazer mais materiais para meus jogos.
Ninguém no Brasil vive só de RPG. Mas pretendo trabalhar com game design. Seja de jogos eletrônicos, boardgame ou RPG. Trabalho hoje com desenvolvimento Web, sou programador.

Sei como é, o Bacon me dá um preju considerável também. Mas afinal, quantos sistemas você já desenvolveu? Algum deles tá fechado?

Uma coisa que aprendi é que um jogo nunca está pronto de fato. Sempre tem algo pra arrumar, algo pra adicionar, algo pra mudar. E eu sou muito chato com isso. Tenho tantos sistemas que nem saberia dizer um numero exato. Já fiz para diversos temas, cenários, gêneros, etc., e a maioria está naquela eterna fase de “playtest”. Alguns eu divulguei na internet como o Mighty Blade, Malditos Goblins, DOGS, Jogo dos Espíritos, etc., e cada um teve um motivador pra divulgar.

O Mighty Blade eu tinha decidido ir jogando cada versão dele na internet e deixar que todos ajudassem, e isso fazem já tem 6 anos. O sistema chegou a um ponto em que está razoavelmente estável, e por isso fiz a versão impressa.

Os outros foram jogos que fiz para participar de concursos de Game Design de RPG. E por isso o playtest foi muito curto. O bom é que jogando na internet as pessoas ajudam com o playtest: Um dos exemplos é meu mais recente Card Game que estou fazendo playtest, e quem está participando está gostando bastante e ajudando com o desenvolvimento.

DOGS é um RPG baseado no filme Cães de Aluguel, e nada de dados aqui: Apenas marcadores, papel, um baralho comum e gente para jogar. A história é a mesma do filme: Um assalto, um informante e frases de efeito.

Jogo dos Espíritos é outro que não utiliza um sistema convencional: Um copo e um baralho de tarô. É meio que naquele esquema de “ver onde o copo vai”, mas creio que esse acabou por sair bastante do RPG… É uma boa dica caso você queira virar vidente.

Não sei acerca de Mighty Blade e da versão impressa, mas creio que se vocês falarem com o cara, ele dê informações acerca da venda. No canal do YouTube dele tem uns vídeos com demonstrações da versão impressa.

Playtest é, obviamente, jogar para ver o que rola. O TCG que ele diz é o Card Goblins, baseado em Malditos Goblins, mas não é um RPG. Nesse link aí explica como participar do playtest, mas desde que essa notícia saiu pode ser que já tenham terminado… Enfim, testar para ver.

E, como criador e jogador, qual é o seu sistema favorito?

Essa é a pergunta mais difícil de todas! É tão difícil quando colocar nome no personagem (Ou no sistema!) hehe.

Como em cada momento eu tô afim de jogar algo diferente, vou citar um sistema que acho genial pelos seus mecanismos: FATE! E praticamente todos os derivados. Especialmente o que o John Wick fez no House of the Blooded. Seu mecanismo é extremamente funcional e equilibrado, e é bem narrativo, permitindo fazer muitas coisas legais!!

Como falei… Não digo que é meu sistema favorito, mas é um dos mais legais que ja joguei. Gosto de muitos jogos e essa lista aumenta cada vez que jogo mais jogos alternativos. Posso dizer que nos meus grupos o que mais jogamos é o Mighty Blade RPG, que é definitivamente o preferido do pessoal para jogos de aventura de fantasia medieval. As vezes rola uns GURPS (Temos um amigo viciado em GURPS e quando ele mestra tem q ser).

FATE é um sistema de RPG altamente customizavel, gratuito, e publicado pela Evil Hat. John Wick é um game designer e House of the Blooded é um RPG que explora uma parte mais “social”, voltado para chantagens, enganações… Enfim, aqui tem um bom resumo da coisa.

E GURPS… Porra, se você está lendo esse post você sabe o que é.

E você realmente escavou uns sistemas bem interessantes. Baseado nessa nova leva de RPGs, você acha que o futuro do RPG é menos “matemático” e mais interpretativo, sem aquele peso do Storyteller?

Não acredito na hegemonia do “narrativismo”. Acho que os jogos mais lúdicos serão os favoritos da maioria como sempre foram, e sempre terá gente atrás de jogos mais interpretativos. No geral, as pessoas continuarão as mesmas, os jogos que serão diferentes… Mais evoluidos mas ainda alvos de críticas.
Não acho que exista um RPG perfeito e nunca existirá. Afinal, nenhum grupo joga da mesma maneira que outro. Todo mestre ja fez uma regra de casa alguma vez na vida.

O que se tem recentemente é um papo de “Old School vs New School”, o que eu acho uma besteira sem tamanho. Que só é visível pelos jogos e jogadores que, na minha opinião, estão é olhando para o RPG com os olhos errados: De um lado uns velhos que ainda acham THAC0 uma ideia legal, e do outro uma empresa megalomaníaca que comprou o direito do RPG mais vendido do mundo que quis transformá-lo em uma fábrica de dinheiro (E não conseguiu apesar dos esforços).

Eu sou da época desses velhos RPGistas, mas minha cabeça não parou naquela época. Eu me considerava um “Old School” pelo fato de gostar de folhar meu livro do mestre do AD&D, mas agora tão querendo falar em “Estilo de Jogo Old School”… Que merda que isso quer dizer?? O pior que alguns ainda dizem que “é um estilo mais narrativo”. Narrativo o caralho! AD&D tinha mais foco em combate que a própria 4ª edição!!! Perícias eram OPCIONAIS!E temos o outro lado, o New School. Apelidado pelos que se dizem Old School (O que torna a coisa mais estranha ainda), que seria o lado do D&D4.

Como falei, a mega corporação engolidora de jogos, a Hasbro, comprou a Wizards of the Coast e como fez em todas suas aquisições, decidiu investir e redirecionar seus títulos a fim de gerar mais lucro. As mesas de RPG estavam perdendo gente para os jogos online (O que não é uma verdade absoluta, mas não vamos discutir aqui) e as vendas não faziam sentido perto de outros jogos de tabuleiro. RPG é um jogo diferente com um público diferente. Sem conta a questão do OGL (Open Game Licence). A Hasbro então forçou a se vender miniaturas, e tornar o D&D um jogo mais parecido com os “jogos normais”. Tentaram de tudo, desde tornar um WoW-like até por fim um jogo de tabuleiro. E é nesse ultimo que ele está agora. Pararam de produzir os livros, pararam de produzir as miniaturas, começaram a vender caixas com marcadores de papelão, e fazer verdadeiros jogos de tabuleiro (Acaba de sair mais um, agora avacalhando o grande Drizzt Do’Urden). É patético o destino do jogo que eu mais amei jogar. Mas é a evolução! Uns ficam pra trás, e outros reaparecem!

Hi… falei demais… hehehe

Porra… Por partes: THAC0 era um sistema do D&D que basicamente dificultava para dar dano num oponente. “Perícias” são as habilidades do personagem, tipo montaria e escalada, e determinam os tipos de arma que o personagem usa.

A quarta edição do D&D, como o Tiago falou, virou um jogo de tabuleiro, então é a maior putaria na hora do combate, cheio de regras e tudo mais. O AD&D era mais fácil e simples, só que mesmo sendo incompleto não fodia a vida da galera.

Nem sabia que a Wizards era da Hasbro… Isso explica a putaria com Magic. Caso vocês não saibam, WoW é um MMO, e o D&D tem seu MMO também: Dungeos & Dragons Online, que até uns tempos atrás estava grátis, agora nem sei mais. Por fim, Drizzt Do’Urden é um personagem fodão criado num dos cenários de D&D e sei lá porque gostam dele.

Demais nada, só mostrou que você sabe do que tá falando. E me complicou até pra formular uma nova pergunta. Vou até mudar de foco: Fora RPG, você joga algo, como videogame ou jogos de tabuleiro de verdade?

Jogo muito! Jogos de tabuleiro eu gosto muito. As vezes mais até que RPG! Acho que cada momento temos vontade de um jogo diferente, e os jogos de tabuleiro te dão muitas opções a mais.

Eu também desenvolvo esses jogos, mas nenhum ainda está pronto pra ir pro público. Quando tiver pronto todos saberão pelo meu site e pela divulgação feita.

Caceta, é muito plano. Se sair metade dissae, cê domina o Brasil e mais três territórios. E traduções de sistemas, você faz?

Não. Não faço e nem pretendo. Eu gosto de fazer meus jogos e é isso que eu quero, não quero ser uma editora e fazer dinheiro: Meu objetivo é publicar minhas criações, nada mais. Se eu ganha dinheiro com isso ficarei feliz. Antes de editora, sou um game designer e é isso que quero!

Então tá mais pra um hobby que qualquer outra coisa. E você tem quantos sistemas próprios prontos, ou jogáveis, atualmente?

No site é possível baixar o Mighty Blade, Malditos Goblins, DOGS e o Jogo dos Espíritos. Cada um tem suas características e objetivos distintos, mas em breve colocarei mais.

Certo. Acho que é suficiente. Gostaria de acrescentar algo?

Que rolem os dados!

Então, além dos RPGs que o Tiago falou, o Coisinha Verde ainda tem Calisto, um sistema/jogo para noobs simples, que basicamente pode ser jogado em qualquer lugar. Pelo que eu vi, é o sistema mais simples do cara, e como ele mesmo diz, excelente pra introduzir (Ui) a galera ao RPG.

Como vocês notaram, o cara é cheio dos projetos, e aqui vocês tem uma ideia do que ele está preparando. Provavelmente todos esses terão o playtest, então se alguém quiser se voluntariar, fiquem à vontade.

 Um bardo?

Fica aqui um apelo óbvio: O cara praticamente trabalha sozinho, e disponibiliza tudo na faixa, então, se você é um nerd sem vida e seus sábados são chatos, fale com o maluco que ele te alegra gostará de ter gente ajudando, seja jogando seja dando idéias. No Twitter dele vocês tem notícias acerca os RPGs e principalmente dos eventos que ele vai (E são vários).

E por último, ficam os agradecimentos ao Tiago, não só pela entrevista mas pela demora da mesma (Sim, esta também), e os parabéns, porque criar tanta coisa assim (E administrá-las) é foda, e ele faz isso com uma qualidade incrível (Vide a revista), principalmente as ilustrações (Que se não é ele que faz, é ele que escolhe). Agora é esperar pelo próximo lançamento… Que pode ser ainda este mês.

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  • André

    Porra, Loney, adorei a entrevista!Tente fazer outras matérias relacionadas a rpg,pois essas entrevistas mesmo ficaram massa!

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